terça-feira, janeiro 17, 2012

Não se usa


Acho um piadão (é a forma a contrario sensu de dizer que não acho piada nenhuma) a ouvir os empreiteiros alegarem que isto e aquilo já não se usa, que já não se faz porque já ninguém pede.
Estou a remodelar uma casa, e a maior fatia do prazer que retiro ao fazê-lo reside em poder respeitar alguns elementos originais que ela conserva. Sobre isso enalteço algum registo vintage que esta tenha herdado e carrego nos traços de rusticidade que me sejam possíveis. Porque sim.
Ora, o antigo e o rústico são, quase por definição, aquilo que “já não se usa”. Apesar de, por ironia, poder voltar a usar-se aquilo que não é de uso corrente, isto é, estar na moda o demodé de outrora. Assim o seja ou não, importa é aquilo que queremos, e não o que se usa ou não usa.
Piso em tijoleira encerada, como a minha avó materna tinha na sua casinha de aldeia e que durava toda uma vida?(*) Já não se usa. Ou em cimento queimado e alisado, que fica lindo e mesclado, e ao mesmo tempo simples e neutro, a dar com tudo? Também já não se usa. Caixilharia em madeira? Ui, isso é que não se usa mesmo; até porque a madeira incha, não permite um isolamento térmico de qualidade e carece de tratamentos de manutenção. Não se usa, mas se se usar, então fica ao dobro do preço das alternativas que o mercado tem hoje ao dispor. E é claro que móveis de cozinha feitos realmente à medida e realmente em madeira também não se usam. “São à medida”, mas as portas têm dimensões standard. “São em madeira”, mas não é por dentro; é só por fora, a capear. E, já agora, não lhes vamos colocar puxadores de metal que ganhem tons envelhecidos, porque também não se usam.
Tudo a brilhar é o que se quer. Os inoxes a brilhar (incluíndo o exaustor, porque também já não se usam chaminés), a placa vitrocerâmica ou de indução magnética a brilhar, e tudo a espelhar uma felicidade que dura só até lhe pormos as primeiras dedadas ou o primeiro risco, e o brilho se esvanecer sem solução. E está claro que uma bancada em mármore também já não se usa. Porque esse já não é como era, e parte-se facilmente; e porque agora todos o querem polidinho quase em espelho, sendo que elementos como o limão, o vinagre e alguns produtos de limpeza deixam manchas que já não saem. E porque existem à venda aglomerados de todas as cores possíveis e imaginárias (e a um preço impossível e inimaginável). Parecem-se assim com um pedaço de plástico, mas usam-se.
Para o diabo com o que não se usa! O que já não se usa é valorizar-se aquilo que é bom. É recorrer aos profissionais que sabiam o que faziam (e nós sabiamos a qualidade do que faziam). Não se usa saber! E é por isso que tudo o que vá um pouco além das remodelações padronizadas, apressadas e muitas vezes defeituosas de hoje em dia, é já estranho, aberrante e... Não se usa.
Lamento... Pois também não se usa ter um forno de pão a lenha, e eu calho a ter um. E paredes caiadas, como eu as quero. E árvores de fruto numa casa de cidade. E o vizinho do lado a dar-nos os bons dias porque não existe um muro a separar-nos os quintais. E já não se usa fazer torradas no bico do fogão. E chá com as ervas semeadas no canteiro. E café na cafeteira, e não na Nespresso. Quase mal se usa cozinhar sem ser na Bimby! Na verdade, já não se usa ter prazeres caseiros que nos afastem do sofá, do qual até já nem se usa levantarmo-nos para desligar a televisão, ou as luzes...
Já não se usa fazer coisas que, pelo bem que me sabem, não deixarei que caiam em desuso. O que se usa é aquilo que queremos que se use. Mesmo que por vezes tenhamos de desistir desse querer, pelo facto de não encontrarmos quem saiba fazer, bem feito, aquilo que já não se usa!

(*) A avó tinha também armários em alvenaria, com cortinas de pano... Coisas que já não fazem sentido, se queremos garantir alguma higiene, bem sei. Tinha também o penico debaixo da cama, um alguidar de plástico por lavatório e o candeeiro a petróleo como única iluminação. Ia ao poço buscar água, e ceifava a erva para dar de comer aos coelhos. E as galinhas entravam-lhe pela casa. E é tão bom ser-se criança podendo ter um pouco disso.

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terça-feira, janeiro 10, 2012

Uma forma simples de felicidade

Gosto de ler, pronto. E calho a sentir-me bem sempre que trago um russo debaixo do braço. Leia-se, uma obra de literatura russa; sobretudo dos séculos XVIII e XIX, a era dourada (Tolstoi, Dostoievski, Gogol, Turgueniev), mas também as ulteriores (Checov, Nabokov). Há algo na cultura daquele tempo e daquele espaço, das condições às relações sociais, cuja descrição me atrai. E é com enorme pena, quase a raiar o embaraço, que dou por mim a gostar tanto de obras que não posso ler no seu original, apenas se traduzidas. Valha-me a sorte de haver traduções de uma qualidade irrepreensível, autênticas pérolas literárias elas mesmas, e um prazer per se.
Kafka é uma excepção aos tais russos que trago debaixo do braço. E uma excepção, pelo principal motivo de que não é Russo, mas checo (a já extinta Checoslováquia viria a ser independente do império austro-húngaro tinha ele 35 anos), de língua materna alemã e religião judaica.
Com Kafka passamos para um outro registo, sobre o qual poderia discorrer em mais páginas do que aquelas que já li, sem com isso acrescentar senão meras impressões e emoções pessoais. Abster-me-ei então (*), ficando-me pela confissão de que adoro aquele angustiante traçado de impotência perante os factos e as situações; a dificuldade presente em cada passo dado na busca do que sempre foge; a (ir)realidade alucinada e absurda em que nos deixamos levar como se fora possível, para assim vivermos parte de uma frustração que Kafka efectivamente sentiria e que tão bem soube sublimar.
Por isso o repriso. A Metamorfose li-a por três vezes, a que acrescento mais uma incursão, em audiobook. O Processo bisei-o, mas sinto que está na hora de o revisitar. O Castelo comecei agora a relê-lo. E vem este post a propósito de me terem perguntado porque é que eu perco tempo a repetir leituras, ao invés de seguir em frente e conhecer coisas novas, apetecendo-me clarificar que:
- Não se repetem leituras. Podem repetir-se os livros, mas as leituras que deles fazemos são sempre diferentes. É a tal história da mesma água que não passa duas vezes sob a mesma ponte;
- Quem reincide na leitura de certas obras não deixa, lá por isso, de conhecer obras novas. O tempo permite um pouco de tudo, assim o saibamos apreciar;
- Seguir-se em frente, ainda que com um sentido confinado à cultura literária, é algo muito relativo. Será menos importante o conhecer-se a fundo, do que longitudinalmente? Cá está a velhinha dicotomia entre a quantidade e a qualidade! Conhecemos mesmo todos os livros que lemos? E o que é que ganhamos, em suma, a cada leitura que fazemos? Como é que se avança, afinal?...
Mas talvez que para se perceber melhor a ideia, eu possa tentar comparar os Homens aos livros.
É que não é todos os dias que nos vêm dizer “compreendo que o indivíduo com quem estás seja aquele de quem mais gostas, mas agora que já sabes como ele é, não deverias continuar com ele, mas sim alargar os horizontes e seguir a experimentar todos os outros”. Pois se esse já foi lido, para quê relê-lo?!
E o mais curioso é que deve haver tantos Homens (rogo atenção à maiúscula) quantos livros no mundo, contas feitas por alto...
Dir-me-ão que uma e outra coisa são diferentes, e que os valores isto e aquilo!?... Aceitarei. Mas que me aceitem algumas verdades que aqui partilho apenas pelo gosto de partilhar:
À repetição de um livro subjaz a garantia absoluta de que o estamos a fazer por vontade, e por nenhum outro motivo. Pressão alguma se exerce sobre nós no sentido de mantermos connosco um livro que já não nos satisfaz. E a qualquer momento que esse nos desencante, podemos, de imediato, pô-lo de lado, sem o risco de magoar os seus sentimentos.
Tudo fosse assim tão simples!
Posto isto, acreditem-me: quem está a repetir um livro é porque está feliz!

(*) Mas o que seria se pudéssemos colocar Kafka e Dostoievski a falar sobre o rendilhados persecutório e os fantasmas de culpabilidade que servem de pano de fundo a algumas das suas histórias? Um pouco como no filme "Meia Noite em Paris" (mas não em Paris), gostaria de poder ir lá atrás no tempo... E "lê-los" melhor!

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domingo, janeiro 08, 2012

Andante, andante..

Perímetro da Tapada. 16 quilómetros. Partida real às 9:45, chegada às 13:35, com paragem de 15 minutos a meio caminho. Fui para lá na dúvida se seria mesmo possível fazermos o percurso em quatro horas, e vim de lá convencida de que 3 horas e meia bastariam a um grupo habituado. Mas até que não foi nada um mau tempo. Apesar de o importante ser a magnífica forma como o tempo foi empregue. Já o outro tempo, aquele que se mede em graus, esse esteve fantástico (que falta fazia uma blusa de alsas, mas, enganada pelo mês em que estamos, essa não foi). De resto, o que é bom não se explica bem: a Tapada é linda, o grupo era óptimo, o convite foi muito gentil e estou toda partida. A repetir!

Desde Fevereiro de 2007