Ama, do verbo amar
África. Tempos de guerra. Uma casa à beira-mato. Assim nascia eu, daquela forma despretensiosa que toda a gente tem de nascer e que nos torna tão iguais.
Não era grande, aquela casa, mas chegava para todos nós: eu, os meus pais, o mainato e a Umbelina, a minha ama. E, ao longo do dia, todos aqueles que lá entravam, por uma das duas portas, sempre abertas, ligadas pelo corredor de cimento polido que – tão fresquinho! – eu corria a gatinhar.
Torrava, o sol. Eu e os meninos sentavamo-nos no alpendre, fraldas a roçar o chão, muito atentos ao carreiro de formigas-de-asa que passava encostadinho ao degrau. E, tendo aprendido uns com os outros, cada qual de nós lançava os deditos aos insectos que, um a um, íamos pondo à boca, saboreando o curioso condimento.
Às vezes os pais chegavam e eu estava ali. Outras vezes não, por isso iam a procurar pela menina. E então o mainato quase dava um pulo e, muito aflito, dizia: - Xi, patrão, ela tava agora lá! E tudo entrava num estranho rebuliço, feito de passos apressados de um lado para outro e de palavras que deviam ser para me chamar. Eu cá não queria largar o conforto daquele cantinho, sob a cama dos papás, onde me entretinha a roer chinelas ou as botas da tropa. Mas a Bina lá me encontrava.
Por vezes não havia sol, mas chuva. Tanta chuva, que parecia fumo. Uma chuva forte, rápida, pesada, que atirava para cima do telhado quase todos os frutos da grande mangueira que se erguia sobre a casa. Chuva que surgia e logo se ia embora, deixando um travo a terra molhada que nos desentupia as entranhas.
Lembro-me de não ter medo, porque me diziam para não ter. E de o sono não chegar até que a Bina me embalasse com uma canção em bantu.
É... “Ama” é palavra que passa a verbo se conjugada com amor!
A Bina era o colinho. E as papas, e as ternuras. E o olhar que eu olhava, e a melodia do coração no peito onde eu dormia. Achavam graça quando ela, passeando-me à cintura, ajeitava a capulana, levantava um pouco a minha fralda e revelava as nossas ancas como que exibindo troféus: a minha mancha mongólica – sombra tingindo a pele clara - e a sua - escura, na pele escura - em tudo o mais iguaizinhas, como duas luas cheias perfeitas... Ou como que uma só.
É a razão porque nos lembro ao olhar o firmamento: uma pequena lua branca crescendo ao colo de um céu infinitamente negro. E é quando quase (quase, quase...) escuto aquela primeiríssima canção de amor...
Esta noite, da janela deste meu mundo branco-manicomial, procurei-nos. E depois saltei. E corri muito...
E lá longe, bem no coração do mundo, numa aurora austral que ligava a terra aos céus, creio que gritei pela primeira vez ao ser parida. E senti o eco sob os pés sujos de terra. E os pássaros voaram num repente belo. E a gazela paralizou o passo até chegar o riso das crianças, correndo na planície rumo a donde vinha o cheiro a pão de mandioca.
Bina, se tu soubesses!... A savana enfeitiça-nos de vida para todo o sempre até à morte. Como um feitiço da lua... Magia branca da terra negra da gente.
Não sei de ti. Quantas vezes não sei de mim. E hoje não sei de nada, que ainda agora nasci, e as palavras são tão inocentes quanto a canção que me embala.
Não era grande, aquela casa, mas chegava para todos nós: eu, os meus pais, o mainato e a Umbelina, a minha ama. E, ao longo do dia, todos aqueles que lá entravam, por uma das duas portas, sempre abertas, ligadas pelo corredor de cimento polido que – tão fresquinho! – eu corria a gatinhar.
Torrava, o sol. Eu e os meninos sentavamo-nos no alpendre, fraldas a roçar o chão, muito atentos ao carreiro de formigas-de-asa que passava encostadinho ao degrau. E, tendo aprendido uns com os outros, cada qual de nós lançava os deditos aos insectos que, um a um, íamos pondo à boca, saboreando o curioso condimento.
Às vezes os pais chegavam e eu estava ali. Outras vezes não, por isso iam a procurar pela menina. E então o mainato quase dava um pulo e, muito aflito, dizia: - Xi, patrão, ela tava agora lá! E tudo entrava num estranho rebuliço, feito de passos apressados de um lado para outro e de palavras que deviam ser para me chamar. Eu cá não queria largar o conforto daquele cantinho, sob a cama dos papás, onde me entretinha a roer chinelas ou as botas da tropa. Mas a Bina lá me encontrava.
Por vezes não havia sol, mas chuva. Tanta chuva, que parecia fumo. Uma chuva forte, rápida, pesada, que atirava para cima do telhado quase todos os frutos da grande mangueira que se erguia sobre a casa. Chuva que surgia e logo se ia embora, deixando um travo a terra molhada que nos desentupia as entranhas.
Lembro-me de não ter medo, porque me diziam para não ter. E de o sono não chegar até que a Bina me embalasse com uma canção em bantu.
É... “Ama” é palavra que passa a verbo se conjugada com amor!
A Bina era o colinho. E as papas, e as ternuras. E o olhar que eu olhava, e a melodia do coração no peito onde eu dormia. Achavam graça quando ela, passeando-me à cintura, ajeitava a capulana, levantava um pouco a minha fralda e revelava as nossas ancas como que exibindo troféus: a minha mancha mongólica – sombra tingindo a pele clara - e a sua - escura, na pele escura - em tudo o mais iguaizinhas, como duas luas cheias perfeitas... Ou como que uma só.
É a razão porque nos lembro ao olhar o firmamento: uma pequena lua branca crescendo ao colo de um céu infinitamente negro. E é quando quase (quase, quase...) escuto aquela primeiríssima canção de amor...
Esta noite, da janela deste meu mundo branco-manicomial, procurei-nos. E depois saltei. E corri muito...
E lá longe, bem no coração do mundo, numa aurora austral que ligava a terra aos céus, creio que gritei pela primeira vez ao ser parida. E senti o eco sob os pés sujos de terra. E os pássaros voaram num repente belo. E a gazela paralizou o passo até chegar o riso das crianças, correndo na planície rumo a donde vinha o cheiro a pão de mandioca.
Bina, se tu soubesses!... A savana enfeitiça-nos de vida para todo o sempre até à morte. Como um feitiço da lua... Magia branca da terra negra da gente.
Não sei de ti. Quantas vezes não sei de mim. E hoje não sei de nada, que ainda agora nasci, e as palavras são tão inocentes quanto a canção que me embala.

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