Uma forma simples de felicidade
Gosto de ler, pronto. E calho a sentir-me bem sempre que trago um russo debaixo do braço. Leia-se, uma obra de literatura russa; sobretudo dos séculos XVIII e XIX, a era dourada (Tolstoi, Dostoievski, Gogol, Turgueniev), mas também as ulteriores (Tchekhov, Nabokov). Há algo na cultura daquele tempo e daquele espaço, das condições às relações sociais, cuja descrição me atrai. E é com enorme pena, quase a raiar o embaraço, que dou por mim a gostar tanto de obras que não posso ler no seu original, apenas se traduzidas. Valha-me a sorte de haver traduções de uma qualidade irrepreensível, autênticas pérolas literárias elas mesmas, e um prazer per se.
Kafka é uma excepção aos tais russos que trago debaixo do braço. E uma excepção, pelo principal motivo de que não é Russo, mas checo (a já extinta Checoslováquia viria a ser independente do império austro-húngaro tinha ele 35 anos), de língua materna alemã e religião judaica.
Com Kafka passamos para um outro registo, sobre o qual poderia discorrer em mais páginas do que aquelas que já li, sem com isso acrescentar senão meras impressões e emoções pessoais. Abster-me-ei então (*), ficando-me pela confissão de que adoro aquele angustiante traçado de impotência perante os factos e as situações; a dificuldade presente em cada passo dado na busca do que sempre foge; a (ir)realidade alucinada e absurda em que nos deixamos levar como se fora possível, para assim vivermos parte de uma frustração que Kafka efectivamente sentiria e que tão bem soube sublimar.
Por isso o repriso. A Metamorfose li-a por três vezes, a que acrescento mais uma incursão, em audiobook. O Processo bisei-o, mas sinto que está na hora de o revisitar. O Castelo comecei agora a relê-lo. E vem este post a propósito de me terem perguntado porque é que eu perco tempo a repetir leituras, ao invés de seguir em frente e conhecer coisas novas, apetecendo-me clarificar que:
- Não se repetem leituras. Podem repetir-se os livros, mas as leituras que deles fazemos são sempre diferentes. É a tal história da mesma água que não passa duas vezes sob a mesma ponte;
- Quem reincide na leitura de certas obras não deixa, lá por isso, de conhecer obras novas. O tempo permite um pouco de tudo, assim o saibamos apreciar;
- Seguir-se em frente, ainda que com um sentido confinado à cultura literária, é algo muito relativo. Será menos importante o conhecer-se a fundo, do que longitudinalmente? Cá está a velhinha dicotomia entre a quantidade e a qualidade! Conhecemos mesmo todos os livros que lemos? E o que é que ganhamos, em suma, a cada leitura que fazemos? Como é que se avança, afinal?...
Mas talvez que para se perceber melhor a ideia, eu possa tentar comparar os Homens aos livros.
É que não é todos os dias que nos vêm dizer “compreendo que o indivíduo com quem estás seja aquele de quem mais gostas, mas agora que já sabes como ele é, não deverias continuar com ele, mas sim alargar os horizontes e seguir a experimentar todos os outros”. Pois se esse já foi lido, para quê relê-lo?!
E o mais curioso é que deve haver tantos Homens (rogo atenção à maiúscula) quantos livros no mundo, contas feitas por alto...
Dir-me-ão que uma e outra coisa são diferentes, e que os valores isto e aquilo!?... Aceitarei. Mas que me aceitem algumas verdades que aqui partilho apenas pelo gosto de partilhar:
À repetição de um livro subjaz a garantia absoluta de que o estamos a fazer por vontade, e por nenhum outro motivo. Pressão alguma se exerce sobre nós no sentido de mantermos connosco um livro que já não nos satisfaz. E a qualquer momento que esse nos desencante, podemos, de imediato, pô-lo de lado, sem o risco de magoar os seus sentimentos.
Tudo fosse assim tão simples!
Posto isto, acreditem-me: quem está a repetir um livro é porque está feliz!
(*) Mas o que seria se pudéssemos colocar Kafka e Dostoievski a falar sobre o rendilhados persecutório e os fantasmas de culpabilidade que servem de pano de fundo a algumas das suas histórias? Um pouco como no filme "Meia Noite em Paris" (mas não em Paris), gostaria de poder ir lá atrás no tempo... E "lê-los" melhor!
Etiquetas: Ando assim, contestatária...
4 Comments:
Também gosto muito dos escritores russos que mencionaste. Gostei de aqui voltar e principalmente de te ver de regresso. Tudo de bom para ti.
Gosto de Kafka.
E adoro ler. Aliás, há que me considere - e talvez com razão - leitira compulsiva, rrss
Boa semana e feliz ano novo.
Sim,de acordo em quase tudo, excepto em:
Falta o Camus para fechar o trio com Kafka e Dostoievsky - para mim são "primos"
Nunca tinha visto a (re)leitura por esse lado. Mas, assim, inclinar-me-ia a trocar a forma e o tempo verbal: 'volta a estar'...
abraço!
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