sexta-feira, julho 28, 2006

Closed

Ele saíra mas deixara a porta aberta.
E essa batia!... Dando a ideia de que, a qualquer momento se abriria de vez, fazendo-o entrar.
Ela ergueu-se, por fim. E, lenta e firmemente, fechou-a.
Ao fim e ao cabo, que culpa tinha ele de ter um problema raro na ponta dos dedos?...
... Que o impedia de marcar o número, escrever a mensagem, enviar o email... Fechar a porta!

(Foto retirada da net e presente em vários sítios, como no blog brasileiro fiapodejaca.zip.net/, que vale a pena visitar)

sábado, julho 22, 2006

Em teoria, o amor é sempre bom!

Nas minhas arrumações ante-quase-férias, reencontrei um pequeno livro de nome "Em teoria, o amor é sempre bom" (Abril/Controljornal Editora, 2001), que mais não é que uma compilação de 33 breves crónicas da autoria da Professora Isabel Leal (cujo curriculum na área da Psicologia é demasiadamente vasto para caber aqui) originalmente publicadas na revista Caras e, todas e cada uma, fabulosas. De tal forma que, aqui e ali, acabo a encontrar ideias e expressões perfeitamente adaptáveis à multiplicidade de dimensões onde meto o pé, as mãos ou apenas o nariz.
Na minha opinião, cada um dos textos desta brilhante profissional, e comunicadora nata, que tive o prazer de ter por docente, tem o condão de resumir, de forma abrangente e simples, problemáticas que a todos são sensíveis e em que, várias vezes ao longo da vida, reflectimos.
Decidi partilhar alguns trechos relativos a seis das crónicas que considerei mais pertinentes publicar neste blog, tendo talvez em conta o momento reflexivo que o originou. Ficam de fora outras igualmente irresistíveis.
O nome das crónicas emprestará o título a cada post, sendo que assim, teremos:

1. Gostar pelo que se é! (p. 11)
2. Parece mal (p. 13)
3. Uniões e separações (p. 29)
4. Funções práticas de enamoramentos oportunos e inoportunos (p. 49)
5. Dependências e autonomias (p. 59)
6. Ter paciência (p. 69)

1. Gostar pelo que se é

“A maioria das pessoas, mesmo que não saiba bem porquê, defende uma estética de semelhança. Acha que as relações devem ser mais simétricas que complementares e torce o nariz a casamentos mistos. Sejam de etnias, religiões, de idades, de grupo social ou económico. O que quer dizer que, na prática, a maioria das pessoas, alegue que razões alegar, é conservadora e prefere o que é esperado, o que mantenha tudo como estava, o que não modifica as relações intergrupos e interclasses.”

Nota: a este respeito, incluo aqui parte de um escrito meu, iniciado há uns meses e ainda inconcluso:

Tenho para comigo que as "igualdades" são perversas, engodo que distrai as partes, ao camuflar tantas e tão gritantes diferenças…
Na “diferença”, qualquer que ela seja (i.e., na união voluntária em que ela se verifique), os elementos que a perfazem sabem-no, escolhem-no, gozam-no.
"Menino e menina da mesma idade conhecem-se, namoram-se, acabam os seus cursos, casam, mobilam os lares, têm filhos, lutam pelas suas carreiras, sobrevivem na rotina dos casais sem tempo para si nem para o outro" - isto diz-vos alguma coisa?...
E nisso demoram-se a dar-se conta de quem são, de que o projecto é oco, de que não se complementam, de que aquilo que os segura é o hábito, de que lhes resta viver para dentro de si.
Crescerão diferentemente, mais que todos, sem que isso se previsse e, com um pouco de "sorte", sem que alguma vez se veja ou assuma.

2. Parece mal

“Por um lado, ninguém quer ser banal, ninguém quer prefigurar o homem médio, família média, valores médios, aspirações médias. Ninguém quer ser igual a toda a gente, existindo sem história, sem destaque e sem implicar alguma diferença no que se passa à sua volta (…).
Por outro lado, ninguém quer sentir-se desenquadrado e por fora daquilo que os outros, em volta, apreciam. Ninguém quer apresentar traços de diferença tão notórios que o tornem a ave rara ou o “anormal” de serviço.
Mesmo os que estimam a originalidade vestem-na discretamente, à medida e na forma em que seja aceite ou, pelo menos, tolerável.
Para todos acaba por funcionar um ambíguo conceito, o de “parece mal”.

3. Uniões e Separações

“Mesmo que o fim das relações seja pacífico e não se transforme em litígio com muita roupa suja, fica sempre o desconforto do falhanço pessoal.
Mas se as pessoas se separam é porque um dia se uniram. E, embora se fale menos das uniões do que das separações, não parece haver razões para pensar que sejam menos complexas.
Ao contrário do que se gostaria de acreditar, as pessoas unem-se por muitas e diferentes razões.
Num tempo em que se defende como princípio o direito de toda a gente à felicidade e ao bem-estar, parece uma expectativa legítima que todos possam encontrar alguém que amem e por quem possam ser amados. Verifica-se, entretanto, que não é bem assim. Que a felicidade trazida de bandeja por um outro, príncipe ou princesa, é improvável.
(…) Assim sendo, quero dizer, unindo-se as pessoas como podem e sabem, é pelo menos compreensível que algumas uniões nunca passem de reuniões, outras descambem rapidamente para desuniões e outras ainda se transformem em relações instáveis, insatisfatórias ou frustrantes.
Parece mesmo mais ajustado não matar a cabeça à procura das razões das separações sem antes perceber o funcionamento das anteriores uniões.”

4. Enamoramentos (in)oportunos

“Há pessoas que adoram apaixonar-se (…). Mas também há os que detestam envolver-se. Que sentem qualquer paixão como um perigo iminente de desagregação ou de vida. Que temem perder o controlo, fazer e dizer coisas que não são nem supostas nem desejáveis. Isto além de, obviamente, detestarem sentir a terrível angústia de perda antecipada do seu objecto de amor ou o terror mais ou menos encapotado de deixarem de ser quem são e como são, pela existência de um outro que lhe pede coisas e tem expectativas.
(…) Apaixonamo-nos quando somos capazes, quero dizer, quando encontramos um objecto ou um sujeito que sirva bem o nosso desejo. Para que isso aconteça, é necessário que estejamos afectivamente disponíveis, mesmo que racionalmente não seja assim, e que o enamoramento acarte uma certa quantidade e qualidade de sentido capaz de nos mover.
Julga-se que o movimento é sempre em direcção ao objecto desejável, mas de facto não é. Às vezes, o outro é uma mera referência que está lá, distante e intocável, mas que serve, ainda assim, para nos investirmos, a nós, e nos disciplinarmos a ser mais parecidos com o que gostaríamos de ser.
Como estratégia de mudança, pode parecer complicado, mas lá que é eficaz, não duvidem”.

5. Dependências e autonomias

“Um dos conflitos que toda a gente experimenta na própria vida é aquele que se polariza em torno de dois conceitos que podemos designar como de dependência e de autonomia.
Tal como as crianças pequenas que, por um lado, vivem e desejam permanecer na periferia de mães protectoras e securizantes e, por outro, querem, cheias de curiosidade, explorar o meio circundante, nós, adultos, balanceamos constantemente.
(…) São dependentes os homens e as mulheres que constroem a própria vida sem sequer ter a noção dessa construção. Pessoas que, em função dos pais, dos filhos, dos maridos ou das mulheres, concebem o mundo numa estranha confusão de identidades. (…)
É preciso conviver com os desejos súbitos de mudar de vida, não ter responsabilidades e pensar apenas em si próprio, como é preciso conviver com a angústia da perda ou do afastamento dos que são significativos. É preciso umas vezes ceder outras impor, umas vezes fugir outras ficar. (…) Somos e devemos ser às vezes dependentes, às vezes autónomos. É, de resto, da plasticidade dessas combinações que decorre o prazer com que os outros estão connosco e nós com eles.
Ainda assim, tirando aqueles poucos que eliminaram o conflito instalando-se num dos pólos, é destino dos homens desejar, hesitar e ter dúvidas. Naturalmente".

6. Ter paciência

“Ao pobres de mão estendida, quando se rejeita a esmola, diz-se: «Tenha paciência». Nas situações mais difíceis (…) há sempre alguém que sussura: «É preciso ter paciência». Quando se espera e desespera (…), em pano de fundo vai martelando como ladaínha de autoconvencimento o: «Há que ter paciência».
Chega-se a dias em que se desiste. Do exame, do emprego, do amigo, da família, de um certo estilo de vida ou, até, de um sonho porque «já não há paciência».
A paciência, sobretudo a que se tem, costuma ser referida como uma virtude. (…)
A paciência que não se tem é, por seu turno, um defeito. (…)
[Mas] se se chega a descobrir que a paciência, a atitude sensata, comedida e expectante, não conduz a lado nenhum, não gera, não é frutífera nem gratificante, alguém vai ter que explicar para que raio serve continuar a ter paciência.
A não ser que ter paciência signifique apenas aguentar a impotência, o que, temos de convir, não é coisa que se diga ou que se deseje a alguém".

terça-feira, julho 18, 2006

Memórias (Lyric)

Lembras-me uma marcha de lisboa
Num desfile singular
Quem disse
Que há horas e momentos p'ra se amar


Lembras-me uma enchente de maré
Com uma calma matinal
Quem foi, quem disse
Que o mar dos olhos também sabe a sal

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar


Queria viver tudo numa noite
Sem perder a procurar
O tempo, ou o espaço
Que é indiferente p'ra poder sonhar

Quem foi que provocou vontades
E atiçou as tempestades
E amarrou o barco ao cais?
Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais?

("Memórias de um beijo", Trovante, in "Terra firme", 1987)

segunda-feira, julho 17, 2006

Life



Santarém, 15 de Julho. A noite já caiu, e ainda estão 30 graus na rua!
As personagens da fotografia fazem uso da cadeira onde eu me iria sentar, durante horas a fio... É a vida!

(Perdão pela qualidade da foto (ou falta dela). É claro que um telemóvel não foi feito para estas andanças).

quinta-feira, julho 13, 2006

Norte

Alguém poderá dizer-me para que lado fica o Norte?...
;-)

terça-feira, julho 11, 2006

Recordando

“O homem é um animal narcísico”
(Professor António Coimbra de Matos)

Sob o “espectro outonal” , daquilo que poderia ter sido e não foi, e “o eterno provisório das coisas que servem sem satisfazer” (Agustina Bessa Luís, in "A Sibila"), policial, 43 anos, 3 casamentos, 2 filhos, Elvira chega-nos triste, perdida, desesperada...
Não sendo feliz, tem-se deixado levar ao sabor da corrente. Um caso amoroso por parte do actual marido foi o que abalou o equilíbrio precário, atirando-a para um vácuo algures entre o sentimento de culpa e o de inferioridade, a par de uma desconfiança letal.
A sua vinda é uma paragem para olhar para si, recobrar energias, repensar a vida, receber alguma luz sobre o que se lhe cega, desconstruir o apelo latente. Duas margens, em qual ficar? Relação ou solidão? Estabilidade material ou emocional?...

“Acomodoraria o melhor que pudesse a situação, como uma feia casa em ruínas que se repara aqui e ali, não sendo possível, por falta de dinheiro, construir uma nova". (Alberto Moravia, in "Os Indiferentes”, 1929).

Mas olhar-se não é fácil, se a "MÃE natureza" lhe não permite espelhar senão a falha narcísica que fez por esconder de si toda a vida, defendendo-se da depressão. Desconhecendo os afectos, não realiza a falta deles. E a vida é como um quadro parco em colorido, em emoções.

Por detrás do recurso à lógica, à coerência, às regras, está um indivíduo incapaz de ser ele próprio, que inventou uma carapaça para se proteger dos outros e de si mesmo, pois que os afectos são para ele demasiadamente invasivos. Para que os reconhecesse, teria que ter aprendido a saboreá-los, a desejá-los, a aluciná-los, e o seu “espaço de fantasia” encontra-se oco.
"Um corpo que não sonha é como uma casa desabitada - a ruína é o seu destino".
(Coimbra de Matos, in "Mais Amor, menos Doença", 2003).
Mas as defesas que ergue são frágeis, e sempre que um “cometa” ardente irrompe pela aridez do seu solo, existe sério risco de desfragmentação e psicose. De resto, essa ordem postiça com que tenta controlar o seu mundo condena-a a viver isolada e paralisada no movimento, em falta consigo e para com os outros, e a não mais receber o que desde o início lhe faltou. Por mais que tente saciar a sua sede, o obsessivo terá sempre a boca seca.

“Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada, mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza". (Gabriel García Márquez, in “Memória das minhas putas tristes”, 2005).

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["Elvira" (nome fictício) - Fundamentos sobre a Neurose Obsessiva. Primeiro caso de acompanhamento psicoterapêutico: introdução e encerramento da apresentação de supervisão de estágio. Novembro de 2004].

domingo, julho 09, 2006

Domingo (lyric)

Eu preciso te falar
Te encontrar de qualquer jeito
Pra sentar e conversar
Depois andar de encontro ao vento
Eu preciso respirar
O mesmo ar que te rodeia
E na pele quero ter
O mesmo sol que te bronzeia
Eu preciso te tocar
E outra vez te ver sorrindo
E voltar num sonho lindo
Já não dá mais pra viver
Um sentimento sem sentido
Eu preciso descobrir
A emoção de estar contigo
Ver o sol amanhecer
E ver a vida acontecer
Como um dia de domingo



Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar a voz do coração

("Dia de Domingo" - Gal Costa; Imagem: Yuri Bonder - http://www.photo.net/photos/Yuri%20Bonder)

quinta-feira, julho 06, 2006

Esse jeito

Ao teu silêncio, impus-me
À tua voz, supus-me...
É esse jeito... Induz-me!

(06/12/2005; dedicado.)

Ser

A cada ser humano, o seu medo de ser (humano).

segunda-feira, julho 03, 2006

Só palavras

Esperei-te

Imenso, denso, intenso;
impetuoso, intempestivo, tempestuoso;
derradeiro, arrasador, arrebatador.

Mas ative-me, detive-me, contive-me;
e mantive-me,
quando sentia que o que urgia me fugia.

E um dia

Só havia um punhado de palavras,
apunhalando os sentidos;
insentidas, pressentidas, ressentidas...

Funestas:

Estas.

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(Fotos: Yuri Bonder - http://www.photo.net/photos/Yuri%20Bonder)

Desde Fevereiro de 2007