sexta-feira, março 13, 2009

O fim


Não sei se é, não faço ideia, nunca o pensei, não quero saber. Estive entretida a viver fora de mim e dessas coisas todas que nos puseram na cabeça em pequeninos. Deste e do outro, assim e assado, por isto e aquilo, por tudo e por nada, por ninguém. Esqueci, mudei, fugi, nem sei. E lá longe (tão longe!), bem no coração do mundo, numa aurora austral que ligava a terra aos céus, creio que gritei p’la primeira vez ao ser parida. Senti o eco sob os pés sujos de terra, e os pássaros voaram num repente belo, e a gazela paralizou o passo até chegar o riso das crianças correndo na planície rumo a donde vinha o cheiro a pão de mandioca. Se tu soubesses!... A savana enfeitiça-nos de vida para todo o sempre até à morte. Só pode ser branca, a magia, que a outra é castigo que mata devagar. Não sei de nada. Nunca soube nada. Mas podes achar que acabou, se quiseres. Sim, deve ter sido o fim. Só eu não sei dizê-lo, que ainda agora nasci, e as palavras são tão inocentes e o horizonte tão longo, tão largo, tão tanto, que até o fim é nada.

(Imagem: APC, tratada por Tinta Permanente)

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19 Comments:

Blogger tinta permanente said...

Não sei em que tempo foi (se é que, aqui, alguma vez tempo houve de tempo...), mas sei que o sortilégio se repete, como se se tratasse de um grito mudo de vontade, incessantemente, à largura de cada olhar que abarca a enfeitiçada vermelha terra africana, o olhar atento da gazela, o riso das crianças ou o cheiro de pão de mandioca que a brisa traz de Nascente.
A todo o tamanho da minha memória eu sei-lhe o rosto a cada nostalgia: chama-se Madrugada!

março 13, 2009 11:10 da manhã  
Blogger cuotidiano said...

Desde o parto que este texto me enfeitiçou - se calhar porque ter sido escrito pela alma de uma feiticeira das emoções. Ah, e das palavras também.

Beijo

março 14, 2009 1:21 da manhã  
Blogger cuotidiano said...

Errata: "por ter sido escrito" e não "porque ter sido escrito".

No pior pano também cai a nódoa...

março 14, 2009 1:59 da manhã  
Blogger observatory said...

pois...

gostei dessa vontade de mudar

de canto

a vida so te oferece 4 :)

quatro :)





ps: na cx de verificaçao: czkliga. esse cz nao está por acaso foi magia de czar ou de K. ou de C. :)

março 14, 2009 10:06 da manhã  
Blogger observatory said...

outra muito bela "flobo"

março 14, 2009 10:07 da manhã  
Blogger Justine said...

Encantatório o teu texto, como o cheiro, o sabor e a cor do continente primordial, aquele que nunca sai de nós!

março 15, 2009 12:27 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Que hei-de dizer? Que fiquei encantado com o texto? É verdade. Ma ao mesmo tempo fiquei deprimido. Vi-me aui rodeado por pessoas de um nível intelectual fora do meu alcance. Não lhes chego, mas gosto de os observar...no caso, ler. Sempre vou aprendendo alguma coisa. Essa do "burro velho não aprense línguas", é treta. Claro que aprende...mas devagar. Um beijo minha amiga. Encataste-me uma vez mais. Mas isso também já não é novidade.

março 15, 2009 9:08 da tarde  
Blogger joão marinheiro said...

palavras inocentes? desde quando são as palavras inocentes? e um fim é sempre um principio de outra coisa qualquer...
beijo de mar

março 23, 2009 10:37 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Por momentos senti a savana... Só tu!
Beijo saudoso! Lu

março 23, 2009 11:22 da tarde  
Blogger magarça said...

O tempo passa e o que um dia parece o fim, transforma-se noutra coisa qualquer.. gostei muito do teu texto. bjs

março 29, 2009 6:52 da tarde  
Blogger bettips said...

Paridos dum tempo em que os nossos antepassados se espantaram, lá.
Vozes ainda errantes pela humidade dos verdes, pelo vigor dos vermelhos.

Deve ser uma magnitude. Um sonho.
De renascer na aurora do Mundo.
Bj

abril 09, 2009 12:03 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Não foi o fim pois não?

abril 10, 2009 3:05 da tarde  
Blogger Estranha pessoa esta said...

.......

abril 17, 2009 1:46 da manhã  
Blogger mateo said...

Também sei... que a amar se faz a terra de além mar.
Beijo... de surpreendido.

abril 20, 2009 7:23 da tarde  
Blogger Menina_marota said...

"...Só eu não sei dizê-lo, que ainda agora nasci, e as palavras são tão inocentes e o horizonte tão longo, tão largo, tão tanto, qu’até o fim é nada."

O fim é sempre o princípio de algo... e nesta palavras onde a tua alma se solta para lá da savana, elas não são inocentes, são inspiradoras de uma verdade que tu própria descobres no teu interior.

Gostei muito de te ler.

Beijinho ;)

abril 28, 2009 10:18 da manhã  
Blogger Estranha pessoa esta said...

............

maio 03, 2009 7:38 da tarde  
Blogger Madrigal said...

O fim é a morte física e, para alguns, nem mesmo esse acontecimento dita o fim. Anunciar o fim pode ser o prenúncio de uma recôndita vontade de regressar, um dia...

Beijo

Jorge

maio 07, 2009 7:33 da manhã  
Blogger Menina Marota said...

Deu-me as saudades de te ler e vim... dixo-te um abraço do tamanho da tua escrita: GRANDE!

novembro 25, 2009 5:49 da tarde  
Blogger Bia Pedrosa said...

uau! belas palavras para um novo início...

a fotografia não foi tirada do Hotel do Caro, foi do Castelo São Jorge. Mas, pelo visto, a paisagem em diferentes ângulos nos diz a mesma coisa: é preciso saber viver!

abraços!

fevereiro 12, 2010 9:07 da tarde  

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