Reencontro
Saio da Estação e percorro a calçada, exausta mas bonita, saudosa e aflita.
Respira-se Natal por toda a parte.
Ao longe, enfim, o Majestic.
Esperas-me lá dentro, porque te proibi de me vires buscar à rua… Previra que precisaria equilibrar o passo e serenar o coração antes de te encontrar. Não resultou.
Vejo-te, de fora, através da janela embaciada. Preciso voltar para trás, mas também preciso entrar.
Levantas-te e cumprimentamo-nos como bons velhos amigos... Então consigo descansar e quero o mesmo para ti. Sem culpa, exaltação ou pecado.
Bem sabemos que nas nossas palavras renovadas, agora aliviadas de uma carga mortal que ficou para trás a reforçar uma aliança, se escondem segredos que são nossos e ninguém sabe, e que cada um de nós guarda consigo os seus preferidos.
E isso põe-nos um sorriso nos lábios que nos embeleza; e preenche a alma daquele que nos compreende como nunca; que sempre compreendeu.
Alcanço as tuas mãos e seguro-as entre as minhas. Delicada e assumidamente. Há paz no ar. Pela primeira vez estamos em paz.
Como sempre, não sei se será este o último momento, mas nenhum de nós pensa nisso agora.
Contamos as coisas mais banais sobre nós próprios, com gosto, com graça, sem medos - de corromper expectativas, de ver o tempo fugir...
Podes falar-me do trabalho, da família, da saúde, de um filme que viste, daquilo que sentes. Podes ensinar-me coisas ou escutar-me apenas (há tanta coisa que nunca te disse!). Podemos ficar quietos e gozar o tanto que se espelha num olhar comum.
O café está delicioso.
Puxo de um cigarro e, pelas curvas de fumo, vejo um homem magnífico. Esse homem está a sorrir para mim. Porque está feliz na minha presença. É possível que nunca tenha deixado de o estar.
Vem de um passado longínquo, nada nele me pertence, e se volta agora a mim é apenas porque o sonhámos vezes sem conta.
Prende-nos uma amizade que é mágica, mas feita dos mesmos sonhos, e por isso real.
Existe alguém que nos conhece os sentidos se soltamos ou contemos a palavra... É essa a verdadeira alquimia que todos procuram!
E eis que o fim da tarde nos avisa que os nossos mundos nos esperam.
No regresso a casa, ao caminharmos sós, fazemos ainda de conta que o outro nos acompanha.
E só antes de entrar nos convencemos de que nos despedimos já... Orgulhosos e agradecidos, com a alma cheia e a cabeça erguida.

Respira-se Natal por toda a parte.
Ao longe, enfim, o Majestic.
Esperas-me lá dentro, porque te proibi de me vires buscar à rua… Previra que precisaria equilibrar o passo e serenar o coração antes de te encontrar. Não resultou.
Vejo-te, de fora, através da janela embaciada. Preciso voltar para trás, mas também preciso entrar.
Levantas-te e cumprimentamo-nos como bons velhos amigos... Então consigo descansar e quero o mesmo para ti. Sem culpa, exaltação ou pecado.
Bem sabemos que nas nossas palavras renovadas, agora aliviadas de uma carga mortal que ficou para trás a reforçar uma aliança, se escondem segredos que são nossos e ninguém sabe, e que cada um de nós guarda consigo os seus preferidos.
E isso põe-nos um sorriso nos lábios que nos embeleza; e preenche a alma daquele que nos compreende como nunca; que sempre compreendeu.
Alcanço as tuas mãos e seguro-as entre as minhas. Delicada e assumidamente. Há paz no ar. Pela primeira vez estamos em paz.
Como sempre, não sei se será este o último momento, mas nenhum de nós pensa nisso agora.
Contamos as coisas mais banais sobre nós próprios, com gosto, com graça, sem medos - de corromper expectativas, de ver o tempo fugir...
Podes falar-me do trabalho, da família, da saúde, de um filme que viste, daquilo que sentes. Podes ensinar-me coisas ou escutar-me apenas (há tanta coisa que nunca te disse!). Podemos ficar quietos e gozar o tanto que se espelha num olhar comum.
O café está delicioso.
Puxo de um cigarro e, pelas curvas de fumo, vejo um homem magnífico. Esse homem está a sorrir para mim. Porque está feliz na minha presença. É possível que nunca tenha deixado de o estar.
Vem de um passado longínquo, nada nele me pertence, e se volta agora a mim é apenas porque o sonhámos vezes sem conta.
Prende-nos uma amizade que é mágica, mas feita dos mesmos sonhos, e por isso real.
Existe alguém que nos conhece os sentidos se soltamos ou contemos a palavra... É essa a verdadeira alquimia que todos procuram!
E eis que o fim da tarde nos avisa que os nossos mundos nos esperam.
No regresso a casa, ao caminharmos sós, fazemos ainda de conta que o outro nos acompanha.
E só antes de entrar nos convencemos de que nos despedimos já... Orgulhosos e agradecidos, com a alma cheia e a cabeça erguida.

(APC, excerto de projecto literário pendente, Maio 2005)
Imagem: http://www.visionflow.net/travel/portugal/porto/day5/cafemajestic.jpg
Imagem: http://www.visionflow.net/travel/portugal/porto/day5/cafemajestic.jpg
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4 Comments:
"Reencontrei-me" em cada frase deste belo texto... de uma forma que sinto nunca ter sido capaz de expressar. E logo no ambiente íntimo do nosso belo Majestic! São momentos como este que nos aquecem o coração... ;-)
Fica bem!
Cláudia C.
Lindíssimo texto, que progressivamente nos vai aquecendo o coração, mas que nos fim nos arrasa, completamente, sem que contudo a beleza se perca.
Paz no fim? Paz só no fim? Paz dos cemitérios? Haverá paz fora dos cemitérios??
Será que imaginas as saudades que eu tinha deste teu texto? Vim relê-lo, agora envolta num distanciamento temporal e preenchida por emoções transbordantes... Fez-me bem! :)
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