quinta-feira, novembro 30, 2006

Dizem os astros...

Carneiro: se sair à rua poderá molhar-se. Caso fique em casa, poderá ter vontade de sair… E molhar-se. Talvez mais valha molhar-se.


Touro: atenção ao excesso de taurina. Se o não liberta, o coração pode sucumbir. Se o consegue conter, talvez não tenha coração.


Gémeos: tendência para o Tico se opor ao Teco e haver rebuliço. A ausência desse filme poderá dever-se à ausência de pelo menos uma das personagens.


Caranguejo: para trás o que foi, para a frente não se sabe. Use a visão periférica e treine a lateralidade. Por vezes o melhor está mesmo aí ao lado.


Leão: se os seus rugidos já não funcionam como dantes, assista às séries do National Geographic e ao filme do Rei Leão. Misture e sirva quente.


Virgem: há uma primeira vez para tudo, e é quando um Homem quer, como o Natal. E depois dessa, há ainda as outras todas.


Balança: saber escolher entre dois lados, passa por aceitar desequilíbrios. Atenção à calibragem e nada de roubar no peso que as coisas têm para si.


Escorpião: ele há veneno mais doce do que aquele que se partilha? Não precisará matar-se para descobrir como.


Sagitário: S’agitar um pouco, descobre o que tem andado escondido. Se não descobrir é porque afinal não tem (ou não agitou bem).


Capricórnio: você é uma pessoa prática, então pratique. Se não o é, então terá que praticar. Assim como assim, sempre pratica.


Aquário: ambiente ideal para si, se as águas em que se move forem limpas e o plancton de qualidade (pois... novidades não temos).


Peixes: se é de água fria, aproveite bem a época. Se é de água quente, então faça por aproveitar muitíssimo bem a época.

sábado, novembro 25, 2006

Anima Pluviae

Ia forte a tempestade, quando saí de casa. Poucos metros percorrera ainda, quando reparei numa senhora em caminhada oblíqua, desviada pela intensidade do vento, em busca de uma parede que lhe permitisse reequilibrar-se. Ainda assim, a cada passo, o vendaval parecia mais severo.
No cais da estação de embarque, uma paisagem desoladora: tudo em redor era dilúvio, restando apenas uma nesguinha onde permanecer a coberto da queda de água directa, porém indefesa à morrinha com que as fortes rajadas de vento nos açoitavam a cara, traiçoeiras.
A viagem foi toda ela feita ao som das impiedosas chicotadas de uma chuva pesada sobre o metal da carruagem, gerando, no seu interior, um silêncio reverencial .
Chegada à estação de destino, percebo que a intempérie se adensara. Através do amplo vidro panorâmico que a percorria, nada mais observava senão, a cinza, os grossos traços da chuvarda, derrarrumados pelos ventos ciclónicos veramente ameaçadores e esbatidos por uma espécie de fumo criado pelo atrito das águas embatendo contra o chão. E um outro cinzento, mais escuro - meras manchas em excitado corrupio -, que eram pessoas fugidias, em busca desesperada por resguardo. Tudo isso acompanhado por um ruído infernal, que abafava passos e emudecia vozes, tornando a atmosfera um tanto lúgubre.
Não tive hipótese: adiantada que ainda estava, optei por aguardar, aproveitando para descontrair um pouco e saborear alguma leitura. Sentei-me na esplanada interna, num lugar perfeitamente estratégico, de onde me era possível ver o relógio afixado na parede e apreciar, da gigantesca janela, os avanços ou recuos do magnífico temporal. Optimista que sou quanto a coisas mundanas, cuidei que não tardaria muito para que abrandasse significativamente.
Ainda bem não eram cinco da tarde. Por entre o burburinho, consegui ouvir o altifalante anunciar: - "Atenção senhores passageiros: vai dar entrada, na linha nº 4, o comboio com destino a tal sítio. Efectua paragem nas estações de tal, tal e Tal"!
... Parava !!! Sorri-me. Pedi um café, acendi um cigarro e iniciei a leitura de um livro que a minha amiga de infância há dias me emprestara.

É possível que no meu património genético exista o gene da espera, herdado das avós das avós das minhas avós, séculos a fio repletos de gerações de mulheres que viveram toda a sua vida à espera dos homens, desde a reconquista de Portugal, escondidas nas pequenas aldeias do norte sob a protecção do condado. (…) Penélope, a sábia e sensata mulher de Ulisses, que esperou vinte anos pelo marido, sem permitir que nenhum outro homem se casasse com ela e usurpasse o trono de Ítaca, (...) nunca cedeu ao medo, nunca deixou de acreditar que um dia Ulisses voltaria.
Como é incompleta a Odisseia! A história devia ter contado os milhares de trabalhos de Penélope a tentar defender a sua casa e o seu coração, e não os doze trabalhos de Ulisses. De que valem Cíclopes aterradores, ilhas encantadas, cercos de guerras que duram dez anos e sereias hipnóticas e malvadas que fazem naufragar navios, comparados com a luta pela sobrevivência de um amor incerto e sem garantias durante mais de vinte anos, num tempo em que a ausência não tinha outra resposta que não o silêncio e o desconhecimento? Penélope era forte. Não desistiu de esperar, mesmo sem telefones, e-mails ou mensagens escritas.

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O relógio de parede avançara muito, quando me lembrei de o consultar. Lá fora, tudo continuava igual a quando eu ali chegara. Rente a mim, quase tocando, passava, de quando em vez, uma multidão muito apressada e invariavelmente encharcada da cabeça aos pés.
Tanta gente há neste mundo!... Pessoas tão diferentes, que não sabemos quem são, para onde vão, o que as move. E, das que chegamos a conhecer, poucas são as que nos merecem o de mais valioso. Para tão poucas guardamos o melhor de nós! Ao menos saberemos escolher?...

Não me perguntes como, mas sinto que é possível. Gosto de acreditar que tenho o dom de tornar realidade as minhas ficções. E, neste momento, tu és a minha mais bela ficção, um sonho que acalento como uma criança que cresce, sabendo que a espera será grande, será arriscada e ninguém sabe se será frutífera. (…) Baltazar, Belchior e Gaspar não chegaram a Jesus guiados pela estrela polar num tempo em que não existiam bússolas nem companhias aéreas? Naquele tempo, como agora, só a fé pode vencer todos os medos.
Espero por ti porque acho que podes ser o homem da minha vida. E espero por ti porque sei esperar, porque nos genes ou na aprendizagem da sabedoria mais íntima e preciosa, há uma voz firme e incessante que me pede para esperar por ti. E eu gosto de ouvir essa voz a embalar-me de noite antes de, tantas e tantas vezes, te encontrar nos meus sonhos, e a acalentar-me de manhã, quando um novo dia chega e me faz pensar o quão longa e inglória pode ser a minha espera.

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Não posso esperar mais. O fiel relógio da estação avisa-me que são horas de me fazer ao caminho, de outra forma atrasar-me-ei.
Guardo o livro, visto o casaco, desço as escadas rumo à saída.
Ainda antes de abandonar a gare, já uma violenta lufada de vento húmido me cortava a respiração.
Fui andando, e apreciando o impacto daquelas forças todas sobre mim. Aquela não era uma chuva qualquer… Era feita de gotas grossas, maciças, contínuas, impossíveis de dominar porque mancomunadas com a poderosa ventania. Por todo o lado se viam chapéus-de-chuva ao abandono, estraçalhados; o meu seria o próximo, se logo o não fechasse.
Ao cabo de segundos, toda a roupa se ensopara, da indumentária à interior, e os cabelos escorriam para cima da pasta de estimação que apertava contra o peito, livro lá dentro.
Nada tão mau assim!... Como tudo, estranha-se enquanto se receia e se tenta evitar, porém, se o enfrentamos, revela-se mais fácil do que parecia, e podemos dar tréguas a nós próprios.
Talvez por isso mesmo algumas pessoas se me sorrissem ao cruzarem-se comigo. Retribuí.
Avançando, o cenário apresentava-se mais e mais apocalíptico: estradas inundadas por velozes caudais de água, ambulâncias frustrando em furar o trânsito paralisado, com suas sirenes desesperadas a ecoar na escuridão, ruas intransitáveis, quer pelas enormes poças que se criaram, quer por ondas que se formavam à passagem, mesmo que branda, de um automóvel.
Um ou outro indivíduo tentava sincronizar-se com as pequenas marés, preparando o salto bem intencionado. Mas pouco a pouco, não havia como nem porquê; nada a proteger já.
A enchente tornara-se efectiva e incontornável. Olhando em redor, toda a cidade se alagara e as ilhas haviam submergido, não mais sendo possível atravessar, senão por onde o nível da água chegava já a metade das rodas dos carros.
Ao meu lado, um velhinho aguarda pelo verde do semáforo. Calça uns ténis claros e procura no horizonte, até onde a vista lho permite, uma alternativa. Logo desiste. Olha-me com um ar patusco e doce e, sorrindo resignado, diz-me: - “Vai ter de ser…”.
Para que nos não reste qualquer dúvida, confirmo veemente: - “Vai ter mesmo de ser!”.
Tinha que ser! Por vezes há que atravessar caminhos hostis para chegarmos onde queremos, porque nenhum outro caminho nos leva lá.
Que importa que chova e a gente se molhe?
A vida tem estações. E, se estamos vivos, vivemo-las!*

Apetecia-me inundar a tua vida de sonhos (…), mas controlei-me como pude, porque já aprendi que não podemos dar mais aos outros do que eles estão habituados a receber.
(...) O amor é isto, dar espaço e tempo a quem se ama, saber esperar, saber estar quieto, saber abrir os braços sem pedir nada em troca (…).
(...) O amor é mesmo assim; damos aos outros o nosso melhor sem sequer o saber. E tudo o que damos nunca se perde, nada se perde, apenas se transforma e se guarda numa caixa que só o futuro conhece e desvenda.
(...) Quando se ama alguém, tem-se sempre tempo para essa pessoa. E se ela não vem ter connosco, nós esperamos. O verbo esperar torna-se tão imperativo como o verbo respirar. E aprendemos a respirar na espera, a viver nela, aperfeiçoando-nos a um sonho como se fosse verdade. A vida transforma-se numa estação de comboios e o vento anuncia-nos a chegada antes do alcance do olhar. (...) É mais fácil esperar do que desistir. É mais fácil desejar do que esquecer. É mais fácil sonhar do que perder. E para quem vive a sonhar, é muito mais fácil viver.
(…) Penélope esperou vinte anos. Não esperou nem muito nem pouco, apenas o tempo que tinha de esperar.
É quando já não esperamos nada das pessoas, que elas morrem no nosso coração e eu espero por ti ainda e sempre o melhor.


24/11/2006Trechos (a itálico) de "Diário da tua ausência" - Margarida Rebelo Pinto.
Vídeo: "Haja o que Houver"- Madredeus; in O Paraíso, 1997.


* Nota: trata-se, evidentemente, de um recurso estilístico, que não esquece jamais o respeito e a solidariedade para com aqueles que sofreram acidentes graves, cujas habitações sucumbiram, ou que vivem desabrigados, sofrendo na pele os efeitos nefastos, por vezes fatais, dos excessos climatéricos.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Manias



Inaugurada a contagem decrescente, durante a qual não prevejo acrescentar muito mais do que de camuflado venho guardando, reparo que fui “rasteirada”. Assim, cumprindo com o papel que me cabe enquanto elo de uma corrente que me chega de um diabinho de cueiros de nome Francis, dono de uma Churrasqueira especializada em actualidades assadas na brasa comentarista, e da minha mui querida Lu do Pipocas e Carochas e do Arteminorca (ali há gato, ali há arte!), é com muito gosto que aceito responder ao desafio de ambos, pois não se recusam convites simpáticos como estes.
Trata-se, então, de um repto interactivo, ao género daqueloutro, o das Etiquetas (que consistia em listar algumas características peculiares), mas, desta feita, enumerando 5 MANIAS [e depois de escrever este rol, notei como umas e outras se assemelham], o que para mim é sinceramente difícil, porque me considero uma pessoa com muito poucas. Mais depressa aborreceria os demais com a falta de manias do que com elas, creio (é mais live and let live!). Mas vou tentar:

1. Da língua
[não Francis, não é o que a primeira leitura aparenta]:

Amigos, colegas, conhecidos, familiares, formandos e desprevenidos são as minhas vítimas, em se tratando da expressão oral ou escrita. Um "á"(!), um "vou-vos", um "há-des", acentos em advérbios de modo terminados em “mente”, palavras esdrúxulas por acentuar ou deficiente pontuação, coloca-os mesmo a jeito como receptores da [mais elegante que eu consiga] rectificação. Isto, claro, apenas a quem costume escrever benzoca e seja capaz de acatar a observação com naturalidade, que emendar quem não tem [quer] emenda é tempo perdido (está bom de ver que também aprecio que dêem pelas minhas gralhas antes que se difundam). Já os “percebestes”, “prontos”, “a gente fomos”, “farei-lhe”, “fáçamos”, e outros da família, fazem-me por demais infeliz e abandono a missão, revoltando-me com os próprios, com as escolas, com as famílias, com o país e ainda acaba por sobrar para mim, não sei muito bem como. É uma mania, claro!... Como se os problemas de comunicação entre os seres humanos tivessem alguma coisa que ver com isto!...
Discurso escorreito, prolífero, fluente, com um adequado recurso à estilística e um agradável cunho pessoal, deixam-me bem disposta, seja lá a forma como me apareça ou o conteúdo que veicule.

2. Dos contextos:

Associo amiúde determinados locais e circunstâncias às pessoas com quem me agradou partilhá-los, e assim os aconchego na memória, gostando de os repetir: o café com natas com a Sandra no Saldanha, as imperiais nas tardes solarengas da esplanada frente ao rio, o chá com a minha querida Cila no CCB, as refeições inventadas à pressão, com a minha irmã Ester (pois-pois, tenho a mania de não seguir receitas!), os filmes com scones e champanhe com meu mui especial Rui, em Santarém… Coisas cuja repetição não são rotina (pelo contrário), mas uma espécie de culto!
Eu não ligo a castanhas, mas uma vez terá que ser, para que seja Outono. Eu abomino sardinhas, mas sabem-me magnificamente nos Santos Populares. Sei que voltaria a comer formiga-de-asa no eirado à beira-mato, se regressasse hoje à minha terra. E alguém teria que me meter dentro de uma camisa de forças (já bem ocupada, de preferência) para me impedir de provar qualquer iguaria que um determinado povo acolhedor me oferecesse, por mais duvidosa que essa fosse (olha, apanhei-me!: sou é uma experimentalista!... Entro em tudo o que é buraco, mexo em tudo o que é animal (irracional!)... Que mania, pá!).

3. Da escrita:

Escrever, escrever, escrever… Cartas, artigos, poemas, impressões, ideias vagas, momentos, projectos, sinopses… Em cadernos, folhas brancas, guardanapos de papel, rascunhos de sms, bilhetes, post-it, jornais, nos livros que leio... E os lembretes, a lápis, no tampo da secretária!… Escrever!!! [Ah, e entretanto, a mania de deixar tudo por aí, em qualquer lado, acabando perdido, pois é!].
É mais do que gostar de escrever. Eu gosto de viajar, de ler, de dançar, de gastronomia de fusão, de línguas estrangeiras, da evolução do pensamento e do comportamento do Homem, de me inteirar do progresso da medicina, de rir, de privar com pessoas interessantes… Mas escrever é mais que isso: é uma tentação, uma necessidade… Uma forte mania!

4. Das refeições:

Há muito que perdi a noção de como se faz para cumprir com essa coisa de pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar e ceia. Na verdade, comer é quase sempre o último afazer da lista (qual lista?, e porque não me ocorre escrever uma lista? Ah, sim, claro: porque acabaria por perdê-la!...), e não raras vezes acaba esquecido. Daí que seja habitual perguntarem-me: - "Comeste alguma coisa?" ou "o que é que já comeste?" (com tanta coisa que gostaria que me perguntassem!...), ao que a resposta poderá ser: - "Não deu tempo; não tinha fome; como depois", ou "xi!, esqueci-me de todo!". É claro que o alarme do organismo acabará por chegar inoportunamente, e as mais das vezes afino com a interrupção: - "O que é que foi, agora, hem?... Até parece que ainda não comeste hoje!...”. E depois dou a mão à palmatória: - "Pronto, O.K., ainda não comeste hoje. Havemos de tratar disso!".
Esta mania de não comer conta?

5. Das manias:

Não gosto nadica de manias. Ça veut dire, não tenho muita paciência para a maioria das manias dos outros. Principalmente aquelas muito obsessivas e restritivas, de ter que ter aquilo sempre no mesmo lugar, ou que fazer aquela coisa àquela hora ou daquela maneira, e o diabo a sete. Do que gosto mesmo, é da capacidade de corresponder aos apelos do dia-a-dia espontaneamente, de forma flexível, liberta, adaptável à mudança e aceitando a surpresa.
Tenho a mania que as pessoas têm manias a mais para feitos a menos. E – já agora - que não se esforçam lá muito por aquilo que querem; que se findam na sua pobreza de espírito, encostadas às rotinas desmaiadas e amarelecidas, ao queixume cobarde e inepto, à crítica injusta e ignorante, à monocordia dos passos e das palavras, a regras que se lhe não vestem com harmonia, a falsas premissas que nunca questionaram, a uma forma cinza e muito incompleta de ser e de ser para os outros. Tenho essa mania, sim… Apesar de tentar compreender (ou escolhera a área errada) em cada caso o que a isso leva, e o sofrimento de quem consigo convive mal, e a existência de sonhos maiores mas castrados, e a dificuldade em instituir a mudança...
Digamos que até tenho um lado solar tolerante. Mas o meu lado lunar tem a mania! ;-)

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E agora, o Francis vai ter que listar os sonhos mais escaldantes que teve este último ano [brevemente, num blog perto de si: “366 devilish hot dreams”! - Terá este sido um ano comum para o autor? Não perca!]. E à Philú caberá discorrer sobre o Tratado das Paixões p'los Animais, aplicado a todos quantos com ela têm a sorte de viver (por ordem alfabética e de comprimento dos bigodes).

E, chegado o momento de fazer reféns, deixem-me cá pensar... Huummm...

Da última vez desinquietei apenas meninas, pelo que esta será a vez dos rapazes.

Pois os excelsos contemplados com a passagem deste inqualificável testemunho são:

Cuotidiano – Porque o quotidiano ficou diferente! ;-)

Malefícios da Felicidade (do Rui) – porque os adultos também pedem histórias de embalar.

Mel no Frasco (do JPD) – porque o meu blog gostou do dele.

Papel de Fantasia (do Legível) – porque nos lê a fantasia do real! (sei que o teu estilo é bem outro, mas tenho a certeza de que conseguirás encontrar o perfeito ponto de encontro).

Pé-de-meia (do MFC) – porque o seu blog respeita uma ordem incorruptível e adoraria poder merecer que ele abrisse uma excepção.

Faço esta selecção como forma de destacar alguns dos mais agradáveis espaços que descobri tardiamente. Nesse sentido, o Churrascos & Co. do Francis seria, sem qualquer dúvida, um dos meus eleitos (o que aliás se nota, pela frequência com que o chateio!!!). E havia a elencar outros mais, bem entendido.
Aliás, têm mesmo que ser só cinco? Não pode antes ser a meia-dúzia, e sempre fica mais barato? Eu até já tenho o sexto elemento no banco à espera para entrar! Vá láaaa!!!...
Não, não pode? Bom, então lá terei que guardar para mim o nome que se seguiria; 'nada a fazer! ;-)

Et voilá!

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sábado, novembro 18, 2006

Marcas

Outra pessoa é uma forma. Quem está aberto para amar tem plasticidade. E o objecto amado encaixa nesse massa afectiva maleável. Um amor forte deixa uma marca no amante. Os amantes ficam moldados, cada qual com o negativo do outro impresso no seu. Um amor abortado é uma marca com um vazio perfeitamente desenhado no registo do afecto. Se tiver sido mesmo forte, a marca fica indelével. E nada mais encaixará perfeitamente nessa matriz. Pelo contrário, fica temperado e resistente a ser vincado por outras pressões. Quem nunca amou é uma massa disforme. Quem amou demais tem uma “marca” cristalizada. Eventualmente quebrável... ou não.

(In Glosa Crua, de Carlos Sampaio, 16 Outubro 2006. Excerto de "Partidas Cruzadas", em construção).

Nota: foi do Carlos a primeira visita que este blog mereceu, e bem assim o esclarecimento das minhas dúvidas de principiante. Obrigada! :-)

PRÓXIMO TEXTO: 25 DE NOVEMBRO
ÚLTIMO TEXTO : 25 DE DEZEMBRO

sábado, novembro 11, 2006

"Era dia de S. Martinho"...

sábado, novembro 04, 2006

Kairos (III)

"O objectivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo. Hoje em dia as pessoas têm medo de si próprias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmas. É verdade que são caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres. Mas as suas almas morrem de fome e estão nuas. A coragem desapareceu da nossa raça e se calhar nunca a tivemos realmente. (…)
O indivíduo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. As suas virtudes não lhe são naturais. Os seus pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Torna-se um eco de uma música alheia, o actor de um papel que não foi escrito para ele. (...)
E todavia (…) – acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helénico (…).
A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. (…)
Degeneramos em grotescos fantoches, atormentados pela memória das paixões que tivemos tanto medo de perseguir, e das aberrantes tentações a que não tivemos coragem de ceder. Juventude! Juventude! Nada mais há no mundo além de juventude!"

(In O Diário de Dorian Gray - Oscar Wilde, cap. II)

… E a juventude, é a capacidade de impedir a morte em vida.

Chronos

Se a idade interessa?... Pois sim, na justa medida em que é nossa, com todo o simbolismo que lhe subjaz; porque nos é essencial, contendo representações privadas de um vivido histórico, qual cereja em cima do bolo de uma existência singular e inigualável.
Mas essa coisa do numerário, da contagem das vezes em que a terra rodeou o sol connosco em cima dela... Como se um funcionário de uma repartição pública empoeirada, enquinada numas águas furtadas perdidas num tempo cinza (como n' O Processo, de Kafka – nada mais a propósito, se é de um processo que falamos), débil e lívido no seu fraque desbotado pelo humo da cela, nos pregasse, à revelia, com a carimbadela oficial: "Mais Velho!"... Nova e impiedosa obliteração na caderneta da validade, espécie de imposto a pagar ao diabo!
Contudo, se o não olharmos também ele não nos vê, e estamos safos!

(4 de Nov. de 2005, dedicado)

quinta-feira, novembro 02, 2006

Kairos (II)

"A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos".
(John Lennon)

Um dos formandos que de melhor me aconteceram recentemente, expunha, aqui há dias, o raciocínio que acabaria por me dar o mote para esta trilogia:
Observo os casais no Colombo, a escolher a melhor cozinha possível, preocupados em comprar tudo quanto seja topo de gama, com os melhores equipamentos, porque "com aquela cozinha vão ser felizes"... Ela proporcionará amorosos pequenos-almoços, serenos almoços de fim-de-semana e românticos jantares a dois.
Dia após dia, lá se passeiam eles, unidos no objectivo de uma bela cozinha que lhes trará maior bem-estar e qualidade de vida. Para não falar da sala, e das outras divisões e dos acessórios; porque parece que são precisos muitos acessórios para que a vida fique minimamente bonita. E, ainda assim, não é fácil lá chegar, porque umas torneiras prateadas não trazem nunca a mesma felicidade do que trariam se fossem douradas.
Os dias sucedem-se, e eles jantam no Colombo, porque "tem que ser" (pois se há que comprar a felicidade numa cozinha, ou noutra coisa qualquer!).
Um dia, já com as suas cozinhas instaladas, continuam a jantar no Colombo... E porquê? Porque não há tempo ou vontade para mais. Pois afinal é isso que falta!... mas qual deles, mesmo? Vá lá, não sejamos assim... Se ambos dizem que é o "tempo", é porque deve ser!...
Não fora isso faltar sempre, e um destes dias teriam um jantar de sonho com tão pouca coisa [ou não haja prazer sem mesa e sem cama - 'é dizer, sem mobílias!]... Apenas eles, despidos de desculpas e disfarces e movimentos vazios do quanto interessa e basta; se é que isso existe, se é que o tempo de existir não se perdeu.
Porque o tempo de existir é a vontade que o dita!
Neste caos temporal da existência, rasgado de aparentes liberdades e difíceis identidades, a cada vez é mais difícil reconhecer o momento oportuno, e com isso ele se esvai sem darmos conta. A regra, contudo, parece simples, e é antiga:
… O único tempo de viver é o presente!

PS - Desculpa César, se peguei nas tuas palavras e lhe acrescentei as minhas. Tenho porém a certeza, de que não adulterei o sentido da tua mensagem: a de que o tempo "certo", "propício" e "ideal" não é o que há-de vir; e que a breve "janela de oportunidade" somos nós que a abrimos a cada momento.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Kairos (I)

"A vida de um homem não enche cem anos, mas está sempre cheia de cuidados de mil anos.
Breves zénites, amargas longas noites!
Porque não pegares hoje mesmo na lanterna e partires em busca das breves alegrias?
Porquê esperar ano após ano?"

(Filósofo chinês da dinastia Han, 206 a.C. - 220 d.C. - trouxe isto do Palavra Puxa Palavra, de 16 de Outubro, por ser uma excelente forma de iniciar um tema que se prolongará).

... Adiamos a vida toda!
Desde Fevereiro de 2007