terça-feira, maio 23, 2006

Reencontro

Saio da Estação e percorro a calçada, exausta mas bonita, saudosa e aflita.
Respira-se Natal por toda a parte.
Ao longe, enfim, o Majestic.
Esperas-me lá dentro, porque te proibi de me vires buscar à rua… Previra que precisaria equilibrar o passo e serenar o coração antes de te encontrar. Não resultou.
Vejo-te, de fora, através da janela embaciada. Preciso voltar para trás, mas também preciso entrar.
Levantas-te e cumprimentamo-nos como bons velhos amigos... Então consigo descansar e quero o mesmo para ti. Sem culpa, exaltação ou pecado.
Bem sabemos que nas nossas palavras renovadas, agora aliviadas de uma carga mortal que ficou para trás a reforçar uma aliança, se escondem segredos que são nossos e ninguém sabe, e que cada um de nós guarda consigo os seus preferidos.
E isso põe-nos um sorriso nos lábios que nos embeleza; e preenche a alma daquele que nos compreende como nunca; que sempre compreendeu.
Alcanço as tuas mãos e seguro-as entre as minhas. Delicada e assumidamente. Há paz no ar. Pela primeira vez estamos em paz.
Como sempre, não sei se será este o último momento, mas nenhum de nós pensa nisso agora.
Contamos as coisas mais banais sobre nós próprios, com gosto, com graça, sem medos - de corromper expectativas, de ver o tempo fugir...
Podes falar-me do trabalho, da família, da saúde, de um filme que viste, daquilo que sentes. Podes ensinar-me coisas ou escutar-me apenas (há tanta coisa que nunca te disse!). Podemos ficar quietos e gozar o tanto que se espelha num olhar comum.
O café está delicioso.
Puxo de um cigarro e, pelas curvas de fumo, vejo um homem magnífico. Esse homem está a sorrir para mim. Porque está feliz na minha presença. É possível que nunca tenha deixado de o estar.
Vem de um passado longínquo, nada nele me pertence, e se volta agora a mim é apenas porque o sonhámos vezes sem conta.
Prende-nos uma amizade que é mágica, mas feita dos mesmos sonhos, e por isso real.
Existe alguém que nos conhece os sentidos se soltamos ou contemos a palavra... É essa a verdadeira alquimia que todos procuram!
E eis que o fim da tarde nos avisa que os nossos mundos nos esperam.
No regresso a casa, ao caminharmos sós, fazemos ainda de conta que o outro nos acompanha.
E só antes de entrar nos convencemos de que nos despedimos já... Orgulhosos e agradecidos, com a alma cheia e a cabeça erguida.

(APC, excerto de projecto literário pendente, Maio 2005)
Imagem: http://www.visionflow.net/travel/portugal/porto/day5/cafemajestic.jpg

4 Comments:

Blogger Cláudia Cunha said...

"Reencontrei-me" em cada frase deste belo texto... de uma forma que sinto nunca ter sido capaz de expressar. E logo no ambiente íntimo do nosso belo Majestic! São momentos como este que nos aquecem o coração... ;-)

Fica bem!

Cláudia C.

maio 23, 2006 1:30 da manhã  
Blogger Polistes said...

Lindíssimo texto, que progressivamente nos vai aquecendo o coração, mas que nos fim nos arrasa, completamente, sem que contudo a beleza se perca.

maio 23, 2006 12:03 da tarde  
Blogger Carlos Sampaio said...

Paz no fim? Paz só no fim? Paz dos cemitérios? Haverá paz fora dos cemitérios??

maio 24, 2006 12:49 da tarde  
Blogger Cláudia Cunha said...

Será que imaginas as saudades que eu tinha deste teu texto? Vim relê-lo, agora envolta num distanciamento temporal e preenchida por emoções transbordantes... Fez-me bem! :)

novembro 05, 2007 12:59 da manhã  

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