sábado, novembro 04, 2006

Chronos

Se a idade interessa?... Pois sim, na justa medida em que é nossa, com todo o simbolismo que lhe subjaz; porque nos é essencial, contendo representações privadas de um vivido histórico, qual cereja em cima do bolo de uma existência singular e inigualável.
Mas essa coisa do numerário, da contagem das vezes em que a terra rodeou o sol connosco em cima dela... Como se um funcionário de uma repartição pública empoeirada, enquinada numas águas furtadas perdidas num tempo cinza (como n' O Processo, de Kafka – nada mais a propósito, se é de um processo que falamos), débil e lívido no seu fraque desbotado pelo humo da cela, nos pregasse, à revelia, com a carimbadela oficial: "Mais Velho!"... Nova e impiedosa obliteração na caderneta da validade, espécie de imposto a pagar ao diabo!
Contudo, se o não olharmos também ele não nos vê, e estamos safos!

(4 de Nov. de 2005, dedicado)

27 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Que tal parar de contar os anos e ir aumentando o IVA (Idade de Valor Acrescentado...)?

novembro 04, 2006 9:38 da tarde  
Blogger AS said...

Psiu... olha que eles ouvem! e se ouvirem, conta com o carimbo!!!


Um beijo...

novembro 04, 2006 10:28 da tarde  
Blogger legivel said...

Juro que não olho para o gajo das carimbadelas mas uma coisa é certa: a máquina do tempo não tem contemplações comigo. Inapelavelmente estou mais velho; mais velho do que era quando iniciei este comentário até este momento. E não posso estar mais de acordo: a idade interessa. Aqui há pouco tempo uma jovem ofereceu-me o seu lugar num transporte colectivo. Belisquei-me, com um olhar para trás tentei confirmar se era mesmo comigo e... era. Soube-me bem, que andar por ali aos solavancos, empurrões e maus-odores não é pera-doce. Mas mal me tinha sentado e agradecido já me estava a imaginar chegado a casa e ter uma conversa de "homem para espelho" e ajuizar do meu estado de conservação...
Antes da "conversa" percebi que estava mais leve; a gaja tinha-me fanado a carteira...


óptimo domingo!!

novembro 04, 2006 10:40 da tarde  
Blogger ALF O Extasiado said...

Sim. Ao invés de falarmos que estamso ficando velhos, digamos que ficamos mais sábios a cada dia. O tempo só nos ajuda a crescer espiritualmente e mentalmente. Ele nos transforma e nos amadurece. O tempo em seu devido lugar não nos envelhece, mas rejuvenesce a alma.

beijos
;)

novembro 05, 2006 12:44 da manhã  
Blogger lobices said...

...interessante o tema do nos sentirmos velhos ou não
...sentimo-nos mais cansados fisicamente e, por vezes, os neurónios pregam-nos algumas partidas engraçadas
...porém, não consigo sentir-me "velho"; sinto-me igual ao que sempre fui como se nunca tivesse "crescido"
...mas, como diz o legivel, não houve ainda ninguém que me oferecesse o lugar num autocarro mas acho engraçado quando junto a uma passadeira para peões, os carros param e fazem-me sinal para passar, dando-me a prioridade do estatuto que a velhice entre aspas nos concede
...digo, de passagem, que só nesses momentos me sinto "velho" mas, ao mesmo tempo, sorrio e isso, esse sorrir, faz-me bem, faz-me sentir vivo e feliz
:)*

novembro 05, 2006 1:24 da tarde  
Blogger Leticia Gabian said...

"...O tempo não pára, não pára não, não pára..." (grande poeta Cazuza)

Se não para, age nos tomando pelos poros,invadindo nossa derme (modificando-a), invadindo nossos órgãos internos, nossas reentrâncias, nossas entranhas, nos fazendo outros dentro de nós mesmos. E o que faz ao penetrar nas nossas cabeças? O efeito é mais devastador, em alguns casos a memória é tão afetada que esquecemos até quem somos.
O tempo não para. Nós, em vão, quermos parar o tempo quando nos preocupamos com ele e seus efeitos em nós. Ledo engano. Nem o melhor cirurgião plástico possui este poder. E para eles, vez por outra, penso escutar a sádica e sonora gargalhada do Deus Chronos - aquele que tudo pode.

novembro 05, 2006 1:24 da tarde  
Blogger Papoila said...

A cada centésimo de segundo acompanho a terra no seu movimento e por tal motivo o tal funcionário não tinha mãos a medir com o carimbo...
Quanto ao resto vai-se consumindo sou matéria consumível... de espírito eterno.
Beijo

novembro 05, 2006 3:35 da tarde  
Blogger António said...

Minha querida!
Claro que a idade interessa.
A juventude aos 60 é diferente da juventude aos 20.

Beijinhos

novembro 05, 2006 4:05 da tarde  
Blogger mfc said...

Só diz que a idade não conta, aquele(a) que ainda não tem a suficiente para não se preocupar com ela!!

novembro 05, 2006 4:18 da tarde  
Blogger JPD said...

A idade conta e ainda bem que isso acontece.
Fomos educados para pensar e agir na 'basezinha' das duas dimensões: espaço e tempo e essa prerrogativa permite.nos a veleidade de experimentar outras ousadias: a emoção plena, o sonho, o amor, o ódio, o que se quiser.
Eu vou a caminho dos 51 e não ligo pêva!
(Uma observação: de há dois posts para cá comecei a editar imagens. Ao faze-lo achei que deveria ser coisas desenhadas por mim ou quando se tratar de comentários a filmes, a reprodução dos cartazes. Levo muito tempo a conseguir um desenho satisfatório e que provavelmente será sempre sofrível...Voilá!)
:)*
Quanto ao Kafka, ao processo eaos burocratas, apresento aqui um contraponto curioso (Pag. 256 da Ed. Europa America da «Madame Bovary»: «...todo o notário encerra em si os destroços de um poeta...»
Benigna a observação do Flaubert?
Mau, mau, +essimo até, é vermo-nos confrontados como que aconteceu a (Ibidem, pg 108) «...pois muitas vezes Léon se recostava na cadeira, de braços caídos, queixando-se vagamente da existência.»

novembro 05, 2006 5:34 da tarde  
Anonymous Nes said...

E agora sempre que se falar em idade vou sentir-me uma nobre detentora da 'carimbadela oficial'... tu lembras-te de cada uma!

Certo, certo é que estas metáforas são de um rasgo de criatividade, digna apenas de alguns... Sem palavras.

Beso

novembro 05, 2006 7:02 da tarde  
Blogger francis said...

Ò rapariga, falar do Diabo ao Domingo? Então hoje não é dia de missa? :-)))
Questões acerca da idade? Só se ela pudesse regredir!
kiss, kiss!

novembro 05, 2006 7:11 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

lá por passar aqui quando o rei faz anos nao quer dizer que nao veja o que escreveste para trás embora o comentario incida sempre mais sobre o ultimo post.

se a idade interessa? a im... na medida em que envelheço. tem custado a aceitar o envelhecimento e a culpa nao é do tempo mas do aspecto gaiato que sempre disseram que eu tinha. mas quando os miudos me deixaram de "bisnagar" no carnaval vi que algo ia mal...

bom. contudo nao penso que tenho 18 anos e nisto binnet iria bater palmas, meu deus, a idade cronologica quase que bate em cima da psicologica, rsss, ai binnet, binnet.

e se tu esperas pelos sabados pelos motivos apontados eu espero que vas la e bebas um copo e leves um livro, depois logo devolves, nao te preocupes.
mais uma coisa: as correcções posteriores sao escusadas. sabemos pela qualidade da tua escrita que os teus enganos sao a pressa dos dedos.

beijinhos da leonoreta

novembro 05, 2006 7:17 da tarde  
Blogger joão marinheiro said...

Bom a ver se desta vez esta coisa funciona e o comentário que eu julgava perdido fica por ai. Obrigado por lhe teres ensinado o caminho de casa…

Gosto da cereja, de as apanhar na árvore, o reumático que se lixe...e o comentário também não vem a propósito. O bolo dispenso. A idade. O que é a idade se somos minúsculos e passamos despercebidos na imensidão que é o mundo...
Abraço enquanto tento salvar memórias e barcos...

novembro 05, 2006 10:14 da tarde  
Blogger Maria P. said...

Eu não consigo definir idade...

novembro 05, 2006 10:38 da tarde  
Blogger APC said...

Daniel: Valor Acrescentado!... Aí está o que nem todos conseguem sentir!

Frog: o tempo não é mouco? Que não seja é ôco! :-)

Alf: o tempo em seu devido lugar, voilá! :-)

Legível: desde que entrei no teu blog, e de legível passaste a lido, que de elegível passaste a eleito!... Tens esse jeito de escrever as coisas, 'quase que a gente acredita! Sem palavras! :-)
PS - Aqui também te dou lugar! ;-)

Oh, Lobinho!... A sorrir fiquei eu, enternecida com essa passagem [passadeiragem] :-)
Mas olha que também param para eu passar, oubistessss? ;-)

Let: eis o duelo: o tempo faz o que quer connosco; compete-nos tentar fazer o que queremos com o tempo! :-*

Papoila: eis a avó mais sexy do planeta!!! :-))) Se não fôssemos consumíveis - pelo tempo, por nós, pelos outros - seria a vida tão valiosa?

António: bien sûr! E assim mudamos, assim crescemos, também assim melhoramos!...

MFC: bem visto! E a 'suficiente é variável, assim sejamos mais ou menos jovens, apesar dela.

JPD: é assim com quem continua a suada labuta da existência, e com muito mel no frasco! ;-)
PS - também na psicologia essa observação faz todo o sentido do mundo!

Nes: U R so kind! :-*

Francis: 'inda que mal pergunte, acaso foste à missa nesses preparos?

Leo: eu que te veja a passar no Cais do Sodré, a ver se não levas uma bisnagadela! ;-)

Marinheiro: é uma coisa apenas nossa; fazemos dela o que formos! :-*

Maria: 'para quê definir tudo?...

novembro 05, 2006 11:11 da tarde  
Anonymous jorge said...

Vejo uma pequena sombra na pintura, uma ruga talvez, poderia ser desgaste ou cansaço, sofrimento e desgosto, nunca ambição de regresso, porque essa idade não volta mais. Fingir jovialidade é fraqueza de quem não aceita a velhice, o maduro e caduco tempo que antecede a morte, como o vinho.
Inevitável, beber com moderação.

novembro 05, 2006 11:36 da tarde  
Blogger João Mãos de Tesoura said...

O que vale é que o tempo é distraído. E quanto mais intímo se torna, menos memória lhe resta para nos atormentar. Se olhamos o as estrelas vemos uma fotografia do passado, se olharmos as crianças advinhamos no seu sorriso o futuro. Tudo isto não passa de uma ilusão óptica!
Beijos

novembro 06, 2006 6:17 da manhã  
Blogger cuotidiano said...

A grande maioria das pessoas (a quase totalidade?) não tem uma existência “singular e inigualável”, mas apenas uma existência monocórdica, repetitiva e desinteressante, não vivendo a vida mas sim andando numa “vidinha”, como sonâmbulos “funcionários da vida” (sim, também me incluo neste lote). Por outro lado, nem é preciso ninguém para nos “carimbar” – a nossa vida é tão solitária que, dia após dia, já nos “auto-carimbamos” (“auto-marimbamos”?) ...E ainda há aqueles que já nascem velhos, como o Bernardino Soares, líder da bancada parlamentar do PCP, que já nasceu – se não me falha a memória, que a idade não perdoa – com 126 anos. Seja como for, morremos na mesma, que o diabo pode ser cego mas não é burro!

Finalmente, a propósito de “funcionários da vida” e porque dois comentários abaixo o Ramos Rosa foi “despertado”, junto o “Funcionário Cansado”, um poema que eu acho lindo-lindo (esta expressão é roubada...).


Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só


PS – Beijo do “Cuote” – gostei do termo! (já agora e a propósito do “post”, vem de “Cuotidiano” ou de “Cota”?)

novembro 06, 2006 9:17 da manhã  
Blogger Teresa David said...

Curiosamente ainda ontem discuti o assunto da idade com uma amiga, pois acho que ganhamos em sabedoria, mas o corpo comece a sentir-se de uma forma mto menos agradável, particularmente quando se tem problemas nos ossos como eu! Contudo, não deixei nem deixarei que as dores que me povoam me tirem a alegria de continuar a viver retirando todos os dias prazer de alguma coisa que veja, sinta ou faça.
Bjs
TD

novembro 06, 2006 12:15 da tarde  
Blogger Menina_marota said...

Lembrei-me agora de uma frase, do meu primeiro chefe, num momento em que pegava nuns dossiers que eram confidenciais…” a menina ainda não tem maturidade para ler essas páginas. Isso é assunto do pessoal mais antigo tratar…é confidencial”
Esforcei-me durante alguns anos, para chegar ao patamar dos dossiers dos mais antigos, ou seja dos mais velhos… mas agora, ser mais velho implica… o QUÊ?

Um abraço carinhoso e grata pela partilha

novembro 06, 2006 2:44 da tarde  
Blogger Capitão-Mor said...

Kafka? Quero-te dar os meus parabéns pelo excelente bom gosto...

novembro 06, 2006 9:23 da tarde  
Blogger Sininho said...

O tempo n tem comtemplações mas só a nivel fisico eu posso ser velha, levar com o carimbo mas na minha cabeça imperar uma doce e suave juventude

novembro 06, 2006 9:25 da tarde  
Blogger ARTEMINORCA said...

Querida APC, só espero gostar de ir gostando de mim como tenho gostado ao longo do tempo. Olho para trás e sei que perdi algumas coisas mas cada etapa tem sido encarada como construção... aumentam-se as rugas mas também o charme delas!
Beijinho, sua malandra! Lu

novembro 07, 2006 1:03 da manhã  
Blogger holeart said...

disse muito bem maduro e jovem.

velho e verde tambem gosto

mas o que está verde? o que está maduro?

pelo que me toca eu hoje estou "podre" com mais uma surpresa que me ofereceram.

bjs

c.

novembro 07, 2006 5:28 da manhã  
Blogger APC said...

Jorge: todo o fingimento enfraquece; e bem assim o desleixo, a autocomiseração...

João: temos, pois, parte activa na forma como [vemos a vida que] vivemos! :-) Welcome!

Cuote: se cumprir os deveres bastasse para se ser feliz...!
Daí que feche este ciclo com o post Kairos(III). Nesse, como último comentário e num poema também, terás a minha resposta a esta mensagem que ilustraste com uma belíssima selecção!
E há, sim, gente que é velha toda a vida!

PS - Vem da cota-parte que tu tens tido! ;-)

Teresa: sem dúvida que a saúde tem um papel central nisso de nos sentirmos bem connosco a cada etapa. Mas já vi que és uma teimosa-de-vida; lutando fortemente contra as fraquezas! :-)

Oh, Menina!... A vida toda (toda!) escutei eu o "muito nova para"; acreditei tanto nisso como acredito no "muito velho para". Por vezes os que temem querem que temamos, os que não conseguem querem que não consigamos, os "velhos" querem que envelheçamos, lol. Na verdade, quando nos cruzamos com alguém "crescido" (eis como se pode ser maduro e jovem), verificamos que, de alguma forma (mas sempre confiando nas nossas capacidades) esse nos faz crescer também!
Ora, crescer e fazer crescer é estar na vida a valer! Lol ;-)

Capitão: grata, mas não creio merecer os parabéns por apenas sucumbir ao prazer de ler um notável escritor, que se demarca dos outros, ainda que por mais não fosse, pela surreal e exasperante dificuldade que sempre impõe a cada passo. Sê bem-vindo! :-)

Sininho: mas é mesmo que nós somos! :-*

Lu: as escolhas implicam renúncias, e tu soubeste'!...

PS - Será por isso que aparentas menos dez anos? (sim, porque não sei a quem queres enganar, com essa das rugas; só vi o charme!;-)

PPS - Ainda me hás-de explicar por que diabo deste hoje em chamar-me malandra! :-P

Holeart: antes de mais, e porque tinha um erro, tive que repetir a resposta aos comentários, pelo que agora apareces a dizer que eu disse bem algo que eu ainda não disse (boa!, enganámos o tempo!;-) E depois... Ora, nem é depois, é agora, o abraço a quem merece!

novembro 07, 2006 5:46 da manhã  
Blogger Estranha pessoa esta said...

Hmmmmmmmmm
Que nos safe os propósitos disto tudo a que tendem a chamar de vida...

novembro 08, 2006 7:30 da tarde  

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