Não se usa

Acho um piadão (é a forma a contrario sensu de dizer que não acho piada nenhuma) a ouvir os empreiteiros alegarem que isto e aquilo já não se usa, que já não se faz porque já ninguém pede.
Estou a remodelar uma casa, e a maior fatia do prazer que retiro ao fazê-lo reside em poder respeitar alguns elementos originais que ela conserva. Sobre isso enalteço algum registo vintage que esta tenha herdado e carrego nos traços de rusticidade que me sejam possíveis. Porque sim.
Ora, o antigo e o rústico são, quase por definição, aquilo que “já não se usa”. Apesar de, por ironia, poder voltar a usar-se aquilo que não é de uso corrente, isto é, estar na moda o demodé de outrora. Assim o seja ou não, importa é aquilo que queremos, e não o que se usa ou não usa.
Piso em tijoleira encerada, como a minha avó materna tinha na sua casinha de aldeia e que durava toda uma vida?(*) Já não se usa. Ou em cimento queimado e alisado, que fica lindo e mesclado, e ao mesmo tempo simples e neutro, a dar com tudo? Também já não se usa. Caixilharia em madeira? Ui, isso é que não se usa mesmo; até porque a madeira incha, não permite um isolamento térmico de qualidade e carece de tratamentos de manutenção. Não se usa, mas se se usar, então fica ao dobro do preço das alternativas que o mercado tem hoje ao dispor. E é claro que móveis de cozinha feitos realmente à medida e realmente em madeira também não se usam. “São à medida”, mas as portas têm dimensões standard. “São em madeira”, mas não é por dentro; é só por fora, a capear. E, já agora, não lhes vamos colocar puxadores de metal que ganhem tons envelhecidos, porque também não se usam.
Tudo a brilhar é o que se quer. Os inoxes a brilhar (incluíndo o exaustor, porque também já não se usam chaminés), a placa vitrocerâmica ou de indução magnética a brilhar, e tudo a espelhar uma felicidade que dura só até lhe pormos as primeiras dedadas ou o primeiro risco, e o brilho se esvanecer sem solução. E está claro que uma bancada em mármore também já não se usa. Porque esse já não é como era, e parte-se facilmente; e porque agora todos o querem polidinho quase em espelho, sendo que elementos como o limão, o vinagre e alguns produtos de limpeza deixam manchas que já não saem. E porque existem à venda aglomerados de todas as cores possíveis e imaginárias (e a um preço impossível e inimaginável). Parecem-se assim com um pedaço de plástico, mas usam-se.
Para o diabo com o que não se usa! O que já não se usa é valorizar-se aquilo que é bom. É recorrer aos profissionais que sabiam o que faziam (e nós sabiamos a qualidade do que faziam). Não se usa saber! E é por isso que tudo o que vá um pouco além das remodelações padronizadas, apressadas e muitas vezes defeituosas de hoje em dia, é já estranho, aberrante e... Não se usa.
Lamento... Pois também não se usa ter um forno de pão a lenha, e eu calho a ter um. E paredes caiadas, como eu as quero. E árvores de fruto numa casa de cidade. E o vizinho do lado a dar-nos os bons dias porque não existe um muro a separar-nos os quintais. E já não se usa fazer torradas no bico do fogão. E chá com as ervas semeadas no canteiro. E café na cafeteira, e não na Nespresso. Quase mal se usa cozinhar sem ser na Bimby! Na verdade, já não se usa ter prazeres caseiros que nos afastem do sofá, do qual até já nem se usa levantarmo-nos para desligar a televisão, ou as luzes...
Já não se usa fazer coisas que, pelo bem que me sabem, não deixarei que caiam em desuso. O que se usa é aquilo que queremos que se use. Mesmo que por vezes tenhamos de desistir desse querer, pelo facto de não encontrarmos quem saiba fazer, bem feito, aquilo que já não se usa!
(*) A avó tinha também armários em alvenaria, com cortinas de pano... Coisas que já não fazem sentido, se queremos garantir alguma higiene, bem sei. Tinha também o penico debaixo da cama, um alguidar de plástico por lavatório e o candeeiro a petróleo como única iluminação. Ia ao poço buscar água, e ceifava a erva para dar de comer aos coelhos. E as galinhas entravam-lhe pela casa. E é tão bom ser-se criança podendo ter um pouco disso.
Etiquetas: Ando assim, contestatária...
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13 Comments:
Pois... :))
APC,
Gostei muito desse seu post. E do blog como um todo.
Seu post fez-me lembrar também de minha avó, a qual morou em um sítio na zona rural de Rio Claro. Não havia energia elétrica, o chão era de tijolos e quando ela o lavava ficava com um cheiro delicioso! Fogão a lenha, pão feito no forno de barro... Ah, que vontade de ser criança novamente!
Um abraço.
Augusto
www.asimplicidadedascoisas.wordpress.com
olá
o que não se usa é ir contra a nossa vontade.
nao é o fim do mundo que vc tenha sonhos e planos pra sua casa e um pedreiro/mestre de obras lheofereça a opcao atual, sem se importar que vc opta pelo simples e antigo?
aqui no Brasil o cimento queimado esta em alta,o rustico convive ao lado dosmoveis contemporaneos.
o que ta na moda é o seu gosto, independente do que lhe digam
siga suas vontades e seu canto será prazeiroso e com o seu jeito
bj
lilly
blog da reforma
Já não se usa mas é a competência e o interesse em servir o cliente e fazer bem feito. Tudo tem de ser standardizado.
Olá querida APC! Esta noite viajei por posts antigos do meu blog e descobri-te! Bateu saudade! Que é feito? ESpero que esteja tudo bem contigo! Li e gostei, como sempre, de te ler e rever... Beijo grande, Lu
Verdade, verdadinha. E mais fora ainda se eu chamasse a terreiro a minha avó, que nem sequer sabia o que era 'plástico', vê lá tu!...
abraço!
Obrigada pelo seu comentário no meu blogue.
Adorei este post, realmente o antigo já não é tão usado, mas ainda é usado. Se gosta do rústico, do antigo, da tijoleira encerada,do forno de lenha, etc. força deixe sua casa do geito que gosta, afinal é o cantinho onde recarregamos todas as energias para um novo dia, e deve ser da maneira que mais gostamos. não importa se já não se usa o que importa é que gostamos.
Como disse que gostou da minha casa, prometo que vou tentar divulgar mais promenores, para que se gostar lhe possam servir de inspiração. Beijocas Ticha
Uma delícia voltar a reler-te. Nem sabia que mantinhas este blog. O meu está praticamente posto de lado. Também cá em casa, a nossa empregada se ri da "tralha" que temos em casa. Como os teus empreiteiros, ela acha que nada disto se usa...mas entretanto umas pequenas coisas vão desaparecendo...Usa-se ou não?
Fui de um lado ao outro (à casa piquena...), com delícia. É bom saber coisas boas e bonitas: já basta de tanta inferioridade e miséria.
Um pequeno sonho, sem grades galvanizadas, acho que se tivesses um azulejo de "santinha" à porta o deixavas, enfeitado de heras e espanta-espíritos de conchas.
Como gosto de quem realiza sonhos que eu (tenho)gosto!
Boa sorte, do coração falando.
da bettips
Passei aqui a saber de ti e a dizer que se quisermos se usa sim...se antes se usavam os utensilios nas casas e serviam porque temos de mudar tudo. mania das modernices...
estes dias andei pela tua lisboa e lembrei-me de ti.
abraços de mar
Eu também gosto muito de coisas que já não se usam. Mas eu uso!
Uso o que quero e quando quero!
E uso lareira! E cafeteira! E iogurteira!
vidademulheraos40.blogspot.com
Olá, seja bem aparecida! Vamo-nos cruzando sem se notar? Sabes que já tinha estado "aqui" há tempos? e vi a mudança, as vistas, o jardim na cidade, a alegria "vintage" e, vê lá tu, tive sentimentos que até já não se usam: saudades. De quê? ah, não sei... e uma certa inveja de ver alguém que eu "conheço" a realizar um sonho em tempo útil.
Que aproveites!
Abraços da bettips
Há muito que aqui não vinha. Na verdade, só hoje li muitos dos comentários, que me fizeram saudades. Vim aqui porque perdemos o Guilherme Duarte, e apeteceu-me lembrar as suas palavras, triste por saber que outras não proferirá. Obrigada, Bettips, pelas tuas palavras de coração. Não sei de ti. Já não tens blog? Será que nos vamos cruzando pelos facebooks desta vida sem disso termos noção? Um beijinho!
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