Reviver
- “Tinham deitado fora…”
Paralisei de espanto! Por um instante-relâmpago, mil pensamentos me ocorreram em catadupa, velozes, atrozes, sem que os pudesse parar nem organizar... A minha mãe tinha trazido para casa algo que outros haviam destinado ao lixo!!!
De entre outras, a surpresa transportou-me para aquelas observações que nos faziam quando éramos pequenitos, sempre que a curiosidade nos tentava a apanharmos algo do chão:
- “Não faz isso, deita fora, é cocó!”
Porém, contive-me e nada disse, fazendo um esforço por lembrar que é o poder de escolher as nossas acções que faz dos humanos seres especiais, que não há por que troçar delas, que existem razões que a razão desconhece, que não devemos ceifar a vontade de ninguém, fazendo-a crer absurda, se de tudo temos um quê.
Mas o meu pensamento encalhara: a minha mãe, a quem jamais imaginaria a fazer tal; que nem sequer se apega às coisas tanto quanto eu, sendo ela a primeira a desfazer-se do que não presta (parece que a estou a ouvir, há uns anos atrás: - “Olha-me o estado desse casaco, rapariga! Eu tinha vergonha de andar com isso na rua!")…
Que diabo teria ela visto naquele bibelôt de talheres de pau dependurados, para, apesar de algum pejo, o ter recolhido e adoptado como seu, oferecendo-lhe um lugar de destaque?
Não lho perguntei, receando denunciar uma certa tonalidade crítica, e porque temos todos o direito de não querer ou de não saber traduzir por palavras as emoções que a cada momento nos movem.
Seria possível que a remetesse para a enorme cozinha onde passara a sua infância, local que a acolhia, à chegada da escola, com uma malga de sopa acabada de fazer pela sua mãe, cozinheira daquela casa senhorial, na Quinta do Pai Correia, hoje em ruínas?
Ou, quem sabe, lhe lembrasse os brinquedos de madeira de então, com os quais ensaiava papinhas sem poder adivinhar a verdadeira mestre de culinária em que se tornaria.
Talvez que apenas casasse bem com a tijoleira das paredes, ajudando ao aspecto rústico da cozinha, tornando-a mais acolhedora…
Fosse o que fosse, algo a fez sentir-se atraída por aquele objecto - cujo fim, de outra forma, estaria próximo - compelindo-a a integrá-lo na sua vida, dando-lhe uma nova oportunidade de existir, de perpetuar a sua condição de coisa real.
Não sei o que foi, como digo, mas comecei a gostar de sentir que, sob o seu olhar, nas suas mãos, aquilo que alguém desdenhara por ser velho e gasto, obsoleto e inútil, renascia agora, imbuído de novos sentidos e afectos.
Na verdade, o objecto seria o mesmo de sempre, feito da exacta matéria, inteiriço ainda e com a mesma utilidade de antes; nada mudara. Se envelhecera, fora apenas porque o brilho dos olhares que outrora o haviam escolhido se tornara opaco, e as mãos que antes o acolheram há muito lhe negavam o toque.
Somos, em parte, como os objectos… Depois de uma vida vivida, ainda que deixemos de fazer sentido na vida de alguns, ainda que nos retirem do lugar sagrado que nos ofereceram, e que o amor que recordamos como tendo sido único resida já numa espécie de arca de velharias ou no lixo da memória, há sempre uma nova vida possível, noutros olhares, noutras mãos… Noutras vidas!
Assim haja, pela vida fora - pelas vidas que ela permite - quem se nos encante, nos resgate e nos renove, devolvendo-nos aquilo que nunca deixámos de ser… Que nunca deixaremos de ser enquanto nos quiserem por nós mesmos, enquanto formos a peça que faltava no que queremos completar.
Até ao último momento, podemos fazer a diferença, ser mais estimados que nunca, ser mais feliz do que dantes...
Num segundo olhar, diria que aquele estranho objecto não ficava ali nada mal. Na verdade, deixara até de ser estranho.































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