domingo, maio 14, 2006

Sem Sentido

Não me dizes nada
E eu nada sei
Sem esperar busquei-te
Rio adentro
Rio afora

De um lado lá estavas
Nas águas escuras
De uma noite branda
Do outro
Estavam luzes de inverno
De Lisboa amante
De um ritmo escaldante...
E tu!

Não me dizes nada
E eu sei tudo
Tudo das ondas que ouço
E me agitam
Que arranham a areia fria
Vazia de ti
Sei tudo de um sol que se pôs
Do lado esquerdo de mim

Pela frente, o que tenho?
Uma esperança, não mais
Já meia esperança, talvez
Para trás fica e permanece
Mais uma esperança vetada

Dita-me o mar estas frases
É Mar, o Rio, porque não?
Tudo o que eu quiser neste instante,
Ritmo atordoante
Que me sopra palavras
Não sei como ter-te
Nem como o saber

Estás longe, sinto
Ausentes as luzes
Do barco que torna
Presentes memórias
Que tornam também
Neste sentido que em mim
Não tem sentido nenhum

Cobria-me um xaile
E junto a ti errava
Pelas ruas
Os passos
Corriam toda a cidade

Despia o meu manto
E sobre ti caía
Sob a lua
Os corpos
Cruzavam-se em liberdade

Vens?...
Não me dizes nada
Nesta loucura
Ébria a cidade conquista
O êxtase de um mar vivido

Não sei como ter-te, enfim
E busco-te, não sei porquê
Tal como a noite, ‘o dia
E a luz, ‘as trevas
E o tempo de hoje, ‘o tempo perdido

Sequer te encontro nas rimas
Que nunca soube inventar
Navego enfim
Todo o sentido em mim
E tudo em mim sem sentido


(APC, Dezembro 1992)

Desde Fevereiro de 2007