O Pai-Natal & a Coca-Cola - II Parte
O PAI NATAL DE HOJE
A personagem do Pai Natal é, pois, inspirada em São Nicolau. Contudo, não havendo uma descrição física fidedigna desse Santo, os traços característicos do nosso Pai Natal de hoje tiveram necessariamente origem diferente.
Na verdade, ele já se apresentou de várias formas (a fumar um cachimbo de barro, a beber vinho...) e vestiu diversos modelos (desde o castanho-serapilheira dos frades, a cores mais garridas; na cabeça usava ora um barrete, ora uma coroa de azevinho).
A personagem do Pai Natal é, pois, inspirada em São Nicolau. Contudo, não havendo uma descrição física fidedigna desse Santo, os traços característicos do nosso Pai Natal de hoje tiveram necessariamente origem diferente.Na verdade, ele já se apresentou de várias formas (a fumar um cachimbo de barro, a beber vinho...) e vestiu diversos modelos (desde o castanho-serapilheira dos frades, a cores mais garridas; na cabeça usava ora um barrete, ora uma coroa de azevinho).
(Postais antigos: França, 1909 e Alemanha, 1914. Daqui)
A ideia de um velhinho barrigudo, de barbas brancas e bochechas rosadas[1], viajando num trenó puxado por oito renas foi introduzida por Clement Clarke Moore, ministro episcopal[2], num poema datado de 1822 e entitulado “An account of a visit from Saint Nicholas” (um relato da visita de S. Nicolau). Isto, portanto, há mais de 180 anos.
'Twas the night before Christmas, when all through the house
Not a creature was stirring, not even a mouse;
The stockings were hung by the chimney with care,
In hopes that St. Nicholas soon would be there. [3]
(...)
Ao que parece, Moore terá escrito o poema para os seus seis filhos e esposa, sem quaisquer intenções de o publicar, mas este acabaria por ser divulgado no jornal Troy Sentinel, de Nova Iorque, no ano seguinte[4]. A partir de então, vários outros jornais e revistas publicaram o poema, chegando a constar do “The New York Book of Poetry” (Livro de Poesia de Nova Iorque, 1837), mas sempre sem se mencionar o seu autor; e, só mais de uma década depois, Moore terá reclamado a autoria do mesmo[5], incluindo-o, em 1844, num dos seus livros de poesia.
Contudo, o primeiro desenho que retrataria a figura do Pai Natal tal como hoje o reconhecemos foi feito pelo cartonista americano Thomas Nast [6], e exibido no seu livro a quatro cores intitulado “Santa Claus and his works” (Pai Natal e os seus trabalhos), de 1866. Aqui, o simpático velhote surge a carregar o seu saco de presentes, e ostentando já a sua farpela vermelha e branca. [7]
Esta história, na qual aparecem também representados a sua oficina no Pólo Norte, bem como os seus ajudantes e a sua esposa, a Mãe Natal, foi incluída na edição de Natal do “Harper’s Weekly” desse mesmo ano.
É possível que o acesso a ela seja hoje extremamente difícil, possivelmente apenas limitado a algumas das melhores bibliotecas (informação que até à data da elaboração deste artigo não me foi possível apurar). Todavia, quem quiser apreciar algumas ilustrações do Pai Natal desde Nast até ao primeiro anúncio da Coca-Cola onde ele figura, poderá fazê-lo neste interessantíssimo site (Jipemania), ficando aqui alguns exemplos:
Esta história, na qual aparecem também representados a sua oficina no Pólo Norte, bem como os seus ajudantes e a sua esposa, a Mãe Natal, foi incluída na edição de Natal do “Harper’s Weekly” desse mesmo ano.
É possível que o acesso a ela seja hoje extremamente difícil, possivelmente apenas limitado a algumas das melhores bibliotecas (informação que até à data da elaboração deste artigo não me foi possível apurar). Todavia, quem quiser apreciar algumas ilustrações do Pai Natal desde Nast até ao primeiro anúncio da Coca-Cola onde ele figura, poderá fazê-lo neste interessantíssimo site (Jipemania), ficando aqui alguns exemplos:
(“Santa Claus and his works”, 1866)
Sendo verdade que podemos encontrar algumas figuras do Pai Natal vestido de cores variadas ainda no início do século XX, a imagem do velhinho de barbas brancas e bochechas rosadas, vestindo uma fatiota vermelha e carregando um saco já se tornara aparentemente consensual por volta dos ano 20, encontrando-se descrita no The New York Times de 27 de Novembro de 1927 desta forma [8]:
"A standardized Santa Claus appears to New York children. Height, weight, stature are almost exactly standardized, as are the red garments, the hood and the white whiskers. The pack full of toys, ruddy cheeks and nose, bushy eyebrows and a jolly, paunchy effect are also inevitable parts of the requisite make-up".
Antes, por volta do ano de 1905, Ellis Parker Butler, um conhecido escritor humorista Nova-iorquino, dera um importante impulso a essa tradição, ao publicar a revista infantil "St. Nicholas".
Em 1939, Robert L. May, colaborador da cadeia de lojas Montgomery, com sede em Chicago, cria uma história de Natal para ser oferecida aos clientes, onde surge, pela primeira vez, Rudolph uma jovem rena desprezada pelas restantes oito, devido ao seu nariz grande, vermelho e reluzente, mas que acaba por ser a salvação do Pai Natal numa noite de muito nevoeiro, ao iluminar-lhe o caminho [9]. Tempos depois, o cunhado de May, o compositor Johnny Marks, concebe a letra e a música para uma canção, e a versão musical de "Rudolph the Red-Nosed Reindeer" foi finalmente gravada por Gene Autry em 1949 [10], tendo vendido, só nesse ano, 2 milhões de cópias, e transformando-se numa das músicas de Natal mais escutadas de todos os tempos. Em 1964, a história é levada à televisão.
Em 1939, Robert L. May, colaborador da cadeia de lojas Montgomery, com sede em Chicago, cria uma história de Natal para ser oferecida aos clientes, onde surge, pela primeira vez, Rudolph uma jovem rena desprezada pelas restantes oito, devido ao seu nariz grande, vermelho e reluzente, mas que acaba por ser a salvação do Pai Natal numa noite de muito nevoeiro, ao iluminar-lhe o caminho [9]. Tempos depois, o cunhado de May, o compositor Johnny Marks, concebe a letra e a música para uma canção, e a versão musical de "Rudolph the Red-Nosed Reindeer" foi finalmente gravada por Gene Autry em 1949 [10], tendo vendido, só nesse ano, 2 milhões de cópias, e transformando-se numa das músicas de Natal mais escutadas de todos os tempos. Em 1964, a história é levada à televisão.
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[1] Embora se tratasse de um elfo e fumasse cachimbo.[2] Clement Clarke Moore (1779-1863). Filho do Reverendo Benjamin Moore, presidente da actual Universidade da Columbia e Bispo Episcopal de New York. Imagem no final.[3] O poema, cujo início se inclui, correu o mundo, tendo sido traduzido em diversas línguas. Poderá ser lido, na sua versão original e integral, por exemplo aqui.
[4] Algumas fontes indicam que uma senhora, de nome Harriet Butler, terá tido acesso ao mesmo através de um dos filhos de More, e decidiu levá-lo ao editor do Jornal.[5] Em tom de lenda se diz que Moore terá tido a ideia para os seus versos aquando da viagem de trenó que o trouxe de Greenwich Village, onde comprara o perú para a ceia de Natal. Alguns adiantam mesmo que terá sido o alemão barbudo e anafado que o conduziu, a inspirar as características físicas do seu Pai Natal. Atribui-se a fontes finlandesa a chegada do mesmo pela chaminé, já as renas poderão remontar às histórias Vicking. Todavia, vários investigadores vêm discutindo em redor de uma considerável dúvida acerca da autoria do poema, havendo quem defenda que este poderá ter sido escrito pelo Major Henry Livingston, Jr.[6] Thomas Nast (1840-1902). [imagem no final]. Outras ilustrações de Natal de Nast poderão ser apreciadas aqui. Imagem no final.
[7] Em 1870, Nast fez ainda um segundo livro ilustrado denominado “The night before Christmas” (A noite antes do Natal).[8] Twitchell, James B. Twenty Ads That Shook the World. New York: Crown Publishers, 2000. ISBN 0-609-60563-1 (pp. 102-107).
[9] Caderneta para colorir das lojas Montgomery Ward company, com a história de L. May. Imagem no final.
[7] Em 1870, Nast fez ainda um segundo livro ilustrado denominado “The night before Christmas” (A noite antes do Natal).[8] Twitchell, James B. Twenty Ads That Shook the World. New York: Crown Publishers, 2000. ISBN 0-609-60563-1 (pp. 102-107).
[9] Caderneta para colorir das lojas Montgomery Ward company, com a história de L. May. Imagem no final.
Imagens:
Música: Bing Crosby and Elvis - I'm Dreaming Of A White Christmas (Christmas Songs).
Nota: e desculpem qualquer coisinha, se isto estiver pejado de erros. Não estou concentrada, não estou! Se me for permitido pedir-vos, os que virem ignorem ou indiquem, conforme a vossa vontade. Depois venho rectificar e burilar. Em contagem decrescente, mas pedindo que o assunto se mantenha mudo, resta-me dizer que esta história de Natal é, claro, para vocês! Um grande abraço.









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20 Comments:
Apreciei muito este teu estudo, tão completo, sobre o Pai Natal, um velhote tão amoroso e querido por todas as crianças. As imagens que o ilustram também são óptimas! Gostei principalmente dos postais antigos que são a minha paixão.
Se o estudo tem erros, não dei por eles.
Não perde a excelência, de modo algum, o teu artigo (bem elaborado, escrito e uma descrição como poucas...) o facto de te fazer uma pequena correcção: o postal que apresentas é de 1909 e não 1090.
Não pretendendo que leves a mal, achei que o devia fazer. :-)
Adorei o que escreveste de uma maneira simples, acessível, escorreita e deveras esclarecedora.
Parabéns!!!
Beijinhos
Luísa: Ah, os postais vintage... Algo me dizia que irias gostar! :-) Obrigada!!!
Ferrus: xi, tanta cerimónia (lol)! Sabes quem é que não se deve corrigir? Quem já não tem emenda, eheheh! Eu cá, assim como assim...(!;-).
Tens toda a razão [eis um erro "tirado a ferrus" :-)], e já rectifiquei.
Eu é que peço desculpa, pois tive a plena noção de que a minha redacção não contou com o zelo do costume, e já muito abuso foi publicá-la com essa consciência. Mas assim sempre vos obrigo a ler tudinho, eheheheh (olha que eu não tinha pensado nisso, mas na volta até resulta: "descubra os erros"!). Muito obrigada. Gosto muito de te ter por cá! Um abraço! :-)
Eu não faria mmelhor e sou profissional.
Excelente.
Bjs APC
Olá APC
Editaste um excelente texto.
Formalmente, está muito equilibrado entre o texto, as remissões e as respectivas ilustrações.
Cheio de pedagogia.
Gostei muito.
Sinto-me muito gratificado pelo comentário que deixaste no meu blog.
Agradeço e reitero o que aqui já deixei escrito: deixar de editares com a qualidade que nos habituaste vai custar muito. Claro que compreendo que para tomares essa decisão haverá uma razão muito forte. Mas não esqueças um detalhe: levar por diante o blog, mesmo exigindo muito, não deixa de ser uma exercício que mantem activos não apenas os vectores lúdico como o estritamente intelectual, mantém acesa a capacidade de organizar e editar textos, mantendo agilizada a actividade intelectual (Repito-me. Vou terminar)..Faz favor de não encerrares «portas». As pausas são salutares...os encerramentos, não!
Bjs
Que texto lindo e bem pesquisado sobre o bom velhinh hehe.
Achwei bastante interessante.
Adorei.
Ei APC, venha no meu blog, estou lhe convidando para outra festa. Vai lá, Tem muita farra.
Conto com você.
beijos
;)
Agradeço (no que me diz respeito) a prenda colectiva que agora ofereces. É um texto muito bem elaborado e apoiado por uma pesquisa laboriosa e sugestivas imagens que o completam na perfeição. Os meus parabéns.
Sou danado por receber prendas,venham elas em que altura vierem. Esta, vou colocá-la na árvore de natal, próxima de um ursinho (já quase careca de tanto uso que lhe dei quando era muito pequeno e quando ainda se usava dar ursos às crianças´; agora já lhes dão jardins zoológicos informatizados... )que tem lugar cativo na dita-cuja árvore.
Vou indo que o sono hoje veio mais cedo.
Estou desapontado. Achava tão emocionante a ideia de ter sido o capitalismo desenfreado americano responsável pela cor da fatiota do homem!
Até perdi o apetite ao meu croissante matinal :-(
Acertaste, sou terapeuta do Sururú (como sabias?) cada consulta são 500 euros já qué é uma doença fina! :-)))
Kiiiiisssssss!!!
desculpa lá. onde está o meu comentario onde te revelo em segredo que o pai natal é que inventou a coca cola?
ora essa
a cesar o que nao é de cesar.
quem te disse em 1º mao... FUI EU
ok... corte de relaçoes
bom natal
cf
Um belo estudo, fundamentado e muito interessante. Na verdade,o meu natal de criança era mais do menino Jesus. Mas depois começou a imperar o Pai Natal. Gostei de saber a sua história. **
Obrigada pela tua história de Natal, adorei e cada vez que aqui venho fico muito mais rica. Beijinhos de bfs
Fenomenais postais antigos a acompanhar... Ficava aqui a olhar para isto, noites a fio!
Isto está mesmo a ficar longo :-). Entretanto chega o Natal e nada de Pai Natal. Abraço! (não custa nada tentar não é?)
E agora vou acreditar em quê?!!
Versão:
Com Coca-cola ou sem Coca-cola?
Isto é demais para mim.
Estou a falar do teu Extra, Extra!
beijojoca:)
obrigada pelo presente no sapatinho :)
Engraçado, ainda ontem pensava a ouvir uma reportagem sobre o Pai Natal que estava de serviço num centro comercial de Lisboa e que trocava o turno com um outro, de que a magia que me foi passada pelos meus Avós e Pais acerca do pai Natal, se está a esfumar completamente.
As crianças de hoje, com aquela realidade tão crua, que nos entra pela casa dentro transmite, deixam de ter ilusões e magia nos seus pensamentos.
E é tão bom ter magia em nós!
Excelente o teu texto. Adorei os postais. Lembrei muitos que faziam parte de uma colecção que o meu Pai teve, guardada religiosamente...
Deixo um abraço carinhoso e fico-te grata pela partilha.
Bom sábado ;)
Ah... esqueci-me de referir que li toda a trilogia do Pai Natal.
Excelente, como já tinha referido. Quis deixar expresso isto.
Beijo ;)
Não conhecia de todo a história... sigo-a com interesse.
As imagens "retro" são deliciosas.
A forma do texto e as notas bibliográficas são de quem não se esqueceu de como se fazem trabalhos na faculdade...
Quando saí o próximo?
querida amiga: por cá passei, não uma, mas várias vezes, deixando algumas palavras, certamente perdidas nos labirintos dos bugs informáticos.
bom perceber que não estamos sós. o presente texto é prova disso: nem todos aceitam a mesmice. foste muito feliz ao escrevê-lo.
grato, de coração.
Feliz Natal, Amiga!
Tive sempre um relacionamento estranho com o Pai Natal... enquanto criança afirmei, mais do que uma vez, que o tinha visto na chaminé da quinta dos meus avós.
Hoje, gosto do Pai Natal, como se de um verdadeiro amigo se tratasse. Tenho saudades de o ver, de o sentir e de o ouvir... e fiquei mais completa com o teu conto.
Não conhecia a história tão profundamente e... gosto ainda mais.
A vida não faz mesmo sentido sem magia. Ainda que esta magia viva apenas no coração de uma criança.
Beso
(em contagem decrescente... buáaaa)
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