Inaugurada a contagem decrescente, durante a qual não prevejo acrescentar muito mais do que de camuflado venho guardando, reparo que fui “rasteirada”. Assim, cumprindo com o papel que me cabe enquanto elo de uma corrente que me chega de um
diabinho de cueiros de nome Francis, dono de uma
Churrasqueira especializada em actualidades assadas na brasa comentarista, e da minha mui querida Lu do
Pipocas e Carochas e do
Arteminorca (ali há gato, ali há arte!), é com muito gosto que aceito responder ao desafio de ambos, pois não se recusam convites simpáticos como estes.
Trata-se, então, de um repto interactivo, ao género daqueloutro, o das
Etiquetas (que consistia em listar algumas características peculiares), mas, desta feita, enumerando
5 MANIAS [e depois de escrever este rol, notei como umas e outras se assemelham],
o que para mim é sinceramente difícil, porque me considero uma pessoa com muito poucas. Mais depressa aborreceria os demais com a falta de manias do que com elas, creio (é mais
live and let live!). Mas vou tentar:
1. Da língua [não Francis, não é o que a primeira leitura aparenta]:
Amigos, colegas, conhecidos, familiares, formandos e desprevenidos são as minhas vítimas, em se tratando da expressão oral ou escrita. Um "á"(!), um "vou-vos", um "há-des", acentos em advérbios de modo terminados em “mente”, palavras esdrúxulas por acentuar ou deficiente pontuação, coloca-os mesmo a jeito como receptores da [mais elegante que eu consiga] rectificação. Isto, claro, apenas a quem costume escrever
benzoca e seja capaz de acatar a observação com naturalidade, que emendar quem não tem [quer] emenda é tempo perdido (está bom de ver que também aprecio que dêem pelas minhas gralhas antes que se difundam). Já os “percebestes”, “prontos”, “a gente fomos”, “farei-lhe”, “fáçamos”, e outros da família, fazem-me por demais infeliz e abandono a missão, revoltando-me com os próprios, com as escolas, com as famílias, com o país e ainda acaba por sobrar para mim, não sei muito bem como. É uma mania, claro!... Como se os problemas de comunicação entre os seres humanos tivessem alguma coisa que ver com isto!...
Discurso escorreito, prolífero, fluente, com um adequado recurso à estilística e um agradável cunho pessoal, deixam-me bem disposta, seja lá a forma como me apareça ou o conteúdo que veicule.
2. Dos contextos:Associo amiúde determinados locais e circunstâncias às pessoas com quem me agradou partilhá-los, e assim os aconchego na memória, gostando de os repetir: o café com natas com a Sandra no Saldanha, as imperiais nas tardes solarengas da esplanada frente ao rio, o chá com a minha querida Cila no CCB, as refeições inventadas à pressão, com a minha
irmã Ester (pois-pois, tenho a mania de não seguir receitas!), os filmes com
scones e champanhe com meu mui especial Rui, em Santarém… Coisas cuja repetição não são rotina (pelo contrário), mas uma espécie de culto!
Eu não ligo a castanhas, mas uma vez terá que ser, para que seja Outono. Eu abomino sardinhas, mas sabem-me magnificamente nos Santos Populares. Sei que voltaria a comer formiga-de-asa no eirado à beira-mato, se regressasse hoje à minha terra. E alguém teria que me meter dentro de uma camisa de forças (já bem ocupada, de preferência) para me impedir de provar qualquer iguaria que um determinado povo acolhedor me oferecesse, por mais duvidosa que essa fosse (olha,
apanhei-me!: sou é uma experimentalista!... Entro em tudo o que é buraco, mexo em tudo o que é animal (irracional!)... Que mania, pá!).
3. Da escrita:Escrever, escrever, escrever… Cartas, artigos, poemas, impressões, ideias vagas, momentos, projectos, sinopses… Em cadernos, folhas brancas, guardanapos de papel, rascunhos de sms, bilhetes, post-it, jornais, nos livros que leio... E os lembretes, a lápis, no tampo da secretária!… Escrever!!! [Ah, e entretanto, a mania de deixar tudo por aí, em qualquer lado, acabando perdido, pois é!].
É mais do que gostar de escrever. Eu gosto de viajar, de ler, de dançar, de gastronomia de fusão, de línguas estrangeiras, da evolução do pensamento e do comportamento do Homem, de me inteirar do progresso da medicina, de rir, de privar com pessoas interessantes… Mas escrever é mais que isso: é uma tentação, uma necessidade… Uma forte mania!
4. Das refeições:
Há muito que perdi a noção de como se faz para cumprir com essa
coisa de pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar e ceia. Na verdade, comer é quase sempre o último afazer da lista (qual lista?, e porque não me ocorre
escrever uma lista? Ah, sim, claro: porque acabaria por perdê-la!...), e não raras vezes acaba esquecido. Daí que seja habitual perguntarem-me: - "Comeste alguma coisa?" ou "o que é que já comeste?" (com tanta coisa que gostaria que me perguntassem!...), ao que a resposta poderá ser: - "Não deu tempo; não tinha fome; como depois", ou "xi!, esqueci-me de todo!". É claro que o alarme do organismo acabará por chegar inoportunamente, e as mais das vezes afino com a interrupção: - "O que é que foi, agora, hem?... Até parece que ainda não comeste hoje!...”. E depois dou a mão à palmatória: - "Pronto, O.K., ainda não comeste hoje. Havemos de tratar disso!".
Esta mania de não comer conta?
5. Das manias:
Não gosto nadica de manias.
Ça veut dire, não tenho muita paciência para a maioria das manias dos outros. Principalmente aquelas muito obsessivas e restritivas, de ter que
ter aquilo sempre no mesmo lugar, ou que
fazer aquela coisa àquela hora ou daquela maneira, e o diabo a sete. Do que gosto mesmo, é da capacidade de corresponder aos apelos do dia-a-dia espontaneamente, de forma flexível, liberta, adaptável à mudança e aceitando a surpresa.
Tenho a mania que as pessoas têm manias a mais para feitos a menos. E – já agora - que não se esforçam lá muito por aquilo que querem; que se findam na sua pobreza de espírito, encostadas às rotinas desmaiadas e amarelecidas, ao queixume cobarde e inepto, à crítica injusta e ignorante, à monocordia dos passos e das palavras, a regras que se lhe não vestem com harmonia, a falsas premissas que nunca questionaram, a uma forma cinza e muito incompleta de ser e de ser para os outros. Tenho essa mania, sim… Apesar de tentar compreender (ou escolhera a área errada) em cada caso o que a isso leva, e o sofrimento de quem consigo convive mal, e a existência de sonhos maiores mas castrados, e a dificuldade em instituir a mudança...
Digamos que até tenho um lado solar tolerante. Mas o meu lado lunar tem a mania! ;-)
E, chegado o momento de fazer reféns, deixem-me cá pensar... Huummm...
Da última vez desinquietei apenas meninas, pelo que esta será a vez dos rapazes.
Pois os excelsos contemplados com a passagem deste inqualificável testemunho são:
Faço esta selecção como forma de destacar alguns dos mais agradáveis espaços que descobri tardiamente. Nesse sentido, o Churrascos & Co. do Francis seria, sem qualquer dúvida, um dos meus eleitos (o que aliás se nota, pela frequência com que o chateio!!!). E havia a elencar outros mais, bem entendido.
Aliás, têm mesmo que ser só cinco? Não pode antes ser a meia-dúzia, e sempre fica mais barato? Eu até já tenho o sexto elemento no banco à espera para entrar! Vá láaaa!!!...
Não, não pode? Bom, então lá terei que guardar para mim o nome que se seguiria; 'nada a fazer! ;-)