terça-feira, julho 11, 2006

Recordando

“O homem é um animal narcísico”
(Professor António Coimbra de Matos)

Sob o “espectro outonal” , daquilo que poderia ter sido e não foi, e “o eterno provisório das coisas que servem sem satisfazer” (Agustina Bessa Luís, in "A Sibila"), policial, 43 anos, 3 casamentos, 2 filhos, Elvira chega-nos triste, perdida, desesperada...
Não sendo feliz, tem-se deixado levar ao sabor da corrente. Um caso amoroso por parte do actual marido foi o que abalou o equilíbrio precário, atirando-a para um vácuo algures entre o sentimento de culpa e o de inferioridade, a par de uma desconfiança letal.
A sua vinda é uma paragem para olhar para si, recobrar energias, repensar a vida, receber alguma luz sobre o que se lhe cega, desconstruir o apelo latente. Duas margens, em qual ficar? Relação ou solidão? Estabilidade material ou emocional?...

“Acomodoraria o melhor que pudesse a situação, como uma feia casa em ruínas que se repara aqui e ali, não sendo possível, por falta de dinheiro, construir uma nova". (Alberto Moravia, in "Os Indiferentes”, 1929).

Mas olhar-se não é fácil, se a "MÃE natureza" lhe não permite espelhar senão a falha narcísica que fez por esconder de si toda a vida, defendendo-se da depressão. Desconhecendo os afectos, não realiza a falta deles. E a vida é como um quadro parco em colorido, em emoções.

Por detrás do recurso à lógica, à coerência, às regras, está um indivíduo incapaz de ser ele próprio, que inventou uma carapaça para se proteger dos outros e de si mesmo, pois que os afectos são para ele demasiadamente invasivos. Para que os reconhecesse, teria que ter aprendido a saboreá-los, a desejá-los, a aluciná-los, e o seu “espaço de fantasia” encontra-se oco.
"Um corpo que não sonha é como uma casa desabitada - a ruína é o seu destino".
(Coimbra de Matos, in "Mais Amor, menos Doença", 2003).
Mas as defesas que ergue são frágeis, e sempre que um “cometa” ardente irrompe pela aridez do seu solo, existe sério risco de desfragmentação e psicose. De resto, essa ordem postiça com que tenta controlar o seu mundo condena-a a viver isolada e paralisada no movimento, em falta consigo e para com os outros, e a não mais receber o que desde o início lhe faltou. Por mais que tente saciar a sua sede, o obsessivo terá sempre a boca seca.

“Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada, mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza". (Gabriel García Márquez, in “Memória das minhas putas tristes”, 2005).

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["Elvira" (nome fictício) - Fundamentos sobre a Neurose Obsessiva. Primeiro caso de acompanhamento psicoterapêutico: introdução e encerramento da apresentação de supervisão de estágio. Novembro de 2004].

17 Comments:

Blogger Luisa said...

O que fazer para ajudar pessoas assim que parece já terem nascido desustruteradas? Quando um técnico toma conta (se o paciente o procura) dum caso destes, como levá-lo a seguir um equilíbrio que nunca teve? Este teu texto dá muito que pensar.

julho 11, 2006 5:11 da tarde  
Blogger Sininho said...

E ao ler este texto faz me lembrar alguma coisa, uma relação à muito deixada para trás... k arrepio, de como se anula, de como tb em casa tinha estava tudo tao alinhado e era compulsiva com coisas k nada de importante tinham... k arrepio, a lembrança é algo terrivel. E o equilibrio surgiu.... a muito custo, dando o grito do Ipiranga, mas foi dificil... k arrepio

julho 11, 2006 8:28 da tarde  
Blogger APC said...

1) Dá, não dá?... :-)
Às vezes - não sei se é por ter sido o primeiro (é sempre um carinho diferente), se por ser, exactamente, um falso-problema-simples - recordo-me disto.
E as tuas questões de retórica estão muito bem formuladas.
Tenho que começar por dizer que se tratava aqui de psicoterapia de apoio (aquela mais "normal" - nem por isso menos útil, claro), por oposição às de "setting" (que obrigam a uma panóplia contextual diferente), e por isso com as suas regras, potencialidades e limitações próprias (uma psicanálise - para dar um ex. que se vê muito nos filmes - seria outra onda, até porque essa incidiria na interpretação da dinâmicas inconscientes, por vezes reengenharia dos processos defensivos, etc. e tal). Outro parêntisis ainda, para esclarecer que não estamos perante um caso de patologia mental (outra conversa!).
Também senti que desde logo sentiste que as respostas não podem ser imediatistas e paradigmáticas. É bem verdade; mas no fundo, o princípio será o de tomar o pulso ao pedido latente (nem sempre o manifesto) do indivíduo, seu sofrimento e causas de desajuste (aqui, antes de mais, Elvira depara-se com uma crise, i.e., algo que se apresenta como superior aos seus recursos - pode acontecer a qualquer um, variando nas formas e consequências diferentes; depois temos o que concerne aos seus modelos próprios de funcionamento, a personalidade) e potenciar as suas estratégias de "coping" (adaptação), o que, dito assim não é de nada, mas na prática toma forma (evidentemente que é sempre variável, pois estamos a lidar com pessoas), passando em muito por uma "situação correctiva", que se dá na/pela relação/aliança terapêutica, baseada numa confiança incondicional.
Mas a resposta tem que vir de dentro do indivíduo (estamos a falar de pessoas com potencialidades), ou mais não seria que um mero "penso rápido", uma prótese com a qual jamais se identificaria, bem pior a emenda que o soneto (e tremendo atentado ético seria!). Logo, trata-se de levar o indivíduo ao encontro das suas reais necessidades e capacidades, um processo escorado pela escuta activa e o apoio reconstrutivo do psi, que se socorre de técnicas para fazer com que "aquele estranho com coisas estranhas" deixe de se sentir como tal e passe a a agir sobre si.
Para isso, esse vai movimentar-se entre o seu próprio espaço de análise e o campo psíquico do paciente, numa empatia que se quer o profunda - mas com regresso, ou seria a fusão (o descambar, lol).
Faz agora lembrar um pouco as crianças quando brincam e jogam: no momento em que "matam" o boneco, ele "morre mesmo"; pouco depois o mesmo boneco não só está "vivo", como nem é mais o mesmo, agora é outro :-) Ou seja, há como que um saudável vai-e-vai entre uma vivência alucinada (no caso, a realidade do paciente), e a outra, aquela que, com toda a margem de erro científica que por certo tem e terá, se convencionou chamar-se "normalidade" ;-)
Isto a gente a falar à mesa de um café, claro! :-)
Bigada & um beijinho!!!

2) Sininho: lembrei-te o pior, mas felizmente já bem lá atrás, né? E recorrendo a ti própria, foi isso? :-) Obrigada pela partilha, e toca a compensar!!! :-))) Jokas!

julho 11, 2006 8:56 da tarde  
Blogger Luisa said...

Este comentário é só para agradecer as belas palavras que deixaste no meu blog. Eu também sou doida por caminhos de ferro. Este apeadeiro não faço ideia onde será. Tirei-o da Net porque achei que ligava bem com a decrição da chegada do Jacinto. Podemos imaginar que é mesmo Tormes...

julho 11, 2006 10:13 da tarde  
Blogger Sininho said...

Lembrar eu lembro, mas com outra visão e para sair da situação foi só a mim k recorri, pk na altura eu tinha vergonha de me expor e a pessoa em causa movia muitos conhecimentos e era extremamente influente nesta aldeia grande k é Coimbra. Foi com o SONHO de um amanhã bem melhor k lutei para a "doença" sair. Era um caso muito complicado de obsessão pela minha pessoa, fikei isolada do mundo, só, e sózinha lutei, com muito medo, mas aki tou eu renovada e cheia de vida.

julho 11, 2006 11:44 da tarde  
Anonymous Nes said...

(...)"um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza" (...) - considerando a minha obssessão pela ordenação do pensamento e do sentimento, esta conclusão é preocupante...

O que vale é que a vida é, de acordo com a teoria do caos, um sistema subitamente desordenado por um simples bater de asas.
Profunda esta reflexão! :)

Beso

julho 12, 2006 12:55 da manhã  
Blogger APC said...

Sininho:
Pois muitos parabéns pela luta e pela vitória, e desejo-te as maiores felicidades sempre!

O fechamento em si, ao outro, é um fossilizar. Das mil e uma coisas que guardo do caso, lembro-me de Elvira me dizer que não percebia porque é que as pessoas viajavam, porque ficavam sem o dinheiro e, no fim, também “sem a viagem”. Ou seja, para ela a experiência emocional (de uma viagem, neste caso) não seria uma riqueza pessoal per se; num movimento defensivo inconsciente (cuja função seria a de evitar o sentimento de precaridade afectiva), não elaborou suficientemente as emoções, não desenvolveu um espaço mental capaz de as absorver e integrar, "não aprendeu a desejá-las", pelo que essas não lhe eram nutritivas à alma, quando não mesmo lhe eram incómodas. Racionalmente, Elvira percebia tratar-se de uma pessoa fria e rígida; emocionalmente não tinha como ser de outra forma. Eis um retrato de um ser humano preso em e por si mesmo. Não é raro!

Um grande abraço!:-)

Nezinha:
E se te sentes bem, como podes estar mal? :-)
E sim para a reflexão: profunda e livre, para quem se sinta livre em liberdade e não ameaçado pela falta de cordas. Podemos tentar prever o imprevisível, controlar o incontrolável, gerir o caos (porque não? podemos tentar tudo), só que... "A vida interfere"! ;-)

E, fora de paródias, é claro que precisamos categorizar, organizar e dar sentido às coisas. É inato, é necessário. "Só o excesso é demais".

Analyse this! Lol
& Take a kiss :-)

PS - É preciso deixar claro que nós somos feitos com pedacinhos vários, de tudo um pouco. Temos coisas de Elvira, de "Ambrósio" e de "Gerivásia" (!); e esses e outros terão coisas nossas que não as mesmas. E esses vários traços (depressivos, histriónicos, ansiosos, evitativos, etc.), quando em boa comunhão com os restantes, nada dizem de nós; apenas os mais preponderantes, e isso para o bem e/ou para o mal (sendo o "mal" quando nos limite em algo e isso nos afecte significativamente; excepção feita aos casos de patologia profunda, em que pode haver doença mental sem sofrimento).

Nada de pensar mais nisto, ok?:-)
O assunto ficou pesadote e meio chato, não? If so, please sorry me!***

julho 12, 2006 1:28 da manhã  
Blogger un cerdo a la izquierda said...

não percebi se a gaja tinha narcisismo em excesso se em falta...

julho 12, 2006 1:07 da tarde  
Anonymous Nes said...

Xiii!
Deste-me aquele nó que julgava que fosse exclusivo da minha mummy... posto isto, digo-te o que lhe costumo dizer: 'Tu e a Psicologia são almas gémeas'.

Mas, semeiam sempre qualquer coisa nova dentro de mim... e boa!

Beso

julho 12, 2006 9:10 da tarde  
Blogger APC said...

Oh, Cilinha (cerdinha do talatão!)!... Para já, para já... importar-te-ás de mostrar algum respeitinho pela personagem, sabendo que a ela corresponde, de facto, alguém, e substituir o termo "gaja" por um mais apropriadito, pf? Many thanks:-)

Pois vou dizer-te que o narcisismo a mais é sempre a menos.

CAPÍTULO I

Se o indivíduo “só se vê a si” e a si se adora, não tem em quem se espelhar nem como se reconhecer nas relações de afecto, ou seja, afoga-se no rio onde se admira, como no mito… E isso é de uma enorme pobreza, porque não gosta de ninguém e não é gostado por ninguém. “Mas como, se ele gosta é de si acima de quaisquer outros?”… Ora, porque esse seu “gostar” é um “querer gostar” que tenta tapar o sol com a peneira, disfarçar o anti-natura de não ser uma pessoa capaz de viver em relação, sendo essa o que lhe permite evoluir e nela que se poderá complementar. (o meu Prof. Filipe Sá, de quem me lembro sempre que preciso explicar algo complexo de forma simples, diria que se trata de um viver apenas masturbatório; e usava mesmo a expressão “paneleiragem narcísica”, dada a ideia de que “os outros só podem ser bons se forem como eu”).

Digamos que, como defesa, o indivíduo vai "convencer-se” (por vezes nem isso) de que se basta a si, por isso se sobrestima e vive de convencer os outros da sua supremacia. Isso é perverso e inútil, as mais das vezes (para além de uma pobreza psíquica tamanha), porque os outros não o vão invejar como ele pensa e deseja que o invejem (repara que é ele a projectar nos outros tais sentimentos, exactamente porque gostaria que o invejassem, e porque inveja quem seja como ele se quer convencer que é). Dá para entender?
Na realidade, não há, aliás, por que convencer ninguém (e muito menos impondo a razão e denegrindo o outro, o que é doentio), porque os outros gostarão ou não de determinado sujeito, consoante a ideia que eles próprios dele fazem; ideia que nasce e cresce em relação real ou num jogo de projecções relacionais, mas não por imposição de uma das partes.

Aliás, mais um tipo precisa de se impor, quanto menos por si for! (como diria o Professor Coimbra de Matos: “Só puxa dos galões quem não tem (…)” [os ditos, a rimar!]. E a "potência" de um indivíduo (a necessária e produtiva) fica tão longe da impotência como da prepotência, sendo certo que quem se exclui dos demais é porque não é capaz de lidar com eles, não está à sua altura, é demenos… Por isso resta-lhe fazer-se superior (tás a acompanhar? Queria evitar andar em círculos).

É claro que podemos sempre achar-nos melhores que os outros aqui e ali (óbvio, mal seria para a nossa auto-estima de assim não fosse), mas em tudo e em todos (e sendo esse o funcionamento típico de um indivíduo) já é suspeito. E é como viver com um inimigo velado, já que o admirador de si é apenas o próprio, esse que esconde um medo de não ser admirado pelos outros… Há aqui maleita, não te parece?
[E haveria tanto a dizer, a exemplificar isto e até a rectificar aqui e além, pequenas imprecisões que estarei a cometer de permeio…].

Logo, e para concluir, a alegada excessiva presença de narcisismo é uma defesa à carência do mesmo, right? Uma falsa presença; um engodo.

FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO :-)

julho 13, 2006 1:05 da manhã  
Blogger APC said...

CAPÍTULO II

Semelhante lógica de pensamento podemos ter em relação à “depressão vazia” (também “branca” ou “falhada”, dependendo dos autores), que não é uma depressão, mas uma ausência de depressão, quando o indivíduo, ao invés de ter perdido algo que teve: o amor do seu objecto (relacional) [por oposição ao luto, em perde o seu objecto de amor], vive perdido por não ter tido nada (e estamos a falar de afectos na fase mais precoce do seu desenvolvimento) e por isso não saber o que não teve. Refiro isto, porque, como calcularás, um vazio depressivo e um vazio que o ignora terão consequências e abordagens diferentes (mas isto é outra história). Ora, ainda nas palavras de CM, “ter rosto e ser único” constituem o binómio da futura resiliência do bebé”. Ou seja, desde os seus primeiríssimos dias (e bem antes; e.g. Lebovici e Sami Ali), numa fase ainda proto-mental (de não elaboração) ele vai-se “aprendendo” espelhado no rosto da sua mãe (ou principal figura prestadora de cuidados primários), não sendo à toa que os seus olhinhos comecem por captar imagens até cerca de 20 cm, a distância que vai do rosto ao colo desse seu “espelho” de eleição… De relação; que absorve, descodifica e lhe devolve uma miríade de emoções; subtis mensagens que lhe vão mostrando que ele existe como ser independente e com o seu espaço no mundo (o “baby-talk” que os adultos produzem para falar para o bebé e pelo bebé são outra via para o mesmo), e que lhe irão permitir, a pouco e pouco, “ver-se”, reconhecer sensações, início da elaboração emocional. A falha desta etapa apriorística condenará as vindouras, o sentimento de si, a consciência de que pode existir nos outros e vice-versa, a noção da separação (as separações e as individuações próprias do desenvolvimento vão falir, o abandono é original, entramos em auto-gestão).

A fase de identificação que se segue a esta, é chamada secundária e tem que ver com a validação da imagem sexuada. É commumente atribuída ao pai, que deverá reconhecer a virilidade do filho, o encanto da filha, e também as suas potencialidades enquanto homem e mulher em progresso. Por fim, completa-nos a identificação, o relacionamento com terceiros.
Ora, o que teve Elvira? Um mãe depressiva, agredida pelo marido; um pai desafectado e autoritário, que nunca a admirou ou protegeu, que foi compincha do marido da filha, também ele agressor; essa mãe, com quem mais tarde partilhou queixas, morre-lhe precocemente com um cancro; dos seus relacionamentos amorosos não guarda boas recordações; amigo/as não tem; aos filhos orgulha-se de não ter faltado com nada, mas educou-os com distanciamento e sem qualquer cumplicidade.

E que melhor forma, para te defenderes de um mundo “sem afectos” (se a eles cegaste), senão a de te inventares como te queres e mostrares que não gostas de ninguém, não porque não consigas (ou porque não gostam de ti), mas porque os outros não merecem que gostes (e não o inverso)? E aí é “fácil”: “basta” seres o must da capacidade, da razão, do poder, da autoridade, da impecabilidade, do cumprimento, enfim, das aparências, o mais que possas e com recurso ao que estiver à mão (status, educação, bens materiais, verdadeiros ou forjados, vale tudo… E, no fundo, não vale nada).

Por fim, é claro que o post diz muito pouco sobre a Elvira (publiquei apenas o preâmbulo e o términus de uma apresentação - daí permitir-me um certo lirismo nas palavras - e não as centenas de páginas que narravam e discutiam o caso (e que incluíam consultas, consubstanciação teórica, supervisões, etc.), pois pretendia apenas lançar um convite à imaginação; mas a verdade é que a paciente reproduzia, sistematicamente, os padrões de autoridade que estiveram na origem do seu problema (e “há coincidências”: primeiramente casada com um polícia, mais tarde ela própria policial, casa com um militar, tem um filho a estudar para padre…).

Elvira vive o pesado karma de uma dívida afectiva, sendo vítima e agente sem saber.
De alguma forma sintomático é o seu discurso relativamente ao affair que o marido teve com outra mulher: - “Não consigo perceber porque é que ele o fez… Eu dava-lhe tudo!”. Antes de mais, o “tudo” em Elvira correspondia ao apoio financeiro, ao cumprimento das tarefas domésticas e a alguma frequência de sexo funcional. Mas apesar disso, é certo que ninguém poderá dar tudo a ninguém; e que cada um de nós sente coisas que o outro não traduz a cada momento. Mas Elvira não sente isso; ela não elabora os sentimentos; não comunica por via das emoções; não é afecto o capital que partilha, mas os seus substitutos terrenos, materiais, palpáveis, visíveis.

Daí esta imagem: Elvira ergueu o mais belo dos palácios, mas, vazio como sempre o foi, facilmente ele abre frechas. E digamos que não lhe acontece pouco: constata um engano (choque cognitivo), conclui-se preterida (inferioridade), coloca em causa o que poderia ter feito (culpa, arrependimento), perspectiva-se só e sem apoio (desespero) e perde o seu manto de aparência.
Elvira estava tão nua como nasceu! E teria que renascer.

FIM

Love ya!:-)

julho 13, 2006 1:06 da manhã  
Blogger APC said...

Biste, Nes? Podia ser pior... Podia ser um não ata nem desata, lol
Deixa lá, que quando o caso é comigo também dá nó! :-)
Besitox!
(Tu madre tambien psica?)

julho 13, 2006 1:07 da manhã  
Anonymous Nes said...

Eh pá... gostamos de nós difíceis de desatar...!

Si! Me madre também é psica (ISPA-Beja)... a eterna discussão, eu e os números, ela e as mentes... enfim, conversas loucas.

Beso

julho 13, 2006 9:33 da tarde  
Anonymous janicas said...

Percamo-nos na infinitude da destruturação, da palavra complicada no discurso aflito das palavras que nos atormentam. Azuis da cor do nada......

julho 14, 2006 12:30 da manhã  
Anonymous jo said...

O pintor da árvore azul agradece o teu comentário. Ontem tinha deixado um comentário, mas pelos visto não foi recebido.
Fica bem

julho 14, 2006 2:29 da tarde  
Blogger APC said...

Lol, Jo! Obrigada pela tua visita.
És, então, Jo e Janicas, alternadamente? ;-) Afinal o teu comentário anterior não foi perdido, estava era escondido no rol de outros para publicação. Aí está ele já, no sítio certo:-)
Bigada e um abraço!

julho 14, 2006 7:28 da tarde  
Blogger APC said...

"Só há uma doença do narcisísmo - a insuficiência narcísica. A exaltação narcísea é uma compensação do sentimento de inferioridade. Só é megalómano o que padece, ainda que inconscientemente, de micromania. Assim como só se exibe o que se julga não possuir."

(Coimbra de Matos, in Revista Portuguesa de Psicanálise, nº. 16, 1997)

julho 22, 2008 8:06 da tarde  

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