Semáforo
Cheguei a casa a pensar nos semáforos... E na forma como reagimos àquela alternância de cores que nos comanda quando andamos na estrada.
Se está verde, aí vamos, fast & furious por vezes, que a estrada é nossa, é só uma questão de focar o caminho e estar alerta para com os obstáculos; se calha a estar amarelo, sabemos que é de ter cautela, mas de resto pouco muda, assim como na praia a mesma cor na bandeira não intimida o bom nadador, apenas o principiante; quando está vermelho paramos - lá terá que ser, que assim manda a regra e não queremos problemas com a justiça. É claro que se der para acelerar quando o vermelho se prepara para cair, conseguimos passar já por cima dele, mesmo no risco, rés-vés-coisa-e-tal, não é bem vermelho mas alaranjado, já passou e não se fala mais nisso. E, ainda antes do verde aparecer, é já tempo de soltar o travão e dar a partida.
Quer isto dizer que não estivémos parados durante "um vermelho" inteiro; e se acaso o veículo até se comportou como se o tivéssemos estado, a nossa cabeça estava ocupada em não querer parar, em não querer estar parado, em querer recomeçar a marcha.
Eis o que de doentio se passa connosco perante uma opressão seguidamente à qual virá a permissão: mantemo-nos todo o tempo num registo expectante, a fazer lembrar um cachorrinho que abana freneticamente a causa assim que pressente que o carro onde é levado está prestes a estacionar, permitindo-lhe sair.
A alma do condutor vive semaforizada, cronometrada pela ditadura da cor, em repetidos picos de ansiedade vermelha, impaciente, frustrante, agressiva.
Estaremos a precisar alargar a nossa paleta, permitindo que as emoções se difundam e diluam num espectro cromático mais generoso?
Porque não, então, acrescentar-lhe, por exemplo, o rôxo?
Sim, o rôxo... É uma cor, não é? Poderia ser o azul, ou o castanho, se o primeiro não remetesse para o infinito e o segundo para a sujidade. Poderia ser outra qualquer, mas creio que o rôxo serve bem os nossos propósitos.
Posto que o verde simboliza liberdade e permissão, o amarelo precaução e vagar, e o vermelho perigo e proibido, o rôxo impor-
-se-ia como evocação do lúgrubre e símbolo de algo derradeiro como a morte, ao entrar para o código da estrada com a tradução de "Nem Pensar em Andar!!!".
-se-ia como evocação do lúgrubre e símbolo de algo derradeiro como a morte, ao entrar para o código da estrada com a tradução de "Nem Pensar em Andar!!!".
Vejamos, então, a ordem da aparição semafórica: verde - amarelo - vermelho - rôxo - vermelho - verde, e por aí adiante...
Ou seja, depois de ter sido surpreendido com a imposição de parar, todo o condutor poderia permanecer sereno por uns quantos segundos, mas desta feita apenas para relaxar e reflectir um pouco sobre a vida, reconhecer-se a si e lembrar os outros, alheio à preparação do arranque, pois que a seguir ao rôxo viria ainda o vermelho, que o obrigaria a permanecer parado, contudo permitindo já que voltasse a pensar em conduzir.
Seria também durante o período rôxo que as senhoras aproveitariam para retocar o batom, e os mais rotinados enviariam a tal sms que tão só aguardava por um momento oportuno. Seria, acima de tudo, um intervalo no stress alienante, uma coisa assim tipo zen, permitindo um quê de transcendência, em que o condutor, enquanto tal, estaria "morto", e apenas o ser humano prevaleceria.
É verdade que tal alívio seria uma coisa imposta, mas também as férias laborais são hoje um descanso obrigatório e ninguém se parece chatear por isso.
Para finalizar, o incumprimento do sinal rôxo acarretaria uma pena sobremaneira pesada para o prevericador, uma vez que estaria em causa uma dupla transgressão: ter avançado, e ter pensado em avançar (crime premeditado, portanto;-)
É certo que também haveria quem arrancasse, não por ter pensado em fazê-lo, mas por não ter pensado que não o deveria fazer; ainda assim, pecaria por negligência dos valores basilares da filosofia do rôxo: pensar no ser, estar e ficar, no permanecer, viver e amar.
Paradoxo? "Párarôxo"!
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6 Comments:
Adorei a reflexão.
...seria, certamente, um criminoso pois nunca pararia num sinal roxo
...roxo, ou violeta, cor plena de pureza, seria sim sinal para avanço imediato ao encontro do outro lado de lá da cor
...porque pergunto sempre o que estará para além da violeta
Eheheheh...
['Tolo ensaio sem papel, meras variações sem dó... Mas se trouxe desregrados até cá, menos mal].
Pois sim, que para a frente é que é caminho, muito está para além do que encontramos e tudo nos espera. Prescrutadores de impossível vão acima e abaixo da linha da superfície e assim a percorrem; e as cores são os afectos que se geram e partilham.
Quem quer parar?...
Deixo-lhe uma violeta:-)
PS - A matar o lirismo, excepção feita a quando para lá da semaforosa proibição está um peão ou um outro veículo, bem entendido.
Uma variante:
Em S. Paulo à noite não se pára no vermelho porque se pode ser assaltado.
Em contrapartida, no verde tem-se cuidado por causa de quem vem a fugir do vermelho.
Eu contei duas variantes: a informação trazida e o informador que a trouxe ;-)
Mas, variações à parte, antes variado (amén!) que avariado :-)
Bx
Quanto a mim andarei então sempre no rôxo, no violeta ou no azul: só ponho o pé no travão em pleno e prolongado vermelho, pois seja ele amarelo, verde ou verde-tinto, o pé vai no acelerador e a cabeça em desalinho.
Mas que está bem esgalhada a metáfora semafórica ou o ensaio sobre um semáforo metafórico lá isso está.
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