quarta-feira, agosto 30, 2006

Reviver

À conversa com a minha mãe, que regressara de férias, reparo num novo objecto pousado em cima do fogão. Questionada sobre onde teria ela desencantado tal coisa, responde-me, algo envergonhada:
- “Tinham deitado fora…”
Paralisei de espanto! Por um instante-relâmpago, mil pensamentos me ocorreram em catadupa, velozes, atrozes, sem que os pudesse parar nem organizar... A minha mãe tinha trazido para casa algo que outros haviam destinado ao lixo!!!
De entre outras, a surpresa transportou-me para aquelas observações que nos faziam quando éramos pequenitos, sempre que a curiosidade nos tentava a apanharmos algo do chão:
- “Não faz isso, deita fora, é cocó!”
Porém, contive-me e nada disse, fazendo um esforço por lembrar que é o poder de escolher as nossas acções que faz dos humanos seres especiais, que não há por que troçar delas, que existem razões que a razão desconhece, que não devemos ceifar a vontade de ninguém, fazendo-a crer absurda, se de tudo temos um quê.
Mas o meu pensamento encalhara: a minha mãe, a quem jamais imaginaria a fazer tal; que nem sequer se apega às coisas tanto quanto eu, sendo ela a primeira a desfazer-se do que não presta (parece que a estou a ouvir, há uns anos atrás: - “Olha-me o estado desse casaco, rapariga! Eu tinha vergonha de andar com isso na rua!")…
Que diabo teria ela visto naquele bibelôt de talheres de pau dependurados, para, apesar de algum pejo, o ter recolhido e adoptado como seu, oferecendo-lhe um lugar de destaque?
Não lho perguntei, receando denunciar uma certa tonalidade crítica, e porque temos todos o direito de não querer ou de não saber traduzir por palavras as emoções que a cada momento nos movem.

Seria possível que a remetesse para a enorme cozinha onde passara a sua infância, local que a acolhia, à chegada da escola, com uma malga de sopa acabada de fazer pela sua mãe, cozinheira daquela casa senhorial, na Quinta do Pai Correia, hoje em ruínas?
Ou, quem sabe, lhe lembrasse os brinquedos de madeira de então, com os quais ensaiava papinhas sem poder adivinhar a verdadeira mestre de culinária em que se tornaria.
Talvez que apenas casasse bem com a tijoleira das paredes, ajudando ao aspecto rústico da cozinha, tornando-a mais acolhedora…
Fosse o que fosse, algo a fez sentir-se atraída por aquele objecto - cujo fim, de outra forma, estaria próximo - compelindo-a a integrá-lo na sua vida, dando-lhe uma nova oportunidade de existir, de perpetuar a sua condição de coisa real.
Não sei o que foi, como digo, mas comecei a gostar de sentir que, sob o seu olhar, nas suas mãos, aquilo que alguém desdenhara por ser velho e gasto, obsoleto e inútil, renascia agora, imbuído de novos sentidos e afectos.
Na verdade, o objecto seria o mesmo de sempre, feito da exacta matéria, inteiriço ainda e com a mesma utilidade de antes; nada mudara. Se envelhecera, fora apenas porque o brilho dos olhares que outrora o haviam escolhido se tornara opaco, e as mãos que antes o acolheram há muito lhe negavam o toque.

Somos, em parte, como os objectos… Depois de uma vida vivida, ainda que deixemos de fazer sentido na vida de alguns, ainda que nos retirem do lugar sagrado que nos ofereceram, e que o amor que recordamos como tendo sido único resida já numa espécie de arca de velharias ou no lixo da memória, há sempre uma nova vida possível, noutros olhares, noutras mãos… Noutras vidas!
Assim haja, pela vida fora - pelas vidas que ela permite - quem se nos encante, nos resgate e nos renove, devolvendo-nos aquilo que nunca deixámos de ser… Que nunca deixaremos de ser enquanto nos quiserem por nós mesmos, enquanto formos a peça que faltava no que queremos completar.
Até ao último momento, podemos fazer a diferença, ser mais estimados que nunca, ser mais feliz do que dantes...

Num segundo olhar, diria que aquele estranho objecto não ficava ali nada mal. Na verdade, deixara até de ser estranho.

terça-feira, agosto 29, 2006

Presente de Ícaro

Recebi um presente!!! :-)

domingo, agosto 27, 2006

Abismada

Talvez que do outro lado da superfície se não caia nos abismos,
mas se ascenda por eles. (Nov. 2005)

"Quem gosta de abismos tem que ter asas".
(Friedrich Nietzsche)

Ícaro

"Sou dado a sonhos altívolos.
Em meu nome, trago as asas de meus mais profundos desejos de liberdade.
Deslumbro-me com a claridade do sol e a altura do vôo.
Afogado na aspiração de ser alado como um deus,
sou pagão desde a origem dedálea de meu nome.
Sou afeiçoado a sons altíssonos.
Em mim, trago ambições cerzidas de intensas ânsias elevadas.
Descubro-me vário sob a luz lunar e o sublime êxtase de um acorde.
Acossado no desejo de ser como Orpheu,
sou aedo desde a origem labiríntica do que é meu.
Ícaro sou eu, homem feito das fibras intrincadas do desejo.
Recuso toda advertência que castra o vôo,
mesmo pagando com a morte a ousadia.
Digo isso porque há muitos tipos de mortes em vida,
muitos preços por ousar viver.
A vontade de potência no mais alto grau desejante jamais é lassa,
mesmo quando lhe grassa a lassidão.
E eu só vivo da vontade de potência.
Este sou eu: Ateu, epicureu, nunca filisteu.
Aedo alado, desejo flagrado e deflagrado.
Sim, este sou eu..."

Texto: "Perfil" de Ícaro Beranger (pedi autorização, porque vo-lo quis mostrar!) http://www.icaroberanger.blogger.com.br
Imagem: "Sonho de Ícaro" (35X50, lápis de cor), de Kenia De Angeli, artista plástica Paulista - http://www.artecult.com/keniadeangeli/Ilustracoes/sonhoicaro.jpg

sexta-feira, agosto 25, 2006

Teoremas

1º Caso

Um tinha X anos a mais que o outro.
Este, por seu lado, X a menos que aquele.
Diz a matemática que (+X) + (-X) = 0
E, de facto, contas feitas por ambos, quando juntos a diferença era nenhuma.
Ah, disciplina infalível!...

Postulado físico-quântico: quando os opostos se atraem, as diferenças anulam-se.

2º Caso

Na esplanada, dois amigos conversavam humoradamente, ao que um deles diz:
- Isto de andar com as duas anda a sair-me caro. Se ao menos as pudesse juntar, já me ficava mais em conta.
- Sempre poupavas um quarto – adere o outro, rindo.

E, agora que penso nisso:
Um quarto para três, daria um terço do quarto a cada um. Ora, um terço de um quarto é 1/12!
É não é que rende mesmo?!...

Formulação económica: Diz-se que “à dúzia é mais barato”, mas por algum motivo "três foi a conta que Deus fez"!


Post-scripta:

a) Que fique claro que o dinheiro não tem muita importância para mim! ;-)
b) Às vezes pergunto-me por que diabo segui eu a área das humanidades, com o sucesso que me seria esperado no mundo do cálculo ! ...
c) Diz-me a intuição, que estarei prestes a ouvir das boas, se uma certa senhora se lembrar de por aqui passar. Faço contas de que me dê um desconto.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Wonder if

"All of my life
Where have you been
I wonder if I'll ever see you again"

(Foto: à janela das traseiras, 24 Agosto, 04:45; "Again", Lenny Kravitz)

A Marte

Uma informação anónima a circular na internet criou o boato de que, durante o mês de Agosto, Marte seria o mais brilhante dos planetas no céu nocturno, podendo ser observado a olho nu, tão grande quanto uma lua cheia, no próximo dia 27, pela meia-noite e meia; um fenómeno que só voltaria a ocorrer em 2287.
O Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), explica, no entanto, que esta informação é falsa, adiantando que as aparições mais favoráveis do planeta são raras e que, mesmo nesses casos (como terá acontecido a 27 de Agosto de 2003), à vista desarmada este apresenta-se-nos como uma simples estrela.


1. Astronomia

De todos os planetas do sistema solar, Marte é o que mais se assemelha com a Terra, sendo difícil concluir qual é o irmão mais novo e o mais velho. Os seus dias têm uma duração muito próxima à dos nossos (24 horas e 37 minutos) e o seu período de translação (que perfaz o ano) equivale a 687 dias terrestres.
Através do envio de sondas espaciais, conhecemos-lhe hoje a superfície e a existência de água em estado sólido, o que tem alimentado a mítica especulação de que formas de vida primitiva poderão ter surgido. Em termos atmosféricos, é bastante diferente da terra, quer em composição, quer em temperatura.
De noite, Marte aparece como uma estrela vermelha, razão por que os antigos romanos lhe deram o nome do deus da guerra. Na Ásia chamam-lhe "Estrela de Fogo".

2. Mitologia

Os romanos atribuem a fundação de Roma a Rómulo e Remo, filhos de Marte.
A espada e o escudo que caracterizam este Deus da Guerra estão na origem do símbolo da masculinidade: ♂.
Dado o seu carácter viril e sensual, Marte está intimamente ligado à Primavera (daí chamar-se Março ao mês em que esta se inicia).
Na mitologia grega, ele é Ares, apaixonado por Afrodite (a Vénus romana), deusa da beleza e do amor, de cuja relação são frutos Phobos [medo] e Deimos [terror] - são esses os nomes das luas de Marte.

3. Astrologia

Aries, cujo planeta regente é Marte [Ares], é o primeiro signo do zodíaco, representando nascimento, consciência e recomeço. Governa a primeira casa: a casa do Ser. Porque o seu elemento é o Fogo, trata-se de um signo físico, interagindo com o mundo de maneira activa. Uma das suas melhores habilidades consiste em desafiar os limites do convencional.
Quem diria?...


http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1267593
1. http://pt.wikipedia.org/wiki/Marte (também fonte de imagem)
2. http://www.ciencia-cultura.com/Astronomia/marte01.html
3. http://www.astrology.com/allaboutyou/sunsigns/portuguese/aries.html

PS - Isto, no dia em que Plutão foi "despromovido".

quarta-feira, agosto 23, 2006

Quero dizer-te uma coisa simples:

a tua ausência dói-me.

(Nuno Júdice, in Pedro Lembrando Inês)

segunda-feira, agosto 21, 2006

Variações (em cor menor)

... Só para variar!

(Fotos já exibidas, excepto canto sup. esq.: 13 de Agosto, 07:15 - original oferecido a JC, a quem dediquei este nascer-do-sol, pela sua presença constante...)

sexta-feira, agosto 18, 2006

Etiquetas

Aviso à navegação:

A Sininho "etiquetou-me" (!?!). Digo já que não doeu nada, e para que me não acusem de falta de etiqueta, vou tentar corresponder ao desafio, apesar de nunca me ter imaginado em semelhante situação. Para isso, elenco 7 afirmações aleatórias sobre mim (porque 7 é um número mágico!) e passo o testemunho a outros 7 camaradas bloguistas. A lista de "acorrentados" (que é mais isso) segue no final. & Here I go:

1. Até ao fim dos meus dias terei que treinar a tolerância. Não tanto em relação à liberdade dos outros, mas à falta de tolerância dos outros para com ela. Sou para-etária, agnóstica e apátrida… Demais para caber em preconceitos, tabus, dogmas e ortodoxias fundamentalistas. Contudo, tenho fé nos valores intrínsecos do ser humano ("you may say I'm a dreamer...").

2. Sou complexa por dentro e simples por fora. Tantas são as “coisas grandes” que me não importam, como as “pequenas coisas” que me dizem muito (embora creia que sejamos todos um pouco assim, uns mais que outros).

3. Gostaria de viver perto do mar, por uns tempos... Onde pudesse escutar o uivo do vento e o latido das gaivotas, andar em frente sem estradas nem paredes, sentir o cheiro a torradas e café pela manhã, perder-me na bruma salgada de um dia frio com a alma quente. E escrever, escrever, escrever…
Meanwhile, seria assídua nas missões da AMI worldwide.

4. Considero a escrita afrodisíaca! A expressividade, lato sensu, em primeira instância – o que se diz, como se diz, o que se não diz, e logo os requintes literários a condizer. Um homem que não saiba dizer, nada me diz.

5. Aborrece-me que insistam no contacto: o telefonema não atendido que se repete várias vezes, o convite lembrado a toda a hora…! Tenho um lado solar extremamente dado, mas a minha lua mora sozinha, e gosta disso. E o momento é tudo! E a pessoa!

6. Envelhecem-me certas rotinas; gosto do que me transforme, transtorne, transborde. Sou intuitiva, sensitiva e impulsiva; não acalento rancores e perdoo tudo quanto que não haja tido má intenção, privilegiando a genuinidade: de actos, palavras, atitudes, vontades…

7. Sou noctívaga. Quando a noite avança, encontro o espaço perfeito entre cognição e emoção, o ponto exacto em que o devaneio oscila entre possíveis que não posso e impossíveis que prescruto. O sono desexiste e desiste; o sonho persiste. E quantas vezes não me esqueci já de dormir!...

And the nominees (only girls today) are:

1. Cláudia - http://nadaeaquiloquepareceser.blogspot.com/ (10 Set.)
2. Luísa e Jo -
http://ecosdotempo.blogs.sapo.pt/
3. Leonor -
http://leonoretta.blogspot.com/ (accomplished 25 Ago.)
4. M. -
http://notasazuis.blogspot.com/
5. Navel -
http://navel.blogspot.com/
6. Nes -
http://dalytria.blog.com/ (accomplished 23 Ago.)
7. Sofia -
http://folhasssoltas.blogspot.com/ (accomplished 7 Set.)

Ça y est! Resta-me pedir desculpa aos que gostaria de ter incluído e não incluí, bem como aos que, eventualmente, não gostariam de ter sido incluídos (porque é uma possibilidade, e aceitam-se trocas;-).

E deixo beijos com fartura, para compensar o tempo durante o qual este blog ficará em banho-maria!

Etiquetas:

quinta-feira, agosto 17, 2006

IV - Amanhãdeser

Onde o vento cala toda a voz do mar,
Num profundo rasgo incerto e derradeiro,
Solto a vida por quem quero navegar,
Guardo a chama que me leva o nevoeiro.





Te desenho num remoto pensamento
Aguarela nos meus sonhos colorida,
Vaga solta em rebelde movimento,
Vela amante deste rumo sem guarida.




(Fotos: 13 Agosto 2006, 08:00; "Poema para uma vela amante", Eduardo Filipe, Capas Negras - Grupo de Fados de Coimbra:
http://www.capasnegras.com/)

III - Momentos caninos


"- Oh, claro que é de confiança – disse a rapariga, afagando meigamente Mr. Bones no cocuruto da cabeça – Basta olhar para os olhos dele."

(13 de Agosto, 08:31; 6 de Agosto, 08:35 - foto de RP tirada a meu pedido.
Citação de "Timbuktu", Paul Auster, 1999.)

II - Mudança no Horizonte



Muda de vida, se tu não viveres satisfeito,
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar,
Muda de vida, não deves viver contrafeito,
Muda de vida, se há vida em ti a latejar.

(Foto: 5 Agosto 2006, 13:09; 13 Ago2006, 08:54;
"Muda de Vida"- letra de Antonio Variações, interpretada por Manuela Azevedo in "Humanos", 2004)

I - Monte dos Vendavais

Nova partida, novo regresso.
Se, uma semana antes, vim à frente da onda do calor, desta vez foi no embalo do primeiro aguaceiro, prenúncio de temporal.
Lá calhou!
Não que fugisse, que me não escuso às mudanças do tempo [e tu?]
... Viver a fugir é fugir a viver!

Na cabana, junto à praia,
Entre as dunas e os canaviais...

(Foto: 16 de Agosto 2006, 17:32; poema: "Na cabana junto à praia", José Cid, 1979)

terça-feira, agosto 08, 2006

8 - Último momento

- "Porque sim, porque tinha de ser!"
- Porque não, porque não pôde sê-lo!

Esta(*) fecha-se por dentro. Por fora não tem trinco ou fechadura.
Mas tem frinchas, e a sua cor alegre não disfarça a erosão sofrida.
Não se sabe se está trancada, se volta a abrir. Eu não quero saber.

(4 Agosto, 16:37)
(*) Vide post "Closed", 28 de Julho (ao CS, pelo seu comentário).

7 - Momentos avulsos


(4 de Agosto, 16:40 e 16:41; 5 de Agosto, 19:19; 3 de Agosto, 18:47, mesma praia)

6 - O momento

Porque não falámos das fragilidades, das impossibilidades e de outras verdades.
E porque ficam saudades.

(...)
Algo me diz, a cada vez que o sol nasce, se expande ou se põe:
mal empregado verão, mal empregado mar...!
E os sorrisos, as palavras, os silêncios que imaginei livres!...
(...)

("Saber a Mar", Agosto, 12:30)

5 - Momentos "caseiros"

Casinheiros? Casoteiros? Casinhoteiros?...

(1 de Agosto, 18:43; 18:44; 18:45)

4 - Momentos de aproximação


no espaço e no tempo (contudo...)

(5 de Agosto, 13:09; 16:41)

3 - Momentos convergentes

Dois locais de reflexão, dois dias, dois momentos do dia...

(6 de Agosto, 08:02; 2 de Agosto, 15:10; aos meus queridos JC e LC)

2 - Momentos no mercado

(4 Agosto, 11:35)

1 - Momentos de pescador

(1 de Agosto, 18:40)

segunda-feira, agosto 07, 2006

Há momentos...

... Em que temos de fazer qualquer coisa. Qualquer coisa que seja. Por vezes apenas para que esse movimento se distinga da inércia, para que o ruído combata o silêncio que nos consome, para que seja o que for nos acorde da letargia que se nos abate e nos desfigura.

Era um sábado igual aos outros. Vinte e três horas e trinta. 'A roupa do corpo, a tenda, uma mochila feita em 15 minutos com o biquini, a toalha, o protector solar e algum vazio mal arrumado... Coisa para dois dias. Segui!

Regresso, ao cabo de uma semana (preta, eu e as calças de ganga!), com alguns retalhos que aqui deixo, num conjunto de 8 pequenos posts sob o título colectivo de Momentos'. A Canon ficou em casa, mas o meu fiel telemóvel deu conta do serviço, apesar de não permitir imagens nocturnas, em contra-luz, com nevoeiro, em movimento...

Aqui vai!

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