O fim

Não sei se é, não faço ideia, nunca o pensei, não quero saber. Estive entretida a viver fora de mim e dessas coisas todas que nos puseram na cabeça em pequeninos. Deste e do outro, assim e assado, por isto e aquilo, por tudo e por nada, por ninguém. Esqueci, mudei, fugi, nem sei. E lá longe (tão longe!), bem no coração do mundo, numa aurora austral que ligava a terra aos céus, creio que gritei p’la primeira vez ao ser parida. Senti o eco sob os pés sujos de terra, e os pássaros voaram num repente belo, e a gazela paralizou o passo até chegar o riso das crianças correndo na planície rumo a donde vinha o cheiro a pão de mandioca. Se tu soubesses!... A savana enfeitiça-nos de vida para todo o sempre até à morte. Só pode ser branca, a magia, que a outra é castigo que mata devagar. Não sei de nada. Nunca soube nada. Mas podes achar que acabou, se quiseres. Sim, deve ter sido o fim. Só eu não sei dizê-lo, que ainda agora nasci, e as palavras são tão inocentes e o horizonte tão longo, tão largo, tão tanto, que até o fim é nada.
(Imagem: APC, tratada por Tinta Permanente)
Etiquetas: P/ Minguante - Revista de Micronarrativas (ed. Maio; tema: "Fim")
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