O Anjo (uma história de natal fora do tempo)
Era dia de S. Martinho.
Como fora ali parar, com quem teria ela ido e a fazer o quê, pouco importa… O que é facto é que ela ali estava... Ella! E por toda a cidade se sentia já o aroma do natal.
Convenhamos que a época não era de grandes alegrias, mas um tipo faz o que pode para fingir um sorriso quando ele é preciso; sendo, porém, verdade que se não esquece de que é fingido o sorriso que faz.
Quando se achou sozinha, Ella terminou o seu café e saiu para a rua. Precisava de ar, precisava de espaço, precisava de tempo; um tempo para si, um espaço para se mover, uma dimensão para se reencontrar, esquecendo, por momentos, algumas coisas e lembrando outras que a rotina teimava em lhe não permitir (porque o manter de um sorriso figurado consome tanto!), mas que a todo o instante se agitavam, e agigantavam.
Andarilha, mãos nos bolsos, sentindo as ideias querendo formar-se, sem sucesso; emoções questionantes que não lhe permitiam participar da discussão. O passo cadenciado na calçada, contra a desordem pulsante dos sentidos.
Deu por si pasmada frente a uma montra confusional, miríade de objectos de todos os cantos do mundo, cada qual com seu mistério ou ilusão de autenticidade. Tanta era a tralha, que o espaço parecia ter sido tão ocupado quanto a sua alma, a fazer lembrar o sótão de alguém cuja vida foi extensa e fruída, grande em histórias e memórias, com muita coisa guardada, com muita coisa perdida…
Perdeu-se-lhe o olhar por entre ouro, castanho e velho…
Quando, de repente, algo o encontrou… E era um anjo!
Um anjo pequenino mas muito brilhante, que fazia por se revelar, decididamente; e que quase lhe falava. Para além disso, era portador de uma estrela; e uma estrela pode dar-nos tanto jeito se vagueamos sem norte!… Sobretudo, nunca se sabe ao certo o que acontece quando uma estrela nasce… E muito menos nas mãos de um anjo!
Para chegar até ele, havia que subir a rua mais um pouco, entrar a porta de um prédio antigo e virar à esquerda num nível intermédio entre o rés-do-chão e a cave. Assim fez.
Entrou e achou-se confortavelmente perdida, como uma criança entregue num mundo de brinquedos. Havia cestos e livros e flores; almofadas, estátuas e candeeiros; e velas e isto e aquilo e o mais…
Aconteceu, porém, que a senhora que a deveria atender se sentira subitamente indisposta. Acabara de tomar uns comprimidos “para os nervos”, que a deixaram aflitivamente agoniada e zonza, não se achando em condições de se erguer do banquinho em que se sentara. E logo agora que mandara a empregada fazer um recado!
Ella acercou-se-lhe, ofereceu-se para ir buscar uma água ou um chá ao café do lado, perguntou-lhe se sofria de problemas de tensão, se queria que chamasse alguém; e, como a tudo a resposta foi “não”, acabou sugerindo que se deixasse estar um pouco sossegada, garantindo-lhe companhia até não mais ser necessário.
Apenas minutos bastaram para que a lojista se sentisse de novo em forma, e Ella saiu, deixando atrás de si o momento, e o anjo, e a vontade (estranha vontade de ter e de dar…).
Sim, que voltou a apreciar o minúsculo ente, do lado de fora da montra, mas decerto não iria ceder a um devaneio, a um capricho. Iria?...
Ribombava há dias na sua cabeça a questão: para quê cedermos aos desejos, se isto é matá-los?... Mas por que lhes resistimos, se isso é matar-nos?
Foi já ao fim da rua que se deteve, como se algo lhe fizesse crer por certo que, às vezes, para se conseguir balanço para se seguir em frente, é preciso recuar-se uns passos.
Convenhamos que a época não era de grandes alegrias, mas um tipo faz o que pode para fingir um sorriso quando ele é preciso; sendo, porém, verdade que se não esquece de que é fingido o sorriso que faz.
Quando se achou sozinha, Ella terminou o seu café e saiu para a rua. Precisava de ar, precisava de espaço, precisava de tempo; um tempo para si, um espaço para se mover, uma dimensão para se reencontrar, esquecendo, por momentos, algumas coisas e lembrando outras que a rotina teimava em lhe não permitir (porque o manter de um sorriso figurado consome tanto!), mas que a todo o instante se agitavam, e agigantavam.
Andarilha, mãos nos bolsos, sentindo as ideias querendo formar-se, sem sucesso; emoções questionantes que não lhe permitiam participar da discussão. O passo cadenciado na calçada, contra a desordem pulsante dos sentidos.
Deu por si pasmada frente a uma montra confusional, miríade de objectos de todos os cantos do mundo, cada qual com seu mistério ou ilusão de autenticidade. Tanta era a tralha, que o espaço parecia ter sido tão ocupado quanto a sua alma, a fazer lembrar o sótão de alguém cuja vida foi extensa e fruída, grande em histórias e memórias, com muita coisa guardada, com muita coisa perdida…
Perdeu-se-lhe o olhar por entre ouro, castanho e velho…
Quando, de repente, algo o encontrou… E era um anjo!
Um anjo pequenino mas muito brilhante, que fazia por se revelar, decididamente; e que quase lhe falava. Para além disso, era portador de uma estrela; e uma estrela pode dar-nos tanto jeito se vagueamos sem norte!… Sobretudo, nunca se sabe ao certo o que acontece quando uma estrela nasce… E muito menos nas mãos de um anjo!
Para chegar até ele, havia que subir a rua mais um pouco, entrar a porta de um prédio antigo e virar à esquerda num nível intermédio entre o rés-do-chão e a cave. Assim fez.
Entrou e achou-se confortavelmente perdida, como uma criança entregue num mundo de brinquedos. Havia cestos e livros e flores; almofadas, estátuas e candeeiros; e velas e isto e aquilo e o mais…
Aconteceu, porém, que a senhora que a deveria atender se sentira subitamente indisposta. Acabara de tomar uns comprimidos “para os nervos”, que a deixaram aflitivamente agoniada e zonza, não se achando em condições de se erguer do banquinho em que se sentara. E logo agora que mandara a empregada fazer um recado!
Ella acercou-se-lhe, ofereceu-se para ir buscar uma água ou um chá ao café do lado, perguntou-lhe se sofria de problemas de tensão, se queria que chamasse alguém; e, como a tudo a resposta foi “não”, acabou sugerindo que se deixasse estar um pouco sossegada, garantindo-lhe companhia até não mais ser necessário.
Apenas minutos bastaram para que a lojista se sentisse de novo em forma, e Ella saiu, deixando atrás de si o momento, e o anjo, e a vontade (estranha vontade de ter e de dar…).
Sim, que voltou a apreciar o minúsculo ente, do lado de fora da montra, mas decerto não iria ceder a um devaneio, a um capricho. Iria?...
Ribombava há dias na sua cabeça a questão: para quê cedermos aos desejos, se isto é matá-los?... Mas por que lhes resistimos, se isso é matar-nos?
Foi já ao fim da rua que se deteve, como se algo lhe fizesse crer por certo que, às vezes, para se conseguir balanço para se seguir em frente, é preciso recuar-se uns passos.
Fazia tanto sentido naquele momento!...
Regressou. A loja estava agora mais composta de gente. A empregada chegara, entretanto, e bem assim um novo cliente, de momento dedicado a explorar alguns recantos daquele microcosmos de exotismo.
De imediato a senhora se levanta e, numa explosão festiva. exclama:
- Ainda bem que voltou! Estava mesmo a contar aqui à “não sei quantas”, que tinha por cá passado uma senhora tão simpática, tão querida, tão amorosa, tão “sei lá o quê”…
Ella sorriu, surpresa, e desconfiou que de dentro de si algo andava a emanar ternura, sem que o soubesse… Como se os outros pudessem perceber o “estado de graça” em que se vinha sentindo, sendo segredo.
- É, voltei… Voltei para levar um anjo.
- Um anjo para outro anjo, está a ver? – ensaiando a logista uma simpatia fácil.
Ella deve ter feito um ar atónito, porque o cavalheiro, que estava a ser atendido pela colaboradora mais nova, logo se prestou a esboçar um olhar risonho e alegadamente cúmplice, que procurava ser legitimado. Sem se permitir desviar a sua atenção para a figura que entrevia de soslaio, Ella descarta-se:
- Oh, anjo eu fosse… Não sou! – o que provocaria alguns risinhos de cortesia social, de entre os quais nitidamente se percebia um masculino.
E eis que a senhora prossegue nos seus elogios e mimos, acrescentando que ficou com imensa pena de a ter deixado sair sem a convidar para a festa de natal que os lojistas daquela rua haviam organizado para o dia 20 de Dezembro; sim, pois desde quando os melhores clientes são os mais antigos ou os que mais compram? Ah, não, isso é que era bom; o que conta não é nada isso, e patati, patatá…
E, dirigindo-se ao outro cliente:
- O senhor também está convidado, obviamente.
Ao que ele, bem apessoado nos seus cinquentas, qual Richard Geere de Olisipo, retribui alegremente:
- Sendo assim, tenho todo o prazer em convidar as senhoras para a noite da castanha, que se realiza hoje, ali ao lado, na Rua de S. José…
Ella agradeceu ambos os convites, que declinou, explicando que ali estava apenas de passagem. A logista manuseava cuidadosamente a peça de cristal.
- É professor? – ao que as pulsações de Ella se atrapalharam, confundindo-lhe a razão.
Desconfiando do que acabara de ouvir, arrisca:
- Como disse?
A logista repete, agora com mais clareza e num tom afirmativo:
- É pr’oferecer!?
Acabada de ser trazida a si, e muito pouco preparada para uma decisão daquelas (de qualquer tipo, aliás), dispôs de nanosegundos para se questionar: “Seria?... Será que poderia?... E será que deveria?”…
Mas a resposta a estas não chegaria antes da que se lhe escapou sem aviso:
- É sim, é para oferecer.
E estava assim formalizado (por quem, dentro dela?...) o estranho veredicto.
Dois dedos de conversa e mais uns quantos sorrisos, e lá se despediu, sob os votos de felicidades que a generosa logista lhe dedicava.
Ao virar costas bem raspou num certo olhar tentando uma tangente, e foi quando uma vozinha sacra, embora muda, (vinda quiçá do anjo que libertara) se impôs dentro de si, de uma forma tão inesperada quanto absoluta:
- “Xô! Mas é que nem penses!… Eu estou consagrada!”.
Ella saiu decidida a pedir contas a essa voz que só podia estar a querer brincar consigo; mas logo acabaria por se decidir a perdoar-lhe, e isso porque, na realidade, talvez fosse assim mesmo que se sentia: Consagrada!… E isso era novo. Era único. Era bom!
Seguiram… Ella, aquele anjo atrevido e uma certeza qualquer por dentro, que não tinha nome, não tinha nexo, tão pouco tinha de certeza afinal, mas que lhe era superior. Tão para lá do entendimento, só podia ser loucura. E se fosse? E se não fosse? E se fosse e devesse mesmo ser?...
O anjo, esse iria certamente chegar a boas mãos… A umas mãos que apenas conhecera fugazmente, mas cujos gestos teimava em recordar, quase os sentindo.
Em dias maus, iluminaria as trevas que se abatem sobre um homem quando pensa a sua vida, plena de esperanças e medos, conquistas e dores…
Dos dias bons, bastar-lhes-ia difundir o brilho.
Marco secreto de intimidade, naquele humilde ícone ia um passado recordado, a presença de alguém distante e a deliciosa incerteza do porvir, que apetecia saborear, devagar...
E aquela noção, ora mais serena, ora de novo inquieta (e sempre tão frágil!), de que um novo espaço e um tempo próprio se insurgiam cada vez mais… Cada vez mais cristalinos, cada vez mais consentidos.
Se era estranho!?… Ah sim, era tão estranho!...
Mas o natal tem destas coisas!
Ou seremos nós que trazemos o natal cá dentro, e esta estranha vontade de o viver?
De imediato a senhora se levanta e, numa explosão festiva. exclama:
- Ainda bem que voltou! Estava mesmo a contar aqui à “não sei quantas”, que tinha por cá passado uma senhora tão simpática, tão querida, tão amorosa, tão “sei lá o quê”…
Ella sorriu, surpresa, e desconfiou que de dentro de si algo andava a emanar ternura, sem que o soubesse… Como se os outros pudessem perceber o “estado de graça” em que se vinha sentindo, sendo segredo.
- É, voltei… Voltei para levar um anjo.
- Um anjo para outro anjo, está a ver? – ensaiando a logista uma simpatia fácil.
Ella deve ter feito um ar atónito, porque o cavalheiro, que estava a ser atendido pela colaboradora mais nova, logo se prestou a esboçar um olhar risonho e alegadamente cúmplice, que procurava ser legitimado. Sem se permitir desviar a sua atenção para a figura que entrevia de soslaio, Ella descarta-se:
- Oh, anjo eu fosse… Não sou! – o que provocaria alguns risinhos de cortesia social, de entre os quais nitidamente se percebia um masculino.
E eis que a senhora prossegue nos seus elogios e mimos, acrescentando que ficou com imensa pena de a ter deixado sair sem a convidar para a festa de natal que os lojistas daquela rua haviam organizado para o dia 20 de Dezembro; sim, pois desde quando os melhores clientes são os mais antigos ou os que mais compram? Ah, não, isso é que era bom; o que conta não é nada isso, e patati, patatá…
E, dirigindo-se ao outro cliente:
- O senhor também está convidado, obviamente.
Ao que ele, bem apessoado nos seus cinquentas, qual Richard Geere de Olisipo, retribui alegremente:
- Sendo assim, tenho todo o prazer em convidar as senhoras para a noite da castanha, que se realiza hoje, ali ao lado, na Rua de S. José…
Ella agradeceu ambos os convites, que declinou, explicando que ali estava apenas de passagem. A logista manuseava cuidadosamente a peça de cristal.
- É professor? – ao que as pulsações de Ella se atrapalharam, confundindo-lhe a razão.
Desconfiando do que acabara de ouvir, arrisca:
- Como disse?
A logista repete, agora com mais clareza e num tom afirmativo:
- É pr’oferecer!?
Acabada de ser trazida a si, e muito pouco preparada para uma decisão daquelas (de qualquer tipo, aliás), dispôs de nanosegundos para se questionar: “Seria?... Será que poderia?... E será que deveria?”…
Mas a resposta a estas não chegaria antes da que se lhe escapou sem aviso:
- É sim, é para oferecer.
E estava assim formalizado (por quem, dentro dela?...) o estranho veredicto.
Dois dedos de conversa e mais uns quantos sorrisos, e lá se despediu, sob os votos de felicidades que a generosa logista lhe dedicava.
Ao virar costas bem raspou num certo olhar tentando uma tangente, e foi quando uma vozinha sacra, embora muda, (vinda quiçá do anjo que libertara) se impôs dentro de si, de uma forma tão inesperada quanto absoluta:
- “Xô! Mas é que nem penses!… Eu estou consagrada!”.
Ella saiu decidida a pedir contas a essa voz que só podia estar a querer brincar consigo; mas logo acabaria por se decidir a perdoar-lhe, e isso porque, na realidade, talvez fosse assim mesmo que se sentia: Consagrada!… E isso era novo. Era único. Era bom!
Seguiram… Ella, aquele anjo atrevido e uma certeza qualquer por dentro, que não tinha nome, não tinha nexo, tão pouco tinha de certeza afinal, mas que lhe era superior. Tão para lá do entendimento, só podia ser loucura. E se fosse? E se não fosse? E se fosse e devesse mesmo ser?...
O anjo, esse iria certamente chegar a boas mãos… A umas mãos que apenas conhecera fugazmente, mas cujos gestos teimava em recordar, quase os sentindo.
Em dias maus, iluminaria as trevas que se abatem sobre um homem quando pensa a sua vida, plena de esperanças e medos, conquistas e dores…
Dos dias bons, bastar-lhes-ia difundir o brilho.
Marco secreto de intimidade, naquele humilde ícone ia um passado recordado, a presença de alguém distante e a deliciosa incerteza do porvir, que apetecia saborear, devagar...
E aquela noção, ora mais serena, ora de novo inquieta (e sempre tão frágil!), de que um novo espaço e um tempo próprio se insurgiam cada vez mais… Cada vez mais cristalinos, cada vez mais consentidos.
Se era estranho!?… Ah sim, era tão estranho!...
Mas o natal tem destas coisas!
Ou seremos nós que trazemos o natal cá dentro, e esta estranha vontade de o viver?
Música: In the arms of an angel (Sarah Mclaughin).
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2 Comments:
Fiquei deliciada com a história da Ella e do Anjo! Quantas recordações, impulsos, desejos, pode despertar em nós um simples objecto! Que carga emocional ele pode transpotar! (claro que todas estas emoções estáo dentro de nós e são despertadas por um objecto em que tudo se relaciona). Agora fico a pensar: teria Ella afinal oferecido o anjinho a ele?
E teria ele percebido o que ia d'Ella, se o recebeu?
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