domingo, setembro 30, 2007

Quando o vento começa a trazer nele uma mistura de terra húmida com lenha, há qualquer coisa que por dentro se incendeia. E não sei se são memórias, mas só memórias não são. É algo mais. Que não olha ao passado apenas, mas aguarda. Espera que algo chegue do que ainda não chegou.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Teríamos voado...

Se tu fosses transparente como eu.

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quinta-feira, setembro 20, 2007

Miguel Torga by Lobo Antunes

Praticamente desde que nasci a minha madrinha depositava umas coroas em meu nome no Montepio. Volta e meia acenava-me com a caderneta de longe, prevenia
- Aos dezoito anos tens aqui um dinheirinho
e aos dezoito anos, eu que imaginava milhões e me imaginava a mim transformado em nababo, tinha ali um dinheirinho de facto. Levei um mês a pensar no que fazer àquilo. E como não dava para uma volta ao mundo nem para um iate ancorado na Riviera, comprei os livros todos de Miguel Torga.
(...)
O meu irmão Jorge e eu partilhávamos o mesmo quarto e cada qual tinha a sua biblioteca. Conforme ele escreveu há pouco Miguel Torga figurava em ambas, nós que éramos tudo menos abonados.
E enfileirei com pompa os exemplares que me faltavam na estante, aquelas edições de autor, de capa branca, de que se abriam as páginas com uma faca e cheiravam vagamente a floresta.
(...)

Pouco importa o que penso hoje da sua obra. Importa muito mais o valor que teve para mim e o prazer que me deu.
E continuo a sentir pelo escritor que li todo e pelo homem que não conheci um respeito inalterável. Devo-lhe o exemplo de uma dignidade ímpar enquanto artista e de uma imensa dignidade cívica enquanto homem.
(...)
Miguel Torga, que falou de Portugal como poucos, com infinito orgulho e infinita piedade, ajudou-me a conhecê-lo e a não me sentir culpado pelo complicado relacionamento de indignada paixão que com ele tenho.
(...)

Depois gostava da cara dele, que só conheço de retratos. Lavrada de ossos achava-o a viva pintura do que somos e a virilidade da sua ternura comoveu-me sempre, como uma escondida lágrima de sangue. É raro encontrar um escritor de prosa tão masculina e no entanto capaz de um jeito tão maternal a transbordar de emoção, contida à rédea curta pela força do pulso, no qual se percebe uma pessoa em carne viva, de sofrimento todo embrulhado em ironia e pudor. O que nos deixou pode ser muito bem, um bom, ou menos bom* mas é inalteravelmente sério e sem trapaças o que é mais raro do que se julga. E depois há nele um sentido ético da Literatura, da Medicina e da Vida que me faz lembrar, com exigência, o que o meu pai nos inculcou.
(...)

É que se trata de uma das grandes figuras de Portugal do século vinte e somos, por vezes, tão ingratos para com aqueles que nos tornaram maiores e nos legaram o orgulho de caminharmos direitos sobre as patas de trás, aumentando a dimensão da nossa própria sombra. Tenho saudades do entusiasmo com que o li em adolescente, o copiei, o imitei, o invejei na busca, eternamente adiada, da minha própria voz, que tão tarde chegou.
(...)

Lembrei-me neste momento de lhe ler no Diário, a propósito do autor do Messias, que de vez em quando Deus encontra homens à sua medida. As palavras são estas, mais coisa menos coisa. Miguel Torga podia perfeitamente estar a falar de si mesmo porque foi um homem assim. A sua doença tocou-me, a sua morte tocou-me, as últimas páginas que compôs para o Diário são de uma desgarradora aflição, a desgarradora aflição de um homem vertical e corajoso, que tanto de si mesmo nos entregou a todos. Sei bem o que é o cancro, sei bem que, embora matando-o, não o venceu. Ninguém vence uma fraga. Ninguém vence um negrilho. E ninguém derruba um homem que, desde o início, fez corpo com a terra, e lançou tão fortes raízes no interior de nós.

(Revista Visão, 20 de Setembro de 2007, p.10)
* Tratar-se-á, aparentemente, de um erro tipográfico (?!).

terça-feira, setembro 11, 2007

Em nome da estrada



Uma produção excelente.
Uma melodia deliciosa.
Bem bonito de se ver!

A letra, é Jorge Palma, genuíno.
O todo deixa um quê na emoção.
Um regresso em grande estilo!

. . . _________. . ._________ . . .

* ("Encosta-te a mim" - Clip gravado há exactamente três meses. Do albúm Voo Nocturno).

Esta música marca-me a Estação cujo fim já se aproxima, assim parece querer fazer lembrar o dia de hoje: já andei à chuva, vi o céu rasgado por relâmpagos, escutei recados no bramido dos trovões...
Sigamos então em frente; enquanto houver estrada para andar.

"Eu venho do nada
Porque arrasei o que não quis
Em nome da estrada
Onde só quero ser feliz"

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domingo, setembro 02, 2007

Fugaz


Pois é...
É tempo de me despedir do Verão, dos dias feitos de excepções, sem pressas, sem destino; e abraçar de novo a lógica de um calendário que se impõe e de um relógio que comanda.
... E "céus com outro azul", pois claro!...
É tempo, por isso também, de passar por aqui, ainda que fugazmente, a agradecer todas as visitas e palavras que vos mereci na minha ausência, e afirmar a intenção de, pouco a pouco e à medida do possível, fazer por retribuir atenções e simpatias. (*)
Por agora, porém, procuro um silêncio muito próprio de quem sempre precisa de nele se perder para se encontrar. E sei que conto com o entendimento dos que sabem o que isso é.
Entretanto, deixo-vos alguns Reflexos.

(*) Agradeço também aqueles mimos tradicionais a esta amigável rotina blogueira, tal como a distinção "Blog 5 Estrelas" feita pelo meu caríssimo Gui, a quem dedico esta imagem, a propósito de um certo tema do "banco como objecto transitivo (...)" e, neste caso, transitório também! :-)
Desde Fevereiro de 2007