terça-feira, maio 30, 2006

Semáforo

Cheguei a casa a pensar nos semáforos... E na forma como reagimos àquela alternância de cores que nos comanda quando andamos na estrada.
Se está verde, aí vamos, fast & furious por vezes, que a estrada é nossa, é só uma questão de focar o caminho e estar alerta para com os obstáculos; se calha a estar amarelo, sabemos que é de ter cautela, mas de resto pouco muda, assim como na praia a mesma cor na bandeira não intimida o bom nadador, apenas o principiante; quando está vermelho paramos - lá terá que ser, que assim manda a regra e não queremos problemas com a justiça. É claro que se der para acelerar quando o vermelho se prepara para cair, conseguimos passar já por cima dele, mesmo no risco, rés-vés-coisa-e-tal, não é bem vermelho mas alaranjado, já passou e não se fala mais nisso. E, ainda antes do verde aparecer, é já tempo de soltar o travão e dar a partida.
Quer isto dizer que não estivémos parados durante "um vermelho" inteiro; e se acaso o veículo até se comportou como se o tivéssemos estado, a nossa cabeça estava ocupada em não querer parar, em não querer estar parado, em querer recomeçar a marcha.
Eis o que de doentio se passa connosco perante uma opressão seguidamente à qual virá a permissão: mantemo-nos todo o tempo num registo expectante, a fazer lembrar um cachorrinho que abana freneticamente a causa assim que pressente que o carro onde é levado está prestes a estacionar, permitindo-lhe sair.
A alma do condutor vive semaforizada, cronometrada pela ditadura da cor, em repetidos picos de ansiedade vermelha, impaciente, frustrante, agressiva.
Estaremos a precisar alargar a nossa paleta, permitindo que as emoções se difundam e diluam num espectro cromático mais generoso?
Porque não, então, acrescentar-lhe, por exemplo, o rôxo?
Sim, o rôxo... É uma cor, não é? Poderia ser o azul, ou o castanho, se o primeiro não remetesse para o infinito e o segundo para a sujidade. Poderia ser outra qualquer, mas creio que o rôxo serve bem os nossos propósitos.
Posto que o verde simboliza liberdade e permissão, o amarelo precaução e vagar, e o vermelho perigo e proibido, o rôxo impor-
-se-ia como evocação do lúgrubre e símbolo de algo derradeiro como a morte, ao entrar para o código da estrada com a tradução de "Nem Pensar em Andar!!!".
Vejamos, então, a ordem da aparição semafórica: verde - amarelo - vermelho - rôxo - vermelho - verde, e por aí adiante...
Ou seja, depois de ter sido surpreendido com a imposição de parar, todo o condutor poderia permanecer sereno por uns quantos segundos, mas desta feita apenas para relaxar e reflectir um pouco sobre a vida, reconhecer-se a si e lembrar os outros, alheio à preparação do arranque, pois que a seguir ao rôxo viria ainda o vermelho, que o obrigaria a permanecer parado, contudo permitindo já que voltasse a pensar em conduzir.
Seria também durante o período rôxo que as senhoras aproveitariam para retocar o batom, e os mais rotinados enviariam a tal sms que tão só aguardava por um momento oportuno. Seria, acima de tudo, um intervalo no stress alienante, uma coisa assim tipo zen, permitindo um quê de transcendência, em que o condutor, enquanto tal, estaria "morto", e apenas o ser humano prevaleceria.
É verdade que tal alívio seria uma coisa imposta, mas também as férias laborais são hoje um descanso obrigatório e ninguém se parece chatear por isso.
Para finalizar, o incumprimento do sinal rôxo acarretaria uma pena sobremaneira pesada para o prevericador, uma vez que estaria em causa uma dupla transgressão: ter avançado, e ter pensado em avançar (crime premeditado, portanto;-)
É certo que também haveria quem arrancasse, não por ter pensado em fazê-lo, mas por não ter pensado que não o deveria fazer; ainda assim, pecaria por negligência dos valores basilares da filosofia do rôxo: pensar no ser, estar e ficar, no permanecer, viver e amar.
Paradoxo? "Párarôxo"!

Never

"If you don't know me by now,
you will never, never, never know me"
(Simply Red - If You Don't Know Me By Now)

segunda-feira, maio 29, 2006

Gone

"If you don't go where you wanna go,
when you do go, you'll find you've gone"
(Anthony Hopkins in The World’s Fastest Indian)

domingo, maio 28, 2006

Guns

Rock in Rio (seen on TV)
'Impossível evitar que a alma viajasse aos primeiros tempos de um tempo
Em que todos eram tão jovens...
Axl não é mais um rapazito magro de correrias loucas
Mas, apesar de tudo (de tanto), lá estava
... E cá estamos
still welcome to the jungle!
When I look into your eyes
I can see a love restrained
But darlin' when I hold you
Don't you know I feel the same
'Cause nothin' lasts forever
And we both know hearts can change
And it's hard to hold a candle
In the cold November rain


We've been through this auch a long, long time
Just tryin' to kill the pain
But lovers always come and lovers always go
And no one's really sure who's lettin' go today
Walking away


If we could take the time
To lay it on the line
I could rest my head
Just knowin' that you were mine
All mine
So if you want to love me
Then darlin' don't refrain
Or I'll just end up walkin'
In the cold November rain

I know it's hard to keep an open heart
When even friends seem out to harm you
But if you could heal a broken heart
Wouldn't time be out to charm you


And when your fears subside
And shadows still remain
I know that you can love me
When there's no one left to blame
So never mind the darkness
We still can find a way
'Cause nothin' lasts forever
Even cold November rain


(November Rain - Guns n'Roses... With Slash!)
"Everybody needs some time on their own"

sábado, maio 27, 2006

Sábado

Após uma manhã de intenso trabalho e num dia de sol abrasador, que bem que se esteve a beber a bica do almoço sob esta sombra fresca e com o trinar dos pássaros de fundo, no Parque da Saúde de Lisboa.

(Grupo de formandos dos sábados,
no seu penúltimo dia de formação. Faltam cinco deles aqui).

quinta-feira, maio 25, 2006

Um mês

O Camuflagens completa hoje
o seu primeiro mês de existência!!!

- Ora então, muitos parabéns!
- Obrigada, não era preciso ;-)

Saio de casa, apanho o comboio para Sete Rios... Distraída, vou parar a Entrecampos. Apanhar o metro para o Cais do Sodré e logo o autocarro para Santa Apolónia era uma hipótese, em vez dos habituais metro para os Restauradores e daí o autocarro. Mas contava reflectir e fruir do sol, calcorreando a pé este último percurso, e assim me decidi. Porém, distraída, apanhei a linha na direcção contrária, e lá tive que sair e trocar. Saio finalmente para a superfície, mas, distraída, dou por mim dentro da camioneta. Lá se foi o passeio pedestre! Por fim, distraída, deixo passar a paragem onde deveria sair e acabo por descer mais à frente. E a dúvida instalou-se-me: estará na altura de iniciar a medicação para a artereosclerose?

("Máquina de Fazer Leite" - MecenatoNet-AMI, Rua Augusta)

- O que é que tu queres? Nunca viste? Vai fotografar outra, pá!

De regresso (e o salto sobre os entretantos não é inocente), a capital fervilha de gente, ruído e cor... E um calor que faz suar as estoupinhas (alguém me sabe dizer o que são estoupinhas?).
Por entre a confusão de turistas, deambulam desvalidos e alguns profissionais do gamanço, para além dos simplesmente parvos (ó condutor do autocarro da Carris de matrícula 9259ZM, que passou pela Rua do Ouro pl'as 19 horas: o que o senhor disse ultrapassou os limites do foleiro!).
Escuto, de passagem [ler com sotaque, s.f.f] : - "Eu tambêm ténho uma vaquinha iguau a essa lá êm casa... Vou dá ela pró lêlão".
Eta, brasuca atrevido, nénão cara?

("A Vaca que Ri" - A Vaca que Ri, Rua Augusta)

- Olha lá, heim?... Tô dji olho em ocê!

Mas por falar no bom povo de terras de Vera Cruz, tenho a dizer que, na correspondência do metro do Jardim Zoológico com a estação de caminhos de ferro de Sete Rios, acabei às falas com um casal muito simpático que vendia - imaginem! - bouquets de rosas artesanais em plástico cristalizado.

Pois é... Nunca tal havia visto; mas a verdade é que gostei muito do que vi.
Sobre o negócio, apenas se confirmou o que já se sabe : o pessoal passa a correr, a bolsa tá rota, a altura do mês não aproveita a ninguém. Para piorar, não se prevêm ocasiões festivas para breve, sendo que a esperança reside agora na participação desta parelha de artífices na FIA - Feira Internacional do Artesanato que, para quem não sabe, decorre anualmente na FIL - é já em Junho, está quase! - e vale a pena visitar (para os menos adeptos, há sempre as boas paparocas, e eu recomendo vivamente o restaurante Açoreano).
Quando lá forem, não deixem, pois, de atentar nestes arranjos florais, que existem em quatro cores translúcidas: rosa, amarelo, azul e verde, cada qual com o seu aroma. Belíssimo trabalho criativo, que resulta em peças decorativas estéticas, originais e duradouras.
E uma boa ideia para presentear a mãe, a avó, a filha, a neta, a irmã, a amiga, a esposa, a namorada ou a outra, sem esquecer aquele amigo cuja sensiblidade é capaz de apreciar a peça e o gesto.

Para encomendas de rosas perfumadas e de madeira,
o contacto da D. Leid Mar (bonito nome!) é o 968663275.

Et, voilá, c'est tout! Pois sim, que até houve o que não escrevo, mas isso é um direito que me assiste. Acima de tudo, e seja lá isto o que for, "não há espiga" :-)

(Menino de Leste tenta vender os últimos raminhos alusivos ao Dia da Espiga,
na estação de comboios da Amadora)

Caminho para casa num contra-luz que cega.
E, olhando para dentro, ocorre-me que venho andando contra, sim.
Contra algo que não sei, mas sempre, sempre contra... Sempre contra.

Ou é isso, ou hoje estou do contra!

Doctor, doctor (House), give me the new
It's gotta be sometinhg I can do!

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Moises et Moi

Durante a sua caminhada, deparou-se Moisés com o Mar Vermelho. Mas eis que um vento forte, enviado por Deus, pôs a descoberto o fundo do mar, permitindo a travessia, e todos quantos o perseguiam acabaram engolidos pelas águas. (Ex 14, 21-22).
Também eu me deparei com uma missão. Também eu abri o mar em dois para que o pudéssemos transpor deixando submergir atrás de nós aqueles pequenos quês que teimamos em fazer grandes. Também eu, como Moisés, não chegaria à Terra Prometida.
Um mar imenso, profundo, assustador; de paralizado, pendente e sem vagas, cedeu ao tempo que chegou tarde, que esperou muito, que findou cedo; e, por falta de caminhantes, de novo se abateu sobre o caminho.

quarta-feira, maio 24, 2006

D'Ouro

"Roubei" um pouco de ouro e fiquei mais rica!

(Carlos Sampaio, in Glosa Crua, 21/01/2006 )

Bom Porto

Eis o Porto que encontrei,
cujo rio comove quem o percorre,
ou quem o vê apenas sendo,
tantas as histórias que tem.

Aqui, numa suavidade muito própria,
ao acordar para mais um dia;

e logo rendido à azáfama de uma cidade que é antiga e moderna,
que não pode parar.

(1984 e 2006 - http://fotos.afasoft.net/)

terça-feira, maio 23, 2006

Reencontro

Saio da Estação e percorro a calçada, exausta mas bonita, saudosa e aflita.
Respira-se Natal por toda a parte.
Ao longe, enfim, o Majestic.
Esperas-me lá dentro, porque te proibi de me vires buscar à rua… Previra que precisaria equilibrar o passo e serenar o coração antes de te encontrar. Não resultou.
Vejo-te, de fora, através da janela embaciada. Preciso voltar para trás, mas também preciso entrar.
Levantas-te e cumprimentamo-nos como bons velhos amigos... Então consigo descansar e quero o mesmo para ti. Sem culpa, exaltação ou pecado.
Bem sabemos que nas nossas palavras renovadas, agora aliviadas de uma carga mortal que ficou para trás a reforçar uma aliança, se escondem segredos que são nossos e ninguém sabe, e que cada um de nós guarda consigo os seus preferidos.
E isso põe-nos um sorriso nos lábios que nos embeleza; e preenche a alma daquele que nos compreende como nunca; que sempre compreendeu.
Alcanço as tuas mãos e seguro-as entre as minhas. Delicada e assumidamente. Há paz no ar. Pela primeira vez estamos em paz.
Como sempre, não sei se será este o último momento, mas nenhum de nós pensa nisso agora.
Contamos as coisas mais banais sobre nós próprios, com gosto, com graça, sem medos - de corromper expectativas, de ver o tempo fugir...
Podes falar-me do trabalho, da família, da saúde, de um filme que viste, daquilo que sentes. Podes ensinar-me coisas ou escutar-me apenas (há tanta coisa que nunca te disse!). Podemos ficar quietos e gozar o tanto que se espelha num olhar comum.
O café está delicioso.
Puxo de um cigarro e, pelas curvas de fumo, vejo um homem magnífico. Esse homem está a sorrir para mim. Porque está feliz na minha presença. É possível que nunca tenha deixado de o estar.
Vem de um passado longínquo, nada nele me pertence, e se volta agora a mim é apenas porque o sonhámos vezes sem conta.
Prende-nos uma amizade que é mágica, mas feita dos mesmos sonhos, e por isso real.
Existe alguém que nos conhece os sentidos se soltamos ou contemos a palavra... É essa a verdadeira alquimia que todos procuram!
E eis que o fim da tarde nos avisa que os nossos mundos nos esperam.
No regresso a casa, ao caminharmos sós, fazemos ainda de conta que o outro nos acompanha.
E só antes de entrar nos convencemos de que nos despedimos já... Orgulhosos e agradecidos, com a alma cheia e a cabeça erguida.

(APC, excerto de projecto literário pendente, Maio 2005)
Imagem: http://www.visionflow.net/travel/portugal/porto/day5/cafemajestic.jpg

segunda-feira, maio 22, 2006

Segredo

Na verdade, Cintra guardava uma confidência que, muito tempo antes de a termos tomado, cifrei para ti, deixando-te sentir-lhe o aroma sem lhe captares o traço:

“(...) Depois subimos a magnífica serra num coche, quedamo-nos a contemplar os raios de sol a invadirem, poderosos, uma neblina fiel e os fios de água a jorrarem da fonte genuína, vertendo sobre o lustro das pedras e seus recantos, e perdendo-se no mais profundo de uma terra fértil, que retribui com um espectáculo de êxtase: o arvoredo a sussurar, a folhagem a debater-se ao vento; o grito de uma ave que anuncia, feliz e exausta, a sua chegada...”.

(APC, excertos de projecto literário pendente, Agosto 2000)
Fonte de imagem:
people.netscape.com/ tcrowe/europe/sintra2.htm

sábado, maio 20, 2006

Camuflada

Eis, de novo, o meu olhar escondido dos olhares!

(APC , "Olhos camuflados" - pintado na adolescência)
(...)

E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos

Nada, senão o instante, me conhece
Minha mesma lembrança é nada
E quem sou e quem fui
São sonhos diferentes
Porque fui camuflada*


(Fernando Pessoa - "Vida"; * verso acrescentado por APC)

quinta-feira, maio 18, 2006

Promenade

I just love to do the walk... Of live!
1. E não resisti a mais uma bovina, já que esta veste a nossa bandeira e até vem aí o Mundial, e tal. Será este o gesto máximo de patriotismo que consigo conceder-me, quer-me bem parecer. E não volto à manada nem que a Vaca Tuga! :-)

("Portucow" - SIC, Rossio)

Já agora, e para esgotar o tema, parece que andam a faná-las no Campo Pequeno, eheheheh. Ai Portugal, Portugal!...

2. De volta o mercantilismo arcaico da troca directa: tirei-lhe uma foto, dei-lhe umas moedas; ele deu-me um chupa e eu dei-lhe um bacalhau.

É a sério... Este nórdico palhacinho-estátua deu-me mesmo um chupa (na nossa infância era "chupa-chupa", mas os imperativos da aceleração do tempo parecem ter simplificado a expressão). Ainda me ocorreu que tivesse algum estupefaciente misturado - e bem que eu estava a precisar de umas inspirações extra para a minha monografia! - mas era apenas glicose e aroma de limão :-(

A quem possa interessar, informo que um chupa-chups pode durar da R. Augusta até Stª Apolónia... Obviamente dependendo do passo e... da voracidade (no way!; I shell not let may blog to "descambate" ;-)

3. Arrival at Tabaco's Garden (que jardim não é), e desta vez não foi o imenso horizonte fluvial que me captou a atenção, mas - e como resistir à interpretação psicanalítica? - uma imagem de ruína e abandono (e vandalismo).

E sim, fui à aula de seminário. Roubando a um agradável (re)encontro (de ideias, de ideias!), mas fui.

O dia começara cedo: mais uma voltinha, mais uma viagem nesta labuta pedagógica, lançando mão a um novo grupo, ainda inocente ;-)

Dam, I'm tired!

[Luckly today's my dearest Dr. House day!]

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terça-feira, maio 16, 2006

Les Fleurs

[ainsi que les amours]
Que interessa se as semeiam,
ou se nascem por acaso?!...
(APC, "Ilha Mágica do Lido", Amadora, 13:00)

É gado, Senhor!

Cuidado, qu'elas andem
Ah, não!... Afinal é só uma vaca parada (cow parade).
("Magic Mushy",- Caran D'ache, Entrecampos - 08:30. )

segunda-feira, maio 15, 2006

Alentejo em flor

O nosso Alentejo é lindo!
E os amigos que o captaram com tal classe
e carinhosamente partilharam comigo estes instantes de beleza,
ainda mais! :-)
Fotos: Carlos Sampaio (Glosa Crua). Alqueva, 05/04/2006;
Ester Relvas. Alqueva fotografado de Monsaraz, 15/04/2006.

domingo, maio 14, 2006

Sem Sentido

Não me dizes nada
E eu nada sei
Sem esperar busquei-te
Rio adentro
Rio afora

De um lado lá estavas
Nas águas escuras
De uma noite branda
Do outro
Estavam luzes de inverno
De Lisboa amante
De um ritmo escaldante...
E tu!

Não me dizes nada
E eu sei tudo
Tudo das ondas que ouço
E me agitam
Que arranham a areia fria
Vazia de ti
Sei tudo de um sol que se pôs
Do lado esquerdo de mim

Pela frente, o que tenho?
Uma esperança, não mais
Já meia esperança, talvez
Para trás fica e permanece
Mais uma esperança vetada

Dita-me o mar estas frases
É Mar, o Rio, porque não?
Tudo o que eu quiser neste instante,
Ritmo atordoante
Que me sopra palavras
Não sei como ter-te
Nem como o saber

Estás longe, sinto
Ausentes as luzes
Do barco que torna
Presentes memórias
Que tornam também
Neste sentido que em mim
Não tem sentido nenhum

Cobria-me um xaile
E junto a ti errava
Pelas ruas
Os passos
Corriam toda a cidade

Despia o meu manto
E sobre ti caía
Sob a lua
Os corpos
Cruzavam-se em liberdade

Vens?...
Não me dizes nada
Nesta loucura
Ébria a cidade conquista
O êxtase de um mar vivido

Não sei como ter-te, enfim
E busco-te, não sei porquê
Tal como a noite, ‘o dia
E a luz, ‘as trevas
E o tempo de hoje, ‘o tempo perdido

Sequer te encontro nas rimas
Que nunca soube inventar
Navego enfim
Todo o sentido em mim
E tudo em mim sem sentido


(APC, Dezembro 1992)

sábado, maio 13, 2006

Em Formação

O caos na mesa, mas os espíritos orientados!
Momento raro de silêncio em sala!
É apenas o "primeiro dia do fim" para estes meus formandos;
e ei-los fortemente compenetrados na preparação das suas
Simulações Pedagógicas Finais.
Boa sorte! :-)

sexta-feira, maio 12, 2006

Primeiro Beijo

Quero o meu primeiro beijo
Não quero ficar impune
E dizer-te cara à cara
Muito mais é o que nos une
Que aquilo que nos separa
(Rui Veloso)

quinta-feira, maio 11, 2006

Esta Lisboa...

Revisitada por uma eterna turista,
em 25 minutos de brisa fresca e réstias de sol.


Terreiro do Paço, Rua Augusta, Praça do Rossio

(APC, 11/05/2006, 18:30, de Santa Apolónia aos Restauradores)

O Infinito...

... Fica para lá das amarras.

(APC, Cais do Jardim do Tabaco, 11/05/2006, 14:30)

Dói esta corda vibrante
A corda que o barco prende
à fria argola do cais
Se uma onda que a levante
vem logo outra que a distende
Não tem descanso jamais.

(António Gedeão - Vidro Côncavo, 2ªestrofe)

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quarta-feira, maio 10, 2006

Inverno

Passou o tempo do fugir da chuva, do vestir e despir dos agasalhos, do aconchego de uma lareira e do veludo de um vinho que invade uma conversa irrepetível e sem horas para acabar.
Tudo passou… Das luzes de Natal à ânsia de um novo ano, dos flocos de neve que cairam por magia, aos primeiros raios de sol a expulsarem o Inverno.
Passou-se. Andou-se em falso, bebeu-se em seco, escreveu-se em branco.
Uma nova estação desponta, mas um certo frio permanece, agora já fora de época.

(16/02/2006)
(Imagem: www.aparadadasbestas.com)

No Cais

I

Na sombra descida
De névoa encarnada
Tinha o triste gosto
De uma onda trespassada
De uma frota já perdida
De uma água navegada

Chorei
E amadrinhei o desgosto
Solidão,
A bombordo do meu peito
E a contravento
Vi a linhas do teu rosto

Amor
Foi vela rasgada outrora
Ao sabor de uma aurora
Condenada pl’o poente
E a gente que chegou
Jamais te trouxe!
Antes fosse
Eu, doada à maresia
Naquele dia, na enseada
Alma vazia, abandonada

II

Na sombra volvida
Da madrugada
Tinha o triste gosto
De uma vida perdida
Por outra vida perdida
No leito de um sol posto

Chorei
E aperfilhei este rancor
Solidão,
Estava à proa do meu peito
Que contrafeito
Largou ao mar gritos de dor

Amor...
Foi no mar que se perdeu
Quando a chama se apagou
Na candeia que jazeu
E a gente que chegou
Jamais de trouxe!
Quem dera
Que quem um dia se perdera
Fora eu.

(APC, 1999)
Imagem retirada da net.

Disse-te adeus e morri
e o cais vazio de ti
aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos
roubaram dos meus sentidos
a gaivota que tu és.

(Amália Rodrigues)

terça-feira, maio 09, 2006

Hoje

Hoje alucinei com a memória da tua voz dizendo coisas!
Hoje senti a falta de um contacto fora de horas; invasor!
Hoje quis levar-te para bem longe, esquecer e lembrar!
Hoje, meio adormecida, virei-me e o teu corpo seguiu-me, enlaçado num abraço.
... De uma forma muito própria, é essa presença que me desperta!

Naquele dia

Frio...
O frio que sentia
Naquele dia

E permanecia
Ao relento
Naquele momento
E via o inverno
Que viria
Naquele dia

Por dentro...
A errante lentidão
Condição de um mundo lento
Que o era... Naquele momento

Frio...
O frio que gelava o vento
Naquele momento

E o meu intento,
O de ficar fria
Naquele dia
E buscar o pensamento
Que fugia com o vento
Naquele momento

Por dentro...
A divagação, a vadiagem
Imagem desta vadia
Que o era... Naquele dia









(APC, "Frio" - Janeiro 1989)

domingo, maio 07, 2006

Este temor

(…)
Cuando te vi sabía que era cierto
este temor de hallarme descubierto
tú me desnudas con siete razones
me abres el pecho siempre que me colmas
de amores, de amores,
eternamente de amores
(…)

("Yolanda", Pablo Milanês; álbum: "A Hora do Lobo" - Luís Represas, 1998)

Dia da Mãe

... Porque ser Mãe é dividir a sua vida para sempre!

sábado, maio 06, 2006

Diz o meu nome

Perfeito... O meu nome na tua boca!
Onde estava ele, sem sair, sem ser dito, sem se ouvir?
Há quanto tempo aí estaria, de onde foi que ele surgiu?
O que é, como acontece?
(Como apetece!)
Diz o meu nome, uma e outra vez;
Revivo a cada instante em que me chamas.

sexta-feira, maio 05, 2006

Momento

(...)
Pedes-me o momento,
Agarras as palavras
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas
Levas a cidade
Solta no cabelo
Perdes-te comigo
Porque o mundo é o momento
(...)

("Momento", Pedro Abrunhosa)

Condenação

É sentir-te perto
E não poder ter
Mais que um deserto
Onde me perder
Ou caminhar em vão

(APC, 1988 - trecho)

quinta-feira, maio 04, 2006

Somos pelos Animais

E por isso eles fazem parte da família!
Em homenagem a esses companheiros incondicionais, eis o desafio:
1) Qual o animal doméstico que mais aprecias, e porquê?
2) O que nos contas sobre o teu animal de estimação?

Fonte de imagem: Certa, nº 69, 25 Abril a 7 Maio 2006, pág. 27.

quarta-feira, maio 03, 2006

Ode

Palavras que se calam para falar
Num silêncio musical que apetece
Uma dúvida abafada que se agita:
- Onde irá dar esse mar?...
Emoção que transtorna e transfigura
Essa pura timidez que acontece
Pedaços do melhor de cada um
Decerto que é juízo e não loucura!
Há segredos na penumbra sigilosa
Promessas privadas que se (a)guardam
Cartas que renascem se relidas
Imagens perseguidas, reinventadas
Culpas que se negam, que se extinguem
Por um sorriso que se quer ao infinito
Pelas magias que se querem resguardadas.
Espera que envolve, e revolve
Numa psicose de vida que não se resolve
É medo que dói e permanece
De um conhecido que se desconhece
Tanto “percebido... e recebido”...
Num hoje legado de um tempo perdido
Sinais que se cruzam no escuro
Crianças que brincam num tempo maduro
Luas de solidão que se abraçam
E novos sentidos se traçam
Olhares sufocam de ansiedade,
Focam um esboço de felicidade.
Um “tu” que desliza, traiçoeiro
Fica marcado a fogo (é o primeiro)
E o nome chamado para dentro da voz
E as outras pessoas? Nenhumas, só nós.
Há um “obrigado” que alguém confessa
Adeus, “até breve”, proferido à pressa
E o toque vital que desperta os dias
Que buscam um fim para a saudade
No vento da memória
No sem tempo de uma história
Em meia hora de eternidade.

(APC, 07/11/2006 - dedicado)

Instante

Irradia um sol primaveril!
Permito-me ficar um pouco a sós no pátio do lar, enquanto aguardo que os velhinhos terminem o seu almoço.
Lentamente, baloiço-me e especulo:
Será que quando chegar à idade deles me lembrarei deste momento de especulação?
Será que me acharei arrependida do que fiz... E do que não fiz?
Será que...?

terça-feira, maio 02, 2006

Angels (Lyric)

I sit and wait
does an angel contemplate my fate
and do they know
the places where we go
when we´re grey and old
'cos I´ve been told
that salvation lets their wings unfold
so when I’m lying in my bed
thoughts running through my head
and I feel that love is dead
I’m loving angels instead

and through it all she offers me protection
a lot of love and affection
whether I’m right or wrong
and down the waterfall
wherever it may take me
I know that life wont break me
when I come to call she wont forsake me
I’m loving angels instead


when I’m feeling weak
and my pain walks down a one way street
I look above
and I know I’ll always be blessed with love
and as the feeling grows
she breathes flesh to my bones
and when love is dead
I’m loving angels instead




(Robbie Williams)

segunda-feira, maio 01, 2006

O Anjo (uma história de natal fora do tempo)



Era dia de S. Martinho.
Como fora ali parar, com quem teria ela ido e a fazer o quê, pouco importa… O que é facto é que ela ali estava... Ella! E por toda a cidade se sentia já o aroma do natal.
Convenhamos que a época não era de grandes alegrias, mas um tipo faz o que pode para fingir um sorriso quando ele é preciso; sendo, porém, verdade que se não esquece de que é fingido o sorriso que faz.
Quando se achou sozinha, Ella terminou o seu café e saiu para a rua. Precisava de ar, precisava de espaço, precisava de tempo; um tempo para si, um espaço para se mover, uma dimensão para se reencontrar, esquecendo, por momentos, algumas coisas e lembrando outras que a rotina teimava em lhe não permitir (porque o manter de um sorriso figurado consome tanto!), mas que a todo o instante se agitavam, e agigantavam.
Andarilha, mãos nos bolsos, sentindo as ideias querendo formar-se, sem sucesso; emoções questionantes que não lhe permitiam participar da discussão. O passo cadenciado na calçada, contra a desordem pulsante dos sentidos.
Deu por si pasmada frente a uma montra confusional, miríade de objectos de todos os cantos do mundo, cada qual com seu mistério ou ilusão de autenticidade. Tanta era a tralha, que o espaço parecia ter sido tão ocupado quanto a sua alma, a fazer lembrar o sótão de alguém cuja vida foi extensa e fruída, grande em histórias e memórias, com muita coisa guardada, com muita coisa perdida…
Perdeu-se-lhe o olhar por entre ouro, castanho e velho…
Quando, de repente, algo o encontrou… E era um anjo!
Um anjo pequenino mas muito brilhante, que fazia por se revelar, decididamente; e que quase lhe falava. Para além disso, era portador de uma estrela; e uma estrela pode dar-nos tanto jeito se vagueamos sem norte!… Sobretudo, nunca se sabe ao certo o que acontece quando uma estrela nasce… E muito menos nas mãos de um anjo!
Para chegar até ele, havia que subir a rua mais um pouco, entrar a porta de um prédio antigo e virar à esquerda num nível intermédio entre o rés-do-chão e a cave. Assim fez.
Entrou e achou-se confortavelmente perdida, como uma criança entregue num mundo de brinquedos. Havia cestos e livros e flores; almofadas, estátuas e candeeiros; e velas e isto e aquilo e o mais…
Aconteceu, porém, que a senhora que a deveria atender se sentira subitamente indisposta. Acabara de tomar uns comprimidos “para os nervos”, que a deixaram aflitivamente agoniada e zonza, não se achando em condições de se erguer do banquinho em que se sentara. E logo agora que mandara a empregada fazer um recado!
Ella acercou-se-lhe, ofereceu-se para ir buscar uma água ou um chá ao café do lado, perguntou-lhe se sofria de problemas de tensão, se queria que chamasse alguém; e, como a tudo a resposta foi “não”, acabou sugerindo que se deixasse estar um pouco sossegada, garantindo-lhe companhia até não mais ser necessário.
Apenas minutos bastaram para que a lojista se sentisse de novo em forma, e Ella saiu, deixando atrás de si o momento, e o anjo, e a vontade (estranha vontade de ter e de dar…).
Sim, que voltou a apreciar o minúsculo ente, do lado de fora da montra, mas decerto não iria ceder a um devaneio, a um capricho. Iria?...
Ribombava há dias na sua cabeça a questão: para quê cedermos aos desejos, se isto é matá-los?... Mas por que lhes resistimos, se isso é matar-nos?
Foi já ao fim da rua que se deteve, como se algo lhe fizesse crer por certo que, às vezes, para se conseguir balanço para se seguir em frente, é preciso recuar-se uns passos.
Fazia tanto sentido naquele momento!...
Regressou. A loja estava agora mais composta de gente. A empregada chegara, entretanto, e bem assim um novo cliente, de momento dedicado a explorar alguns recantos daquele microcosmos de exotismo.
De imediato a senhora se levanta e, numa explosão festiva. exclama:
- Ainda bem que voltou! Estava mesmo a contar aqui à “não sei quantas”, que tinha por cá passado uma senhora tão simpática, tão querida, tão amorosa, tão “sei lá o quê”…
Ella sorriu, surpresa, e desconfiou que de dentro de si algo andava a emanar ternura, sem que o soubesse… Como se os outros pudessem perceber o “estado de graça” em que se vinha sentindo, sendo segredo.
- É, voltei… Voltei para levar um anjo.
- Um anjo para outro anjo, está a ver? – ensaiando a logista uma simpatia fácil.
Ella deve ter feito um ar atónito, porque o cavalheiro, que estava a ser atendido pela colaboradora mais nova, logo se prestou a esboçar um olhar risonho e alegadamente cúmplice, que procurava ser legitimado. Sem se permitir desviar a sua atenção para a figura que entrevia de soslaio, Ella descarta-se:
- Oh, anjo eu fosse… Não sou! – o que provocaria alguns risinhos de cortesia social, de entre os quais nitidamente se percebia um masculino.
E eis que a senhora prossegue nos seus elogios e mimos, acrescentando que ficou com imensa pena de a ter deixado sair sem a convidar para a festa de natal que os lojistas daquela rua haviam organizado para o dia 20 de Dezembro; sim, pois desde quando os melhores clientes são os mais antigos ou os que mais compram? Ah, não, isso é que era bom; o que conta não é nada isso, e patati, patatá…
E, dirigindo-se ao outro cliente:
- O senhor também está convidado, obviamente.
Ao que ele, bem apessoado nos seus cinquentas, qual Richard Geere de Olisipo, retribui alegremente:
- Sendo assim, tenho todo o prazer em convidar as senhoras para a noite da castanha, que se realiza hoje, ali ao lado, na Rua de S. José…
Ella agradeceu ambos os convites, que declinou, explicando que ali estava apenas de passagem. A logista manuseava cuidadosamente a peça de cristal.
- É professor? – ao que as pulsações de Ella se atrapalharam, confundindo-lhe a razão.
Desconfiando do que acabara de ouvir, arrisca:
- Como disse?
A logista repete, agora com mais clareza e num tom afirmativo:
- É pr’oferecer!?
Acabada de ser trazida a si, e muito pouco preparada para uma decisão daquelas (de qualquer tipo, aliás), dispôs de nanosegundos para se questionar: “Seria?... Será que poderia?... E será que deveria?”…
Mas a resposta a estas não chegaria antes da que se lhe escapou sem aviso:
- É sim, é para oferecer.
E estava assim formalizado (por quem, dentro dela?...) o estranho veredicto.
Dois dedos de conversa e mais uns quantos sorrisos, e lá se despediu, sob os votos de felicidades que a generosa logista lhe dedicava.
Ao virar costas bem raspou num certo olhar tentando uma tangente, e foi quando uma vozinha sacra, embora muda, (vinda quiçá do anjo que libertara) se impôs dentro de si, de uma forma tão inesperada quanto absoluta:
- “Xô! Mas é que nem penses!… Eu estou consagrada!”.
Ella saiu decidida a pedir contas a essa voz que só podia estar a querer brincar consigo; mas logo acabaria por se decidir a perdoar-lhe, e isso porque, na realidade, talvez fosse assim mesmo que se sentia: Consagrada!… E isso era novo. Era único. Era bom!
Seguiram… Ella, aquele anjo atrevido e uma certeza qualquer por dentro, que não tinha nome, não tinha nexo, tão pouco tinha de certeza afinal, mas que lhe era superior. Tão para lá do entendimento, só podia ser loucura. E se fosse? E se não fosse? E se fosse e devesse mesmo ser?...
O anjo, esse iria certamente chegar a boas mãos… A umas mãos que apenas conhecera fugazmente, mas cujos gestos teimava em recordar, quase os sentindo.
Em dias maus, iluminaria as trevas que se abatem sobre um homem quando pensa a sua vida, plena de esperanças e medos, conquistas e dores…
Dos dias bons, bastar-lhes-ia difundir o brilho.
Marco secreto de intimidade, naquele humilde ícone ia um passado recordado, a presença de alguém distante e a deliciosa incerteza do porvir, que apetecia saborear, devagar...
E aquela noção, ora mais serena, ora de novo inquieta (e sempre tão frágil!), de que um novo espaço e um tempo próprio se insurgiam cada vez mais… Cada vez mais cristalinos, cada vez mais consentidos.
Se era estranho!?… Ah sim, era tão estranho!...
Mas o natal tem destas coisas!
Ou seremos nós que trazemos o natal cá dentro, e esta estranha vontade de o viver?

Música: In the arms of an angel (Sarah Mclaughin).
Desde Fevereiro de 2007