quarta-feira, junho 21, 2006

Conselho

Não cantes tua dor, tua amargura
A quem jamais sofreu um só momento
Que o venturoso, alegre na ventura
Não entende do triste o sofrimento

Qual brama luz, que insulta a noite escura
Sem ter da escuridão conhecimento,
O prazer nos insulta a desventura
Sem dela conhecer o sentimento

E nada, nada há de mais tirano
Que mais ofenda o coração humano
Do que não ser na dor compreendido!

Só sabe nossas mágoas entender,
Sentido pelo seu próprio sofrer,
Aquele que na vida houver sofrido

(Olympia Laires - minha bisavó paterna, 1924)

PS - Se alguém lhe tivesse dito que um dia esse seu conselho iria parar a um "blog"!...

8 Comments:

Blogger Aspásia said...

Grande Bisavó que assim tão bem rimando, filosofava. Uma émula de Florbela Espanca...
Também me parece que os bisavoengos genes transitaram para a bisneta...
Y Gracias pelos piropos ao meu velhote... de facto foi um galã do seu tempo e ainda não está nada mal...

Bjinhos

junho 21, 2006 1:10 da manhã  
Blogger António said...

Paula!
Uma bisavó de que te deves orgulhar muito, tenho a certeza.
Mas vim aqui sobretudo para agradecer dois comentários de que muito gostei e que deixaste escritos no meu blog.
Volta sempre!

Beijinhos

junho 21, 2006 1:05 da tarde  
Blogger APC said...

Acabo de comentar um post que o António tem no seu blog, exactamente sobre o seu bisavô(!) - e sobre segredos! - e de repente percebo que também gostaria de o largar aqui, por isso cá vai:

Incrível e fantástica viagem a um passado valiosíssimo, agarrando-o e soprando-lhe o pó, para que reviva e brilhe!
Tão longe estava de o imaginar, quando hoje vi o teu comentário à minha bis! :-)
Especulaste sobre se eu teria orgulho nela...
Na verdade, cruzámo-nos muito pouco, quasi de raspão ;-)
E o que é de uma criança ao colo de um idoso, senão nada mais que isso?
Mas o certo é que nada nunca encontrei em mim da filogenia paterna (de traçado marcadamente materialista, obsessivo, castrador...), até me chegarem às mãos os escritos de Olímpia, com quem amiúde me comparam, não tanto à conta deles, mas de outros quejantes.
Segredos?...
Pois sim... Que ela, mulher-amante por excelência, ironicamente hipotecou a sua infinitude a um só homem (mais se ama, menos se amam?...).
Foi ele o pai das suas filhas (uma delas minha avó, hoje com 89 anos).
E também pai de filhos outros.
Homem que ia e vinha, e depois não veio...
Terá sido também, mais tarde e bem longe, companheiro de uma das filhas de ambos!
E desde aí nada se sabe.
E é segredo :-)

Deveras queirosiano, não? "Eça" é que é "Eça" ;-)

junho 21, 2006 4:40 da tarde  
Blogger lobices said...

...venho agradecer e retribuir a amável visita, bem como as palavras
...quanto às palavras da tua bisavó, sábias não haja dúvida, ficam muito bem no teu blog mesmo que ela não saiba o que é, pode ser que as leia, algures...
...como saber
...um beijinho

junho 21, 2006 8:26 da tarde  
Blogger António said...

Querida Paula!
Vinha aqui comentar o teu excelente comentário ao post sobre o meu bisavô e...cá estava ele.
Esse teu "segredo" dava um post fabuloso!
Vejo que tens lido algumas coisas que fui escrevendo desde que inaugurei o meu canto em 7 de Fevereiro de 2005. Já escrevi cerca de 160 posts. Se continuares a ler o "Eu sou louco!" (acção que recomendo vivamente...eh eh) vais encontrar coisas melhores e coisas piores. Mas vais seguramente divertir-te com algumas das memórias que por lá fui largando (antes que o Sr. Alzheimer me agarre).
Já agora!
Foste tu quem comentou poeticamente o post "Reflexão"?

Este teu canto é ainda um bebé de colo.
Espero vê-lo crescer depressa até se tornar num adulto.
E eu posso dar-lhe um biberão com leitinho para ajudar.
Também o meu deu os primeiros passos muito desamparado e depois cresceu e atingiu a maioridade.
Mas deu muito trabalho ao paizinho, lá isso deu!

Beijinhos, naturalmente

junho 21, 2006 11:14 da tarde  
Blogger APC said...

Oh, António!...

E o que de bom a maturidade tem, é lá algo que se consiga apressando?
Não é, pois não é? Não, não será!
Ademais, este é apenas um dos meus cantos sublimatórios de encantos e desencantos aleatórios ;-)

"A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta" (Fernando Pessoa).

Porém, regada de bons afectos, qual a sementinha que não brota e um dia se torna erva, planta ou mesmo árvore? Obrigada :-)

Tenho, de facto, um comentário no teu "Reflexões". É o tal dos "diatribes", mas o que fiz foi "diabrites" (poupa-te, não vem no dicionário;-), pois que te chamo Louco; e desmedido seria confundi-lo com liberdade poética ;-)

Et oui, bien sure, que lerei todo o teu espólio narrativo, em passeios calmos e bons de saborear.
La scientia bene dicendi é afrodisíaca e generosa. Nasce da fome de viver, e transmite apetite pela vida.

Lá estarei... Naturalmente!

junho 22, 2006 12:23 da manhã  
Blogger António said...

Olá Paula!
Então tens outras camuflagens?
E vais querer dizer-me quais são, não vais?
Escreveste muito bem:
Nada de pressas.
Andemos ao ritmo da vida.
E não vivamos de memórias (digo eu) porque elas são o nosso passado mas não o nosso presente nem o futuro.
E que viva a vida!

Beijinhos

junho 22, 2006 9:36 da manhã  
Blogger APC said...

Não senhor, não vou nada querer dizer-te quais são! Lol :-)

Bom, na verdade, as "camuflas" de que falo são as várias dimensões pelas quais nos partilhamos, os papéis sociais que assumimos, as responsabilidades que se nos impõem e que interessa que façamos tão congéneres a nós mesmos e aos nossos desejos, quanto possível, coisa que nem sempre é fácil (sabe-lo-ás, presumo - os loucos costumam sabê-lo).
Não há como sentir que o nosso projecto existencial é genuíno, para se ser feliz, e ganhamos mais pontos de vida quanto mais assim o for; mas como nada é sempre tudo, é certo que, por vezes, por isto ou aquilo, nos sentimos camuflados... Este blog começa por ser um soprozito circunstancial de liberdade pessoal - exactamente um descamuflar das camuflagens que lhe dão título - ao permitir dizer-se o que se sente, quando tal nos dê na telha.
See U!

junho 22, 2006 8:37 da tarde  

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