“O homem é um animal narcísico”
(Professor António Coimbra de Matos)

Sob o “espectro outonal” , daquilo que poderia ter sido e não foi, e “o eterno provisório das coisas que servem sem satisfazer” (Agustina Bessa Luís, in "A Sibila"), policial, 43 anos, 3 casamentos, 2 filhos, Elvira chega-nos triste, perdida, desesperada...
Não sendo feliz, tem-se deixado levar ao sabor da corrente. Um caso amoroso por parte do actual marido foi o que abalou o equilíbrio precário, atirando-a para um vácuo algures entre o sentimento de culpa e o de inferioridade, a par de uma desconfiança letal.
A sua vinda é uma paragem para olhar para si, recobrar energias, repensar a vida, receber alguma luz sobre o que se lhe cega, desconstruir o apelo latente. Duas margens, em qual ficar? Relação ou solidão? Estabilidade material ou emocional?...
“Acomodoraria o melhor que pudesse a situação, como uma feia casa em ruínas que se repara aqui e ali, não sendo possível, por falta de dinheiro, construir uma nova". (Alberto Moravia, in "Os Indiferentes”, 1929).
Mas olhar-se não é fácil, se a "MÃE natureza" lhe não permite espelhar senão a falha narcísica que fez por esconder de si toda a vida, defendendo-se da depressão. Desconhecendo os afectos, não realiza a falta deles. E a vida é como um quadro parco em colorido, em emoções.
Por detrás do recurso à lógica, à coerência, às regras, está um indivíduo incapaz de ser ele próprio, que inventou uma carapaça para se proteger dos outros e de si mesmo, pois que os afectos são para ele demasiadamente invasivos. Para que os reconhecesse, teria que ter aprendido a saboreá-los, a desejá-los, a aluciná-los, e o seu “espaço de fantasia” encontra-se oco.
"Um corpo que não sonha é como uma casa desabitada - a ruína é o seu destino".
(Coimbra de Matos, in "Mais Amor, menos Doença", 2003).
Mas as defesas que ergue são frágeis, e sempre que um “cometa” ardente irrompe pela aridez do seu solo, existe sério risco de desfragmentação e psicose. De resto, essa ordem postiça com que tenta controlar o seu mundo condena-a a viver isolada e paralisada no movimento, em falta consigo e para com os outros, e a não mais receber o que desde o início lhe faltou. Por mais que tente saciar a sua sede, o obsessivo terá sempre a boca seca.
“Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada, mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza". (Gabriel García Márquez, in “Memória das minhas putas tristes”, 2005).
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["Elvira" (nome fictício) - Fundamentos sobre a Neurose Obsessiva. Primeiro caso de acompanhamento psicoterapêutico: introdução e encerramento da apresentação de supervisão de estágio. Novembro de 2004].