quinta-feira, setembro 20, 2007

Miguel Torga by Lobo Antunes

Praticamente desde que nasci a minha madrinha depositava umas coroas em meu nome no Montepio. Volta e meia acenava-me com a caderneta de longe, prevenia
- Aos dezoito anos tens aqui um dinheirinho
e aos dezoito anos, eu que imaginava milhões e me imaginava a mim transformado em nababo, tinha ali um dinheirinho de facto. Levei um mês a pensar no que fazer àquilo. E como não dava para uma volta ao mundo nem para um iate ancorado na Riviera, comprei os livros todos de Miguel Torga.
(...)
O meu irmão Jorge e eu partilhávamos o mesmo quarto e cada qual tinha a sua biblioteca. Conforme ele escreveu há pouco Miguel Torga figurava em ambas, nós que éramos tudo menos abonados.
E enfileirei com pompa os exemplares que me faltavam na estante, aquelas edições de autor, de capa branca, de que se abriam as páginas com uma faca e cheiravam vagamente a floresta.
(...)

Pouco importa o que penso hoje da sua obra. Importa muito mais o valor que teve para mim e o prazer que me deu.
E continuo a sentir pelo escritor que li todo e pelo homem que não conheci um respeito inalterável. Devo-lhe o exemplo de uma dignidade ímpar enquanto artista e de uma imensa dignidade cívica enquanto homem.
(...)
Miguel Torga, que falou de Portugal como poucos, com infinito orgulho e infinita piedade, ajudou-me a conhecê-lo e a não me sentir culpado pelo complicado relacionamento de indignada paixão que com ele tenho.
(...)

Depois gostava da cara dele, que só conheço de retratos. Lavrada de ossos achava-o a viva pintura do que somos e a virilidade da sua ternura comoveu-me sempre, como uma escondida lágrima de sangue. É raro encontrar um escritor de prosa tão masculina e no entanto capaz de um jeito tão maternal a transbordar de emoção, contida à rédea curta pela força do pulso, no qual se percebe uma pessoa em carne viva, de sofrimento todo embrulhado em ironia e pudor. O que nos deixou pode ser muito bem, um bom, ou menos bom* mas é inalteravelmente sério e sem trapaças o que é mais raro do que se julga. E depois há nele um sentido ético da Literatura, da Medicina e da Vida que me faz lembrar, com exigência, o que o meu pai nos inculcou.
(...)

É que se trata de uma das grandes figuras de Portugal do século vinte e somos, por vezes, tão ingratos para com aqueles que nos tornaram maiores e nos legaram o orgulho de caminharmos direitos sobre as patas de trás, aumentando a dimensão da nossa própria sombra. Tenho saudades do entusiasmo com que o li em adolescente, o copiei, o imitei, o invejei na busca, eternamente adiada, da minha própria voz, que tão tarde chegou.
(...)

Lembrei-me neste momento de lhe ler no Diário, a propósito do autor do Messias, que de vez em quando Deus encontra homens à sua medida. As palavras são estas, mais coisa menos coisa. Miguel Torga podia perfeitamente estar a falar de si mesmo porque foi um homem assim. A sua doença tocou-me, a sua morte tocou-me, as últimas páginas que compôs para o Diário são de uma desgarradora aflição, a desgarradora aflição de um homem vertical e corajoso, que tanto de si mesmo nos entregou a todos. Sei bem o que é o cancro, sei bem que, embora matando-o, não o venceu. Ninguém vence uma fraga. Ninguém vence um negrilho. E ninguém derruba um homem que, desde o início, fez corpo com a terra, e lançou tão fortes raízes no interior de nós.

(Revista Visão, 20 de Setembro de 2007, p.10)
* Tratar-se-á, aparentemente, de um erro tipográfico (?!).

9 Comments:

Blogger Maria said...

O ALA tornou-se um escritor (um homem) diferente depois do que lhe aconteceu. Nota-se na sua escrita, aqui. Acho que acontece a todos, uma "costela" de sensibilidade vem mais à tona, e valorizam-se coisas que antes eram mínimas.... e o inverso também é verdadeiro...

Bom fim de semana, e um abracinho
:)

setembro 22, 2007 3:02 da manhã  
Anonymous Luisa said...

Muito interessante este extracto.

setembro 22, 2007 12:24 da tarde  
Blogger Cláudia Cunha said...

São seres maiores estes... Grandes demais para o corpo físico que habitam...

setembro 22, 2007 11:31 da tarde  
Blogger art&tal said...

por esta já mereces um bj

tambem os tenho alinhadinhos... branquinhos e falaria dele e deles com a mesma condimentada dedicaçao.

este nao se deu a pompas...

setembro 23, 2007 12:53 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Quem sou eu para falar destes dois homens?. Limito a curvar-me perante o seu talento e sentir-me tão pequenino...

setembro 24, 2007 3:40 da tarde  
Blogger Perdido said...

Eu so me lembro do estupor do Ladino que nem por nada queria saltar do ninho abaixo. E vejam no que ele deu. E do Miura a arremeter contra os palhaços de lantejoulas que ós depois se esfumavam em miragem. E tantos outros... O torga d´prazer mesmo, caramba!

setembro 26, 2007 12:24 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Venero e curvo-me sobre dois seres indescritíveis e de leitura intransmissivel, tamanha as sensações que e fazem sentir...

Realmente noto a escrita do A.L.Antunes ainda mais carnal depois da vivência da doença

Http:pedacodarte.blogspot.com

outubro 02, 2007 4:15 da tarde  
Blogger APC said...

"Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não — sim."

(Lobo Antunes, sobre o cancro, quando dele também padeceu).

outubro 18, 2007 1:39 da manhã  
Blogger jawaa said...

Agradeço aqui as palavras bonitas que me deixaste, pareceram-me sinceras. Como te agradeço!
Sabes a razão por que ALA escreveu esta crónica? Ele não diz mas eu sei: foi para discordar da presença dos restos de Aquilino Ribeiro (Mestre Aquilino!)no Panteão Nacional.
Entre Aquilino e Torga passou-se o mesmo que entre ALA e Saramago, ao mesmo tempo esperando um Nobel.
Se reparares, saiu na mesma semana, ou perto.
Parece que Deus - que é Deus - é muitas vezes injusto.
Um abraço

novembro 10, 2007 7:59 da tarde  

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