Kairos (II)
"A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos".
(John Lennon)
Um dos formandos que de melhor me aconteceram recentemente, expunha, aqui há dias, o raciocínio que acabaria por me dar o mote para esta trilogia:
Observo os casais no Colombo, a escolher a melhor cozinha possível, preocupados em comprar tudo quanto seja topo de gama, com os melhores equipamentos, porque "com aquela cozinha vão ser felizes"... Ela proporcionará amorosos pequenos-almoços, serenos almoços de fim-de-semana e românticos jantares a dois.
Dia após dia, lá se passeiam eles, unidos no objectivo de uma bela cozinha que lhes trará maior bem-estar e qualidade de vida. Para não falar da sala, e das outras divisões e dos acessórios; porque parece que são precisos muitos acessórios para que a vida fique minimamente bonita. E, ainda assim, não é fácil lá chegar, porque umas torneiras prateadas não trazem nunca a mesma felicidade do que trariam se fossem douradas.
Os dias sucedem-se, e eles jantam no Colombo, porque "tem que ser" (pois se há que comprar a felicidade numa cozinha, ou noutra coisa qualquer!).
Um dia, já com as suas cozinhas instaladas, continuam a jantar no Colombo... E porquê? Porque não há tempo ou vontade para mais. Pois afinal é isso que falta!... mas qual deles, mesmo? Vá lá, não sejamos assim... Se ambos dizem que é o "tempo", é porque deve ser!...
Não fora isso faltar sempre, e um destes dias teriam um jantar de sonho com tão pouca coisa [ou não haja prazer sem mesa e sem cama - 'é dizer, sem mobílias!]... Apenas eles, despidos de desculpas e disfarces e movimentos vazios do quanto interessa e basta; se é que isso existe, se é que o tempo de existir não se perdeu.
Porque o tempo de existir é a vontade que o dita!
Neste caos temporal da existência, rasgado de aparentes liberdades e difíceis identidades, a cada vez é mais difícil reconhecer o momento oportuno, e com isso ele se esvai sem darmos conta. A regra, contudo, parece simples, e é antiga:
… O único tempo de viver é o presente!
PS - Desculpa César, se peguei nas tuas palavras e lhe acrescentei as minhas. Tenho porém a certeza, de que não adulterei o sentido da tua mensagem: a de que o tempo "certo", "propício" e "ideal" não é o que há-de vir; e que a breve "janela de oportunidade" somos nós que a abrimos a cada momento.
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19 Comments:
A culpa é das cozinhas!
Voltámos à sintonia... é que pergunto-me hoje no meu canto, se temos tudo o que necessitamos quando levianamente julgamos tê-lo... era precisamente a isto que me referia. Tempo para ser feliz.
De que serve uma linda capa se deixamos que os momentos passem por nós e não disfrutamos das coisas simples, como trocar apenas olhares em silêncio na melhor cabana de palha?
Beso
Maria: sem dúvida! E de alguns cozinhados indigestos também! :-)
Nes: temos lá tempo para isso, se o resto já nos dá tanto que fazer! ;-)
... Serve-nos para parecer, Inês!
A um colega meu da faculdade, o pai ofereceu-lhe, como presente de casamento, toda a maquinaria da casa, nomeadamente máquinas de lavar louça e roupa, argumentando que "se fosse para um dia se divorciarem, ao menos que fosse por uma razão 'decente'". Claro está, dvorciaram-se 6 meses depois. Mas, ao menos, não foi por discutirem quem é que lavaria a louça nessa noite, acho que foi por o sexo ser fateloso!
Enfim, e como diria a grande Mafaldinha, "a vida moderna tem mais de moderna que de vida" - e é verdade. Com toda a pressão e publicidade que nos rodeia, com a pseudo-evolução que nos engole, vai aumentando o paradoxo que é o de que, com o desenvolvimento da tecnologia, deveria sobrar mais tempo para as pessoas, para se relacionarem, para se "trocarem" mas, curiosamente, acontece precisamente o oposto - passou a haver o "relacionamento tecnológico", ou seja, menos contacto, menos tempo para a pele, mais tempo para criar noções absurdas como a "perda de tempo" se não estivermos a ser "produtivos"...
Bom, "desligo" aqui que isto já me soa a discurso...
Quanto mais se procura fora, mais é esquecido, ignorado e negligenciado por dentro. E assim vamos passando pelas coisas e pelos anos, pessoas e momentos e sentimentos e emoções e pensamentos e vontades e desejos e pelos anos.... até que ficamos bem velhinhos e sábios. Mas já será tarde pra muita coisa, não é?
"O único tempo de viver é o presente!"
Verdade. Ninguém sabe como vai ser amanhã. Há que não deixar arrependimentos a servir de âncora. Navegar é preciso.
Nem mais ...
Cuote (lol): "O amor nasce de quase nada e morre de quase tudo" (Júlio Dantas) - a bem dizer, qualquer desculpa serviria, mas assim sempre foi um argumento de peso, para não subsistirem dúvidas! :-)
PS - E se soar a discurso? Aqui podes... Temos tempo! :-)
Let: há coisa de um ano atrás, alguém merecedor do meu afecto afirmava: "todo o valor se esconde, hora a hora, debaixo da nublagem do «tem que ser agora», até ao esgotamento das energias mais finas. E assim se esvai o que de nós é melhor (...)".
Se a saúde ajudar e o espírito quiser, só é tarde para viver tudo de novo... Mais nada! :-)
Rui: certo!, não retirar do passado o que nos enfraqueça, mas o que nos reforce (gerir o passado para crer no futuro gozando o presente?...). Navegar com prazer nisso! :-)
Lois: nem menos...!
Para viver o tempo na sua plenitude, n precisamos de tanta "inutilidade", mas precisamos somente de nós, e quantas vezes esquecemos o nós e partimos em busca do tempo material
Minha carissíma, poderá fazer o obséquio de me informar onde poderei ter acesso à informação da ilibação e culpa do senhor MST?
Merci. :-)
Kiss, Kiss!!!
Nem mais ... o tempo de existir é a vontade que o dita e para quê cozinhados e móveis? Beijo
Olá, nina!
Então trocaste o II pelo III?
E mais nada?
Pouca produção! eh eh
Precisas de a aumenta senão és penalizada salarialmente.
E depois não te queixes!
Não queres ser quinquagenária?
Mas vais ser...oxalá que o sejas e passes a sexagenária, septagenária, octagenária, nonagenária (será assim?) e centenária!
E chega!
Senão depois deves ser impossível de aturar.
Beijinhos
Não vejo a tua fotografia sobre o tema "cumplicidades" no Palavra Puxa Palavra. Mandaste com outro nome ou desististes?
Viver... no tempo certo. O tempo presente.
Isto aqui está confuso :(
beijos
;)
Sininho: ter e não usufruir é uma espécie de não ter; o que temos é muitas vezes substituto do que não temos; e a falta de tempo uma desculpa para não usufruirmos! :-)
Francis: ora, mas como não sabes, se é a mesma [a única] onde se deveria ter ido antes de se lhe imputar a culpa?! ;-)
Papoila: That's my doc! :-)))
Luísa: desta vez calhou-me lançar o mote, mas optei por não participar.
António de Deus!… Nem acredito no que acabo de ler!!! Eu jamais diria a coisa que dizes que eu disse! (e assim nasce o boato, tantas vezes!). E o pior é que quase adivinho que tu me tenhas percebido correctamente, e que estejas apenas a ser irónico! ;-)
Quero tê-la, sim, a essa idade e às outras que se lhe seguirem (quero tudo a que tenho direito, lol).
O que eu te deixei escrito foi, entre outras coisas: Deus que me livre de ser, aos 50’s, a “quinquagenária” para alguém (porque eu fuzilo-o!!!) – quer isto dizer: espero ser mais que isso, de modo a que não tenha que ser designada dessa forma. Vamos lá ver:
Acaso, se te perguntam quem é o Miguel Sousa Tavares (por exemplo), tu respondes: é um escritor quinquagenário?
- Quem é o teu médico?
- Ah, é um sexagenário de apelido XPTO.
“Mas o que tem isso?” – podes tu contestar – “até parece que é feio ter-se a idade que se tem!”. Mas é claro que não é disso que se trata aqui; o que tento sublinhar é que nós tendemos a designar as pessoas por aquilo que nelas é sui generis e as distingue. É claro que me lembrei logo da história do senhor que falava de notícias como “homem atropela septuagenário” - em que um deles é homem (sem idade) e o outro um monte de idade escondendo o homem. E se fosse este a atropelar aquele, manter-se-ia o cognome do mais velho, e aí ainda seria pior (sim, porque os jovens bebem e aceleram, e os idosos não deviam ter carta!). Ora, isso é profundamente depreciativo e concorre para a manutenção do etarismo.
Tu podes não te importar com isso, claro, mas entenderás que há vidas e vidas, e que ninguém é igual a ninguém. Que há pessoas cuja idade é o que menos importa. E que uns 70’s no activo podem ser muito mais joviais que uns 50’s reformados (exemplo hipotético, este)... Ou não, porque também não é o "emprego" que faz um Homem, embora na sociedade de hoje tenha um peso imenso, mais em indivíduos com um reduzido leque de interesses e dimensões a explorar. E há depois pessoas que “não têm idade”! Ou seja: ter, tê-la-ão sempre, apenas que o seu nome, a sua presença, o seu interesse, a sua utilidade pública, a sua actualidade, o prazer que é tê-las bem próximas de nós, disso nos não permite lembrar senão de quando em vez (quando as fragilidades do envelhecimento - que é progressivo e variável - dão sinal de si e nos assustam).
António Coimbra de Matos, psiquiatra, pedopsiquiatra e psicanalista, docente universitário em actividade, pessoa de uma dotação, de uma sensibilidade e de uma inspiração indescritíveis, a par de um humor saudável e de uma nobreza que sem humildade não existe... Daquelas pessoas que não podem deixar de trabalhar porque nos fazem muita falta... Faz falta no auditório onde dá aulas, no gabinete onde orienta as teses, nos congressos onde informa, no escritório onde investiga, nos seus livros, de enorme brilhantismo pesagógico e literário, na esplanada do café onde conversa com os seus alunos sobre a matéria, nos jantares de turma onde é figura de destaque. Tem 77, mas só por acaso. Não é um “professor septuagenário”!...
Repara que não estamos aqui a falar de idade, António - ou calar-me-ia por não saber dela tanto quanto tu (ainda que a experiência da mesma nunca seja a mesma) - mas de conceitos, a que poderemos, ou não, ir beber, independentemente do que tenhamos escrito no BI.
As pessoas não são a idade que têm!. E, por vezes, para algumas, é desprestigiante serem vistas dessa forma, e não para além dela. And that's the point!
Foi nesse sentido que me expressei, mas nem sequer pensando nisto tudo que aqui e agora digo; antes brincando (e, claro, apenas porque abres generosamente a porta da tua casa à crítica, e me aturas).
Facto é que a tua passagem “Deus te oiça! Deus te oiça! – disse a quinquagenária” representa, no contexto, a fala de uma mulher que, por sua vez, é mãe daquela a que se dirige. Isso deveria bastar (e ser o mais importante) nessa personagem, dado que os 50’s dela per se nada nos acrescentam (é impossível dizerem-nos se se trata de uma pessoa “nova” ou “velha”).
Ou seja, ao aludires a ela como o fizeste, estás a atirá-la para uma categoria pobre (por comporação, por ex., com características de personalidade, de competência, até mesmo de apresentação, informações mais profíquas), assim como quando dizes: a loira, o baixote, a miúda, o gordo, em detrimento de outras características mais relevantes para o caso (quando as haja, claro).
Em suma: um adjectivo cumpre a sua missão: adjectiva. E adjectivar a pessoa com base na idade, a mon avis, empobrece o seu potencial.
Num relatório clínico, por exemplo, a idade cronológica do paciente é importante: “indivíduo caucasiano, 52 anos, traumatismo craneano, deu entrada há 2 horas inconsciente” - dá-me o desconto, acabei de ver o Dr. House!:-)
Já isto: “olha, apresento-te o meu pai: é sexagenário e chama-se João”, não me parece a abordagem mais interessante.
Por fim, sabemos que há diferenças entre falarmos de um homem ou de uma mulher na faixa dos 40 (por exemplo) ou chamarmos-lhes quarentão ou quarentona… E é nessas diferenças sensíveis de trato que reside o buzílis (é nas coisas sensíveis que estão os segredos, ou não é?). Enfim…
Mas isto tudo seria assunto para falarmos no teu blog, onde é suposto eu comentar as coisas que leio nos textos que tu lá deixas, e não no meu blog, onde é esperado que se comentem os textos que aqui estão, sem o que produzir ou não produzir seria perfeitamente indiferente, certo?
Não o sendo, não é também preocupação minha satisfazer expectativas de quantidade. Eis outro assunto de que falámos já na rectaguarda (a brincar, a brincar, já dissémos umas quantas!;-): tu criaste um blog para um público sem o qual não faria sentido; eu gosto de escrever por escrever, por vezes preciso, e se não escrevesse aqui continuaria a fazê-lo em papelinhos que depois se perderiam, um a um. Publico quando e enquanto puder e me sentir bem com isso, com a cadência que acontecer, à medida que as minhas obrigações mo forem permitindo (e já assim com tanto custo, a par do enorme gosto!). Não vejo no que o salário possa diminuir (bem sei que brincas, meu amigo, sei isso muito bem:-), a menos que me alimentasse do números. Contudo, no dia em que esse número reduzir, se eu puder continuar a contar com o interesse e a qualidade de alguns que tenho tido, ficarei tão ou mais satisfeita… Garantidamente! Ao fim e ao cabo, de quantas pessoas precisas para ser feliz, sabes?...
Abraço mui grande! :-)
disseste tanto em tão pouco, como o artesão esculpe na madeira rara o que o coração lhe dita... e as mãos executam - guiadas pela razão.
deixo o meu abraço fraterno.
Um grande e bom fim de semana para ti. Beijos
Baptista!, voltaste, Filho? [lol] :-)
Certo dia cheguei à tua Ilha e já estava "deserta". Felizmente não se perdeu o marinheiro, e conquistou nova Ilha que de novo nos conquista. Grata por me teres vindo buscar! ;-)
Sininho: obrigada, igualmente para ti! Fui hoje ao blog da tua amiga Gina.
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